quarta-feira, 26 de agosto de 2026

CRÔNICA: ONTEM E HOJE - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: ONTEM E HOJE

            Lima Barreto

 

        Como todo o Rio de Janeiro sabe, o seu centro social foi deslocado da Rua do Ouvidor para a avenida e, nesta, ele fica exatamente no ponto dos bondes da Jardim Botânico.

        Lá se reúne tudo o que há de mais curioso na cidade. São as damas elegantes, os moços bonitos, os namoradores, os amantes, os badauds, os camelots e os sem esperança.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjGpnKeQxzTkUXZkhZghM-tofmpcwBHAkCSyH6jASADBapgTxicdC9GWU01hJhHBG3ir6IleQSgX-gkwGZfoAnlw0OMwhN24O_Q1KueBq5W_HdmePNeI0up02zf2XLgHgS-ZQ3GTTqIicgj2gAi9tyDGzxZACyFWfx6wgj74N0Q6gaJjB45sOmi7TGkPaY/s320/images.jpg


        Acrescem para dar animação ao local, as cervejarias que há por lá, e um enorme hotel que diz comportar não sei quantos milheiros de hóspedes.

        Nele moram vários parlamentares, alguns conhecidos e muitos desconhecidos. Entre aqueles está um famoso pela virulência dos seus ataques, pela sua barba nazarena, pelo seu pince-nez e, agora, pelo luxuoso automóvel, um dos mais chics da cidade.

        Há cerca de quatro meses, um observador que lá se postasse, veria com espanto o ajuntamento que causava a en­trada e a saída desse parlamentar.

        De toda a parte, corria gente a falar com ele, a abraçá-lo, a fazer-lhe festas. Eram homens de todas as condições, de todas as roupas, de todas as raças. Vinham os encartolados, os abrilhantados, e também os pobres, os mal vestidos, os necessitados de emprego.

        Certa vez a aglomeração de povo foi tal que o guarda civil de ronda compareceu, mas logo afastou-se dizendo:

        – É o nosso homem.

        Bem; isto é história antiga. Vejamos agora a moderna. Atualmente, o mesmo observador que lá parar, a fim de guardar fisionomias belas ou feias, alegres ou tristes e registrar gestos e atitudes, fica surpreendido com a estranha dife­rença que há com aspecto da chegada do mesmo deputado. Chega o seu automóvel, um automóvel de muitos contos de réis, iluminado eletricamente, motorista de fardeta, todo o veículo reluzente e orgulhoso. O homem salta. Pára um pouco, olha desconfiado para um lado e para outro, levanta a cabeça para equilibrar o pince-nez no nariz e segue para a escusa entrada do hotel.

        Ninguém lhe fala, ninguém lhe pede nada, ninguém o abraça – porque?

        Porque não mais aquele ajuntamento, aquele fervedouro de gente de há quatro meses passados?

        Se ele sai e põe-se no passeio à espera do seu rico auto­móvel, fica isolado, sem um admirador ao lado, sem um cor­religionário, sem um assecla sequer. Porque? Não sabemos, mas talvez o guarda civil pudesse dizer:

        – Ele não é mais o nosso homem.

                                                           Careta, Rio, 26-6-1915.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi a mudança espacial ocorrida no centro social do Rio de Janeiro citada pelo cronista no início do texto?

      O centro da vida social e urbana carioca deslocou-se da Rua do Ouvidor para a Avenida (Avenida Central/Rio Branco), concentrando-se especificamente no ponto de embarque e desembarque dos bondes da Jardim Botânico.

 

02 – Como o cronista descreve o ambiente e os tipos sociais que frequentavam esse novo ponto de encontro da cidade?

      O local é caracterizado pela diversidade e agitação, animado por cervejarias e por um grande hotel. Abriga figuras variadas da sociedade carioca, descritas como "damas elegantes, moços bonitos, namoradores, amantes, badauds (curiosos), camelots (camelôs) e os sem esperança".

 

03 – Qual era o comportamento do público em relação ao parlamentar "há cerca de quatro meses" (o "ontem")?

      O parlamentar recebia um acolhimento caloroso e constante de uma multidão heterogênea (pobres, ricos, necessitados de emprego). O ajuntamento era tão grande que chamava a atenção da polícia, mas o guarda civil aprovava a cena dizendo: "É o nosso homem".

 

04 – Qual o contraste entre o status material do parlamentar e o seu tratamento social no momento presente (o "hoje")?

      Embora o parlamentar ostente um status material elevado (chegando em um luxuoso e reluzente automóvel com motorista fardado), no plano social ele é totalmente ignorado. Ninguém o aborda, o abraça ou pede favores, deixando-o isolado no passeio.

 

05 – Qual é a crítica feita por Lima Barreto à volatilidade do poder e do prestígio político no desfecho da crônica?

      Lima Barreto evidencia a natureza passageira e interesseira do prestígio político. O político só é cercado de atenção e "admiradores" enquanto possui poder ou influência para conceder favores; perdendo esse espaço, é imediatamente abandonado pela população, o que se sintetiza no pensamento do guarda: "Ele não é mais o nosso homem".

 

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