Crônica: ONTEM E HOJE
Lima Barreto
Como
todo o Rio de Janeiro sabe, o seu centro social foi deslocado da Rua do Ouvidor
para a avenida e, nesta, ele fica exatamente no ponto dos bondes da Jardim
Botânico.
Lá
se reúne tudo o que há de mais curioso na cidade. São as damas elegantes, os
moços bonitos, os namoradores, os amantes,
os badauds, os camelots e os sem esperança.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjGpnKeQxzTkUXZkhZghM-tofmpcwBHAkCSyH6jASADBapgTxicdC9GWU01hJhHBG3ir6IleQSgX-gkwGZfoAnlw0OMwhN24O_Q1KueBq5W_HdmePNeI0up02zf2XLgHgS-ZQ3GTTqIicgj2gAi9tyDGzxZACyFWfx6wgj74N0Q6gaJjB45sOmi7TGkPaY/s320/images.jpg Acrescem
para dar animação ao local, as cervejarias que há por lá, e um enorme hotel que
diz comportar não sei quantos milheiros de hóspedes.
Nele
moram vários parlamentares, alguns conhecidos e muitos desconhecidos. Entre
aqueles está um famoso pela virulência dos seus ataques, pela sua barba
nazarena, pelo seu pince-nez e, agora, pelo luxuoso automóvel, um dos
mais chics da cidade.
Há
cerca de quatro meses, um observador que lá se postasse, veria com espanto o
ajuntamento que causava a entrada e a saída desse parlamentar.
De
toda a parte, corria gente a falar com ele, a abraçá-lo, a fazer-lhe festas.
Eram homens de todas as condições, de todas as roupas, de todas as raças.
Vinham os encartolados, os abrilhantados, e também os pobres, os mal vestidos,
os necessitados de emprego.
Certa
vez a aglomeração de povo foi tal que o guarda civil de ronda compareceu,
mas logo afastou-se dizendo:
– É o nosso homem.
Bem; isto é história antiga. Vejamos agora a moderna. Atualmente, o
mesmo observador que lá parar, a fim de guardar fisionomias belas ou feias,
alegres ou tristes e registrar gestos e atitudes, fica surpreendido com a
estranha diferença que há com aspecto da chegada do mesmo deputado. Chega o
seu automóvel, um automóvel de muitos contos de réis, iluminado eletricamente,
motorista de fardeta, todo o veículo reluzente e orgulhoso. O homem salta. Pára
um pouco, olha desconfiado para um lado e para outro, levanta a cabeça para
equilibrar o pince-nez no nariz e segue para a escusa entrada do
hotel.
Ninguém lhe fala, ninguém lhe pede nada, ninguém o abraça – porque?
Porque não mais aquele ajuntamento, aquele fervedouro de gente de há
quatro meses passados?
Se ele sai e põe-se no passeio à espera do seu rico automóvel, fica
isolado, sem um admirador ao lado, sem um correligionário, sem um assecla
sequer. Porque? Não sabemos, mas talvez o guarda civil pudesse dizer:
–
Ele não é mais o nosso homem.
Careta, Rio, 26-6-1915.
Entendendo a crônica:
01 – Qual foi a
mudança espacial ocorrida no centro social do Rio de Janeiro citada pelo cronista
no início do texto?
O centro da vida
social e urbana carioca deslocou-se da Rua do Ouvidor para a Avenida (Avenida
Central/Rio Branco), concentrando-se especificamente no ponto de embarque e
desembarque dos bondes da Jardim Botânico.
02 – Como o cronista
descreve o ambiente e os tipos sociais que frequentavam esse novo ponto de
encontro da cidade?
O local é
caracterizado pela diversidade e agitação, animado por cervejarias e por um
grande hotel. Abriga figuras variadas da sociedade carioca, descritas como
"damas elegantes, moços bonitos, namoradores, amantes, badauds (curiosos),
camelots (camelôs) e os sem esperança".
03 – Qual era o
comportamento do público em relação ao parlamentar "há cerca de quatro
meses" (o "ontem")?
O parlamentar
recebia um acolhimento caloroso e constante de uma multidão heterogênea
(pobres, ricos, necessitados de emprego). O ajuntamento era tão grande que
chamava a atenção da polícia, mas o guarda civil aprovava a cena dizendo:
"É o nosso homem".
04 – Qual o
contraste entre o status material do parlamentar e o seu tratamento social no
momento presente (o "hoje")?
Embora o
parlamentar ostente um status material elevado (chegando em um luxuoso e
reluzente automóvel com motorista fardado), no plano social ele é totalmente
ignorado. Ninguém o aborda, o abraça ou pede favores, deixando-o isolado no
passeio.
05 – Qual é a
crítica feita por Lima Barreto à volatilidade do poder e do prestígio político
no desfecho da crônica?
Lima Barreto
evidencia a natureza passageira e interesseira do prestígio político. O
político só é cercado de atenção e "admiradores" enquanto possui
poder ou influência para conceder favores; perdendo esse espaço, é
imediatamente abandonado pela população, o que se sintetiza no pensamento do
guarda: "Ele não é mais o nosso homem".
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