Crônica: SOBRE O DESASTRE
Lima Barreto
Viveu uma semana a cidade sob a
impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se
por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino
que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os
espíritos.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj98G7vJrwm8VHCEDkGBO8cXs5Por39dXm6UQ6MIl5EbQsLF_u5lYxyLp5qRE9nr4IgE4uRCzn0P1yEnJoyBt4VIJTKhCdDt1F46KDBrxwyUxR3AfcgG5PaYh4EP6-SXMwSzLdsVNIqzHy5R8eok2PjQfEt3-DmihuMSaYM9tGRLk3OpMhlhNg9AQophDw/s320/Rua-da-Cerveja-3.png Todos
procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os
médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os
quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma
coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação
moral, ou antes, social.
Nesse
atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações
subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do
relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O
nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está
querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro
qualquer de sua raça.
A
brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade
administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós
aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O
Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é,
que se ir do Méier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto,
não se saia da zona urbana.
De
resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e
assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão
tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque
os fazem então?
E
por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de
mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a
acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele
poderoso país.
Longe
de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da
civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand
même, é que não posso fazer.
O
Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas
torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se
é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área
de chão convenientemente proporcional.
Nós
não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma
pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta
ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia
brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos
essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de
dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus
humildes construtores.
Os
inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a
mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os
elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce
ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de
pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão
de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos
aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que
irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do
verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos”
que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não
ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são
inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta.
Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer:
“Venceste Galileu.”
Revista da Época, Rio, 20-7-1917.
Entendendo a crônica:
01 – Qual é o temor
do cronista no início do texto em relação à comoção gerada pelo "desastre
da Rua da Carioca"?
O autor teme que
a forte impressão causada pela tragédia em todas as camadas da sociedade seja
passageira e se apague rapidamente da memória das pessoas devido ao ritmo
acelerado e ao atordoamento da vida urbana moderna.
02 – Segundo Lima
Barreto, qual dimensão essencial da tragédia foi ignorada pela maioria da
população e pelos especialistas?
Todos buscaram
apenas os motivos técnicos, médicos ou operacionais da catástrofe, mas ninguém
se lembrou de analisar a sua significação moral e social — ou seja, como a
obsessão pelo progresso desenfreado e brutal afasta a sociedade do equilíbrio e
da medida.
03 – Qual a crítica
central que o autor faz à influência dos Estados Unidos no desenvolvimento
urbano do Rio de Janeiro?
O cronista
critica a imitação cega e servil do modelo americano, caracterizado por ele
como focado no mercantilismo, na apressa e na "brutalidade". Ele
aponta que a construção de arranha-céus (sky-scrapers) no Rio não decorre de
uma necessidade real de espaço, mas de ganância e fascínio por uma modernidade
esteticamente feia e perigosa.
04 – Quais são os
argumentos apresentados por Lima Barreto para demonstrar que o Rio de Janeiro
não precisava construir grandes arranha-céus?
O Rio de Janeiro
é uma cidade de grande extensão territorial com densidade que permite a
expansão horizontal (ao contrário de Nova York, comprimida em uma ilha);
Edifícios gigantescos ("torres
babilônicas") alteram a paisagem e bloqueiam a beleza natural dos
horizontes da cidade;
Essas construções trazem grandes riscos à
segurança, como a dificuldade de evacuação em incêndios e o potencial aumento
da criminalidade interna.
05 – Como a
referência final ao imperador romano Juliano reflete o posicionamento do
próprio Lima Barreto frente à sociedade de sua época?
Ao citar Juliano
— imperador que tentou conter o avanço do cristianismo e defender a cultura
clássica, sabendo-se em posição vencida —, Lima Barreto assume que sua postura
crítica ao "progresso" e ao modelo americano é contra a corrente
dominante (inatual), reafirmando seu compromisso ético de resistir mesmo
sabendo que a modernidade capitalista acabaria triunfando.
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