domingo, 23 de agosto de 2026

CONTO: A PEDRA NO CAMINHO - WILLIAM J. BENNETT - COM GABARITO

 Conto: A pedra no caminho

 

        Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpNb1GOhled-UxGCZpxAWbMl5DXpwSHHtKTpt1jeJnsk0f_hd1F1mWpCKZm_D-D8mk9vg-e5TsRPT098lvTW-AwK_AWZ6Y-YF0YdvdE_l1hRF0kKwPu1fFcIz5GLREfsgjndbvzG7r_I6YJNu7vbWTZpcojLM2xzwKGERXJokpWnRfLg00l26i48j59fQ/s320/images.jpg


        — Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

        Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

        Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

        — Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?  E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

        Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

        O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

        Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

        Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho.

        Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”

        E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

        Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

        Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

        A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

        — Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

        Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

 

William J. Bennett O Livro das Virtudes II Editora Nova Fronteira, 1996.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual era o principal objetivo do rei ao colocar uma pedra propositalmente no meio da estrada e o que isso revela sobre a sua visão de liderança?

      O rei, descrito como sábio, não buscava apenas pregar uma peça, mas sim criar uma lição prática sobre cidadania e iniciativa. Seu objetivo era "inculcar bons hábitos" e testar a disposição do povo em resolver problemas por conta própria em vez de apenas reclamar. Isso revela uma visão de liderança educativa, onde o governante não apenas provê, mas desafia seus súbditos a serem proativos e responsáveis pelo bem comum.

 

02 – Compare a reação do fazendeiro e do soldado diante do obstáculo. O que há de comum entre as atitudes desses dois personagens?

      Ambos os personagens reagem com indignação e buscam culpados externos ("preguiçosos"), mas nenhum deles considera a possibilidade de resolver o problema pessoalmente. O fazendeiro desvia sua carroça e reclama; o soldado, embora sofra um acidente físico ao tropeçar, também se limita a limpar a poeira e amaldiçoar os outros. O ponto comum é a passividade e o egoísmo: eles enxergam a pedra como um incômodo para si, mas não sentem a responsabilidade de removê-la para ajudar a coletividade.

 

03 – Por que a filha do moleiro foi a única a retirar a pedra e qual foi a sua principal motivação, de acordo com o texto?

      Diferente dos outros, a filha do moleiro foi movida pela empatia e pela prudência. Mesmo estando cansada após um dia de trabalho, ela pensou na segurança alheia ao notar que, com a chegada da noite, alguém poderia tropeçar e se ferir gravemente. Sua motivação não foi a busca por recompensa (já que ela não sabia do ouro), mas sim o desejo genuíno de evitar um mal ao próximo e melhorar o caminho para todos.

 

04 – Explique o significado da frase final do rei: "A decepção é normalmente o preço da preguiça." Relacione-a com o comportamento final dos outros súbditos ao descobrirem o ouro.

      A frase sugere que aqueles que evitam o esforço e o trabalho perdem as oportunidades de crescimento e recompensa que estão escondidas sob os desafios. A "decepção" mencionada refere-se ao sentimento do fazendeiro e do soldado que, ao verem o ouro, perceberam que a riqueza poderia ter sido deles se tivessem tido a iniciativa de agir. O comportamento final deles, de procurar ouro no pó da estrada, demonstra que eles ainda não haviam entendido a lição: a recompensa não cai do céu por sorte, mas é fruto de enfrentar o obstáculo.

 

05 – O conto utiliza a "pedra" como uma metáfora. Para além do objeto físico, o que a pedra representa na vida humana e qual é a mensagem central do conto sobre como devemos lidar com os nossos "fardos"?

      A pedra representa as dificuldades, problemas sociais e obstáculos inesperados que surgem em nossa jornada. A mensagem central é que os problemas não devem ser apenas contornados ou usados como motivo de reclamação; eles são oportunidades disfarçadas para o desenvolvimento pessoal e para o serviço ao próximo. O conto ensina que o progresso (o "ouro") pertence àqueles que arregaçam as mangas para transformar obstáculos em degraus.

 

 

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