domingo, 23 de agosto de 2026

CRÔNICA: AQUELE ESTRANHO ANIMAL - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

 CRÔNICA: AQUELE ESTRANHO ANIMAL

                   Mário Quintana

 Os de Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada: sou neutro.

Mas, pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei, e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades... Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgH1AJpc49clBnIW474JNvinWTtJ6P0-UaFLut-zFl197PefLv00_mwWe3KYuU0YiPyfyJWsuEQ-KKYAnr6ogODrBDef0dkmaapDtoHH8xazPbXWFBJhKvHmJyNcMXDlFq1IzF_OyDGkO0gqlIvNMYVpPON6PpmtjyFVQiwwlC94r5C89U2m6EImNrY-jg/s320/images.jpg


Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu - fufufupubum! fufufupubum chiiipum!

E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.

“Minha Nossa Senhora!”

O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.

 É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.

Chegado que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal-e-mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.

Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima de!e, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos a pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.

Até que enfim houve uma pausa para respiração.

O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto, porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando de seu ex-automóvel.

– A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

 

Mário Quintana, Almanaque do Correio do Povo,

Porto Alegre, 1971, p. 246.

Vocabulário

 Indiada – grupo de gaúchos  Às deveras – verdadeiramente

Filosofança – filosofia        Piazinho – menino pequeno

Petiço – cavalo pequeno     Capão – porção de mato isolado

Rilhar – ranger             Corcoveios – batimentos fortes – sobressaltado

Matungo – cavalo velho       Boleadeiras – aparelho usado pelos campeiros para laçar animais

A la pucha – expressão que denota surpresa      

Guasca – caipira do Rio Grande do Sul

Refoligar – tomar fôlego

 

Entendendo o texto

 

01.      A história narrada pelo Mario Quintana é realmente extraordinária. No primeiro parágrafo do texto ele:

        a. Questiona a autoria do acontecimento.

       b. Desmerece a importância da história.

       c.  Comprova a autenticidade dos fatos.

       d. Sugere a insignificância da origem do “causo”.                        

02.      O provérbio que se aplica ao primeiro parágrafo é:

       a.  “Quem conta um conto aumenta um ponto”

      b.  “Filho feio não tem pai”.

      c. “Nos menores frascos estão os melhores perfumes”

      d.  “Nem tudo o que reluz é ouro”.                                       

 03. No início do texto, o autor diz: "Eu não afirmo nada: sou neutro" e "a história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei...". Como podemos classificar o narrador desse texto?

     a. Um narrador-personagem que participou diretamente da briga com o automóvel.

     b. Um narrador-onisciente que sabe tudo o que os personagens estão pensando em segredo.

     c. Um narrador-observador que conta a história de fora, mas que assume aqui um tom brincalhão de quem ouviu um "causo".

     d. Um narrador impersonal que relata uma notícia de jornal com total seriedade científica.

 04.  Sobre o Tempo e o Espaço: A crônica de Mário Quintana se passa em um ambiente típico do interior gaúcho (citando Alegrete, Itaqui ou Uruguaiana) e em uma época em que o automóvel ainda era uma novidade absoluta para aquela gente. Marque a alternativa que aponta corretamente o espaço e o tempo implícitos na história:

     a. Uma grande metrópole moderna / O século XXI.

     b. Uma região campeira do Rio Grande do Sul / O tempo antigo da chegada dos primeiros carros.

    c. Uma praia isolada do litoral / O período das férias escolares.

    d. Uma pequena vila medieval / A época dos cavaleiros e reis.

 05.  Em uma narrativa, o clímax é o ponto de maior tensão ou o ápice do conflito. No texto, qual trecho representa o verdadeiro clímax da história?

    a. O momento em que o piazinho ouve o barulho na estrada e foge montado em seu petiço.

    b. A discussão inicial sobre onde exatamente o causo aconteceu (Alegrete ou Itaqui).

    c. A confissão do narrador de que a história tem "três metades".

    d. O ataque em massa da população da cidade — com porretes, garruchas e vassouras — contra o estranho "bicho" (o automóvel).

 

 Perguntas Dissertativas

 06. No final da história, o motorista sai do carro e um caipira (guasca) diz espantado: “O animal deu cria!” Explique, com suas palavras, por que o personagem teve essa reação e o que ele realmente estava vendo.

O guasca nunca tinha visto um carro na vida. Como o automóvel estava quebrado e as rodas pequenas caíram ou pararam por último, ele achou que o carro maior era um bicho e que as rodinhas eram os filhotes dele.

 07. Identifique quem são os personagens principais que iniciam a ação da história na estrada e descreva brevemente como um deles reage ao perigo.

Os personagens principais do início são o piazinho e o seu cavalo (o petiço). Ao ouvir o barulho do carro, o piazinho se assusta, dá meia-volta e foge numa disparada louca rumo à cidade, com muito medo.

 08. O texto tem um desfecho cômico e surpreendente. O que acontece com o "monstro" no final da narrativa?

O “monstro” é totalmente destruído pelos moradores com paus, pedras e vassouras, revelando-se no fim não ser um bicho, mas sim um automóvel que fica emborcado e escangalhado

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