Crônica: Vida Urbana – Fragmento
Lima Barreto
Atualmente, nada mais mete medo a um
pobre diabo que a tal história de aluguel de casa. Não há quem não esteja
pagando, por trapeiras, exorbitantes locações dignas de bolsos de ricaço, [...].
Um amigo, muito meu amigo mesmo, paga atualmente, nos confins dos subúrbios, o
avantajado aluguel de duzentos e cinco mil-réis por uma casa que, há dois anos,
não lhe custava mais de cento e cinquenta mil-réis. Para melhorar um tão
doloroso estado de coisas, a prefeitura pôs abaixo o Castelo e adjacências,
demolindo alguns prédios, cujos moradores vão aumentar a procura e encarecer,
portanto, ainda mais, as rendas das habitações mercenárias.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEimYXcJgFZBGKv9Dxmelucy2Kvmpw7-h6BC_Go1Qf_GOUxRvrkI_vb0-8bTvuU3fB11iFcR20iY1K0KrXng-pMHpthrqZonVR1SEMNdlsyxRhikjNYCh7YNluRGJA6iglvUNNLtSn69zYJdiuPyoYfA1-fd86rDbd6l5PnJz08Y4rejPn7SqE7RdE23MAk/s320/images.jpg A municipalidade desta cidade tem
dessas metidas paradoxais, para as quais chamo a atenção dos governos das
grandes cidades do mundo. Fala-se, por exemplo, na vergonha que é a Favela,
ali, numa das portas de entrada da cidade ― o que faz a nossa edilidade? Nada
mais, nada menos do que isto: gasta cinco mil contos para construir uma avenida
nas areias de Copacabana. Clama-se contra as péssimas condições de higiene do
matadouro de Santa Cruz, imediatamente a prefeitura providencia chamando
concorrência para a construção de um prado de corridas modelo, no Jardim
Botânico, à imitação de Chantilly.
De forma que a nossa municipalidade não
procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas
superfluidades. [...]
Lima Barreto. Vida
urbana. In Crônicas escolhidas de Lima Barreto.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 15.
Entendendo a crônica:
01 – De acordo com a crônica,
qual o significado das palavras abaixo:
-- Castelo: morro na região central do Rio de Janeiro, tomado por
cortiços que serviam de moradia da população pobre;
-- Mercenárias: que proporcionam vantagens e lucros injustos;
-- Edilidade: municipalidade;
-- Prado: pista para corrida de cavalos;
-- Chantilly: moderno hipódromo na França, inaugurado em 1834;
-- Superfluidades: futilidades, coisas supérfluas.
02 – Qual é a principal crítica social feita por Lima
Barreto no primeiro parágrafo do texto em relação à situação da habitação no
Rio de Janeiro?
Lima Barreto
critica a forte inflação imobiliária e o encarecimento dos aluguéis, que
atingiam desproporcionalmente a população de baixa renda (referida pelo autor
como "pobre diabo"). Ele denuncia o fato de que residências precárias
e de péssima qualidade ("trapeiras") estavam sendo cobradas a preços
exorbitantes, incompatíveis com a realidade financeira das classes populares e
dignos de pessoas ricas. Para exemplificar a gravidade da situação, o autor
cita o caso de um amigo morador do subúrbio que sofreu um aumento expressivo no
aluguel em um curto período de dois anos.
03
– De que forma as obras de remodelação urbana promovidas pela prefeitura
contribuíram para agravar a crise habitacional, segundo o texto?
Segundo o autor,
intervenções urbanísticas como a demolição do Morro do Castelo e de imóveis
adjacentes agravaram a crise porque desalojaram diversos moradores. Sem opções
de moradia fornecidas pelo poder público, essas pessoas foram forçadas a
procurar novas habitações no mercado, o que aumentou a procura por casas e,
consequentemente, elevou ainda mais os preços dos aluguéis na cidade (mecanismo
de oferta e demanda nas "habitações mercenárias").
04
– Lima Barreto aponta uma postura "paradoxal" por parte da prefeitura
carioca. Em que consiste esse paradoxo e quais exemplos o cronista utiliza para
demonstrá-lo?
O paradoxo
consiste no contraste entre as graves demandas sociais/sanitárias não atendidas
da população e os investimentos milionários da prefeitura em obras fúteis ou
voltadas para as elites. O autor exemplifica esse contraste ao mostrar que:
Diante da precariedade da
Favela, a prefeitura opta por gastar verba pública construindo uma avenida de
luxo nas areias de Copacabana;
Diante das péssimas
condições de higiene do matadouro de Santa Cruz, a gestão pública prefere abrir
concorrência para construir um hipódromo (prado de corridas) no Jardim
Botânico.
05
– Explique o sentido da frase final da crônica: "De forma que a nossa
municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes,
mas as suas superfluidades."
A frase sintetiza
a tese do autor sobre a inversão de prioridades do poder público. Lima Barreto
argumenta que a prefeitura negligencia os problemas essenciais e urgentes dos cidadãos
(como moradia digna, infraestrutura básica, saneamento e saúde) para priorizar
projetos de fachada, estética urbana ou lazer elitista
("superfluidades"), buscando passar uma imagem modernista da cidade
em detrimento do bem-estar real da população.
06
– Analise o uso de expressões como "pobre diabo",
"trapeiras" e "habitações mercenárias". O que essas
escolhas vocabulares revelam sobre o tom do texto e o posicionamento do autor?
Essas escolhas
vocabulares revelam o tom irônico, indignado e engajado da escrita de Lima
Barreto. A expressão "pobre diabo" demonstra empatia com a população
trabalhadora e desfavorecida, enquanto "trapeiras" enfatiza a
precariedade física dos imóveis oferecidos. Já o termo "habitações
mercenárias" denuncia o caráter predatório do mercado imobiliário e a
ganância dos proprietários. O conjunto dessas expressões marca o posicionamento
do autor como um observador crítico das desigualdades sociais e da omissão
governamental.
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