quarta-feira, 19 de agosto de 2026

CRÔNICA: VIDA URBANA - FRAGMENTO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: Vida Urbana – Fragmento

              Lima Barreto

        Atualmente, nada mais mete medo a um pobre diabo que a tal história de aluguel de casa. Não há quem não esteja pagando, por trapeiras, exorbitantes locações dignas de bolsos de ricaço, [...]. Um amigo, muito meu amigo mesmo, paga atualmente, nos confins dos subúrbios, o avantajado aluguel de duzentos e cinco mil-réis por uma casa que, há dois anos, não lhe custava mais de cento e cinquenta mil-réis. Para melhorar um tão doloroso estado de coisas, a prefeitura pôs abaixo o Castelo e adjacências, demolindo alguns prédios, cujos moradores vão aumentar a procura e encarecer, portanto, ainda mais, as rendas das habitações mercenárias.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEimYXcJgFZBGKv9Dxmelucy2Kvmpw7-h6BC_Go1Qf_GOUxRvrkI_vb0-8bTvuU3fB11iFcR20iY1K0KrXng-pMHpthrqZonVR1SEMNdlsyxRhikjNYCh7YNluRGJA6iglvUNNLtSn69zYJdiuPyoYfA1-fd86rDbd6l5PnJz08Y4rejPn7SqE7RdE23MAk/s320/images.jpg


        A municipalidade desta cidade tem dessas metidas paradoxais, para as quais chamo a atenção dos governos das grandes cidades do mundo. Fala-se, por exemplo, na vergonha que é a Favela, ali, numa das portas de entrada da cidade ― o que faz a nossa edilidade? Nada mais, nada menos do que isto: gasta cinco mil contos para construir uma avenida nas areias de Copacabana. Clama-se contra as péssimas condições de higiene do matadouro de Santa Cruz, imediatamente a prefeitura providencia chamando concorrência para a construção de um prado de corridas modelo, no Jardim Botânico, à imitação de Chantilly.

        De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades. [...]

Lima Barreto. Vida urbana. In Crônicas escolhidas de Lima Barreto.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 15.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com a crônica, qual o significado das palavras abaixo:

-- Castelo: morro na região central do Rio de Janeiro, tomado por cortiços que serviam de moradia da população pobre;

-- Mercenárias: que proporcionam vantagens e lucros injustos;

-- Edilidade: municipalidade;

-- Prado: pista para corrida de cavalos;

-- Chantilly: moderno hipódromo na França, inaugurado em 1834;

-- Superfluidades: futilidades, coisas supérfluas.

02 – Qual é a principal crítica social feita por Lima Barreto no primeiro parágrafo do texto em relação à situação da habitação no Rio de Janeiro?

      Lima Barreto critica a forte inflação imobiliária e o encarecimento dos aluguéis, que atingiam desproporcionalmente a população de baixa renda (referida pelo autor como "pobre diabo"). Ele denuncia o fato de que residências precárias e de péssima qualidade ("trapeiras") estavam sendo cobradas a preços exorbitantes, incompatíveis com a realidade financeira das classes populares e dignos de pessoas ricas. Para exemplificar a gravidade da situação, o autor cita o caso de um amigo morador do subúrbio que sofreu um aumento expressivo no aluguel em um curto período de dois anos.

03 – De que forma as obras de remodelação urbana promovidas pela prefeitura contribuíram para agravar a crise habitacional, segundo o texto?

      Segundo o autor, intervenções urbanísticas como a demolição do Morro do Castelo e de imóveis adjacentes agravaram a crise porque desalojaram diversos moradores. Sem opções de moradia fornecidas pelo poder público, essas pessoas foram forçadas a procurar novas habitações no mercado, o que aumentou a procura por casas e, consequentemente, elevou ainda mais os preços dos aluguéis na cidade (mecanismo de oferta e demanda nas "habitações mercenárias").

04 – Lima Barreto aponta uma postura "paradoxal" por parte da prefeitura carioca. Em que consiste esse paradoxo e quais exemplos o cronista utiliza para demonstrá-lo?

      O paradoxo consiste no contraste entre as graves demandas sociais/sanitárias não atendidas da população e os investimentos milionários da prefeitura em obras fúteis ou voltadas para as elites. O autor exemplifica esse contraste ao mostrar que:

      Diante da precariedade da Favela, a prefeitura opta por gastar verba pública construindo uma avenida de luxo nas areias de Copacabana;

      Diante das péssimas condições de higiene do matadouro de Santa Cruz, a gestão pública prefere abrir concorrência para construir um hipódromo (prado de corridas) no Jardim Botânico.

05 – Explique o sentido da frase final da crônica: "De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades."

      A frase sintetiza a tese do autor sobre a inversão de prioridades do poder público. Lima Barreto argumenta que a prefeitura negligencia os problemas essenciais e urgentes dos cidadãos (como moradia digna, infraestrutura básica, saneamento e saúde) para priorizar projetos de fachada, estética urbana ou lazer elitista ("superfluidades"), buscando passar uma imagem modernista da cidade em detrimento do bem-estar real da população.

06 – Analise o uso de expressões como "pobre diabo", "trapeiras" e "habitações mercenárias". O que essas escolhas vocabulares revelam sobre o tom do texto e o posicionamento do autor?

      Essas escolhas vocabulares revelam o tom irônico, indignado e engajado da escrita de Lima Barreto. A expressão "pobre diabo" demonstra empatia com a população trabalhadora e desfavorecida, enquanto "trapeiras" enfatiza a precariedade física dos imóveis oferecidos. Já o termo "habitações mercenárias" denuncia o caráter predatório do mercado imobiliário e a ganância dos proprietários. O conjunto dessas expressões marca o posicionamento do autor como um observador crítico das desigualdades sociais e da omissão governamental.

 

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