domingo, 23 de agosto de 2026

ROMANCE: SOMBRAS DE REIS BARBUDOS (O ENSAIO) - FRAGMENTO - JOSÉ J. VEIGA - COM GABARITO

 Romance: Sombras de reis barbudos (O Ensaio) – Fragmento

               José J. Veiga

        O ensaio

        [...]

        Toda tarde íamos ensaiar em casa da professora, tinha lá sala grande que ela preparou para os ensaios riscando no chão todas as indicações do palco, bastava a gente passar por cima de uma meia-lua de giz para entrar ou sair de cena, quem estava de um lado do risco tinha de fingir que não via nem ouvia quem estava do outro; eu, por exemplo, ficava do lado de fora esperando a hora de entrar e ouvindo as maiores ofensas a mim; quando entrava e era recebido com elogios e rapapés, precisava me segurar muito para não rir nem me atrapalhar no papel. Não sei se a professora estava pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-guFmciyVoDjoS6A8IIOQS0Pwl0jbqGeK2M_KhSL_vX-mf-iy46C2ccmQc02UvshOnkY15zeg9yhL9xG_tChhPfm-aeNrxJY-J4aPnikJMiokJidCrT4W_sB8rOu1Y-2OkJvr6S4jL9SYyVjy87qQVzCx2-_BReW-gCd8zufD2hEz8MxBl7tfWzfvfvo/s320/images.jpg


        Os ensaios estavam adiantados, ninguém errava mais as frases, a professora já tinha dado os modelos das roupas que íamos vestir no palco. Quando eu soube que tio Baltazar tinha dado ordem para a Companhia ajudar nas despesas de carpintaria e outras, e que na semana seguinte ia haver um ensaio com roupa para ele e tia Dulce, o meu entusiasmo pelo teatro começou a esfriar. Eu tinha medo de gaguejar em minha fala, ou de falar desafinado, e nunca mais me levantar do desastre.

        [...]

José J. Veiga. Sombras de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 97.

Entendendo o romance:

01 – No trecho "quem estava de um lado do risco tinha de fingir que não via nem ouvia quem estava do outro [...] Não sei se a professora estava pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver", o narrador reflete sobre as regras do ensaio. Explique a relação metafórica entre o aprendizado teatral e a afirmação da professora de que "teatro ensina a viver".

      A metáfora estabelecida revela que a vida social, assim como o teatro, exige a aceitação de convenções e papéis sociais pré-determinados. Para interagir em sociedade, as pessoas muitas vezes precisam praticar a dissimulação e a tolerância — ouvindo ofensas ou falsidades ("rapapés") sem reagir impulsivamente e fingindo ignorar o que acontece "bastidores" das relações. A professora sugere que o teatro ensina a viver porque exercita o autocontrole, a adaptação às regras do jogo social e a capacidade de desempenhar um papel perante os outros.

02 – Identifique o tipo de narrador presente no fragmento e analise como a sua perspectiva influenciou a forma como os acontecimentos do ensaio e a figura de Tio Baltazar são apresentados.

      Trata-se de um narrador-personagem (foco narrativo em 1ª pessoa). A história é contada a partir da perspectiva juvenil ou infantil do protagonista, marcada pela subjetividade, pela inocência e pelo olhar atento às contradições dos adultos. A figura do Tio Baltazar e a presença da autoridade (a "Companhia") são vistas sob a ótica do temor e do constrangimento, o que faz com que a simples presença dos tios na plateia do ensaio transforme uma atividade divertida em uma fonte de ansiedade e opressão.

03 – O entusiasmo do narrador em relação ao teatro sofre uma alteração repentina no segundo parágrafo. O que motiva essa mudança de atitude e qual sentimento passa a dominar o personagem?

      A mudança é motivada pela notícia da interferência do Tio Baltazar e da "Companhia" no evento (financiando a carpintaria) e pela confirmação de que ele e a Tia Dulce assistiriam a um ensaio geral de figurino. O entusiasmo do narrador "esfria" porque a atividade lúdica e despretensiosa se transforma em um momento de cobrança e vigilância sob o olhar da autoridade familiar/social. O sentimento que passa a dominá-lo é o medo do fracasso (medo de gaguejar, desafinar e sofrer uma humilhação da qual "nunca mais se levantaria").

04 – José J. Veiga utiliza uma linguagem fluida e próxima do ritmo da fala. Observe a estruturação das frases no primeiro parágrafo e indique dois recursos sintáticos ou estilísticos que evidenciam o caráter de oralidade do texto.

      Dois recursos que evidenciam a oralidade são:

      Uso de períodos longos encadeados por pontuação leve (vírgulas) e conjunções coordenadas: O primeiro parágrafo é construído como um fluxo contínuo de pensamento, imitando a forma espontânea como uma história é contada oralmente.

      Uso de expressões populares e de registro coloquial: Termos e construções como "a gente", "fiquei me segurando muito" e "rapapés" conferem proximidade e informalidade ao discurso do narrador.

05 – Mesmo em um fragmento cotidiano sobre o ensaio de uma peça escolar, o texto de Sombras de reis barbudos traz elementos que dialogam com o tema central do romance (a chegada do autoritarismo e do controle social). Como a intervenção do "Tio Baltazar" e da "Companhia" no ensaio antecipa esse clima de controle?

      O romance Sombras de reis barbudos é uma alegoria sobre a infiltração gradual do autoritarismo e da perda de liberdade em uma comunidade. No fragmento, a chegada do Tio Baltazar — associado à "Companhia" (entidade corporativa/estatal que passa a dominar a cidade) — através do financiamento das despesas e da presença fiscalizadora no ensaio, simboliza a perda da autonomia lúdica dos moradores. A arte/teatro deixa de ser um espaço livre e puro de expressão para se tornar um espaço vigiado, gerando inibição, medo e paralisia no indivíduo.

 

 

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