Romance: Sombras de reis barbudos (O Ensaio) – Fragmento
José J. Veiga
O ensaio
[...]
Toda tarde íamos ensaiar em casa da
professora, tinha lá sala grande que ela preparou para os ensaios riscando no
chão todas as indicações do palco, bastava a gente passar por cima de uma
meia-lua de giz para entrar ou sair de cena, quem estava de um lado do risco
tinha de fingir que não via nem ouvia quem estava do outro; eu, por exemplo,
ficava do lado de fora esperando a hora de entrar e ouvindo as maiores ofensas
a mim; quando entrava e era recebido com elogios e rapapés, precisava me
segurar muito para não rir nem me atrapalhar no papel. Não sei se a professora
estava pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-guFmciyVoDjoS6A8IIOQS0Pwl0jbqGeK2M_KhSL_vX-mf-iy46C2ccmQc02UvshOnkY15zeg9yhL9xG_tChhPfm-aeNrxJY-J4aPnikJMiokJidCrT4W_sB8rOu1Y-2OkJvr6S4jL9SYyVjy87qQVzCx2-_BReW-gCd8zufD2hEz8MxBl7tfWzfvfvo/s320/images.jpg Os ensaios estavam adiantados, ninguém
errava mais as frases, a professora já tinha dado os modelos das roupas que íamos
vestir no palco. Quando eu soube que tio Baltazar tinha dado ordem para a
Companhia ajudar nas despesas de carpintaria e outras, e que na semana seguinte
ia haver um ensaio com roupa para ele e tia Dulce, o meu entusiasmo pelo teatro
começou a esfriar. Eu tinha medo de gaguejar em minha fala, ou de falar
desafinado, e nunca mais me levantar do desastre.
[...]
José J. Veiga. Sombras
de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 97.
Entendendo o romance:
01
– No trecho "quem estava de um lado do risco tinha de fingir que não
via nem ouvia quem estava do outro [...] Não sei se a professora estava
pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver", o narrador
reflete sobre as regras do ensaio. Explique a relação metafórica entre o
aprendizado teatral e a afirmação da professora de que "teatro ensina a
viver".
A metáfora
estabelecida revela que a vida social, assim como o teatro, exige a aceitação
de convenções e papéis sociais pré-determinados. Para interagir em sociedade,
as pessoas muitas vezes precisam praticar a dissimulação e a tolerância —
ouvindo ofensas ou falsidades ("rapapés") sem reagir impulsivamente e
fingindo ignorar o que acontece "bastidores" das relações. A
professora sugere que o teatro ensina a viver porque exercita o autocontrole, a
adaptação às regras do jogo social e a capacidade de desempenhar um papel
perante os outros.
02
– Identifique o tipo de narrador presente no fragmento e analise como a sua
perspectiva influenciou a forma como os acontecimentos do ensaio e a figura de
Tio Baltazar são apresentados.
Trata-se de um
narrador-personagem (foco narrativo em 1ª pessoa). A história é contada a
partir da perspectiva juvenil ou infantil do protagonista, marcada pela
subjetividade, pela inocência e pelo olhar atento às contradições dos adultos.
A figura do Tio Baltazar e a presença da autoridade (a "Companhia")
são vistas sob a ótica do temor e do constrangimento, o que faz com que a
simples presença dos tios na plateia do ensaio transforme uma atividade
divertida em uma fonte de ansiedade e opressão.
03
– O entusiasmo do narrador em relação ao teatro sofre uma alteração repentina
no segundo parágrafo. O que motiva essa mudança de atitude e qual sentimento
passa a dominar o personagem?
A mudança é
motivada pela notícia da interferência do Tio Baltazar e da
"Companhia" no evento (financiando a carpintaria) e pela confirmação
de que ele e a Tia Dulce assistiriam a um ensaio geral de figurino. O
entusiasmo do narrador "esfria" porque a atividade lúdica e
despretensiosa se transforma em um momento de cobrança e vigilância sob o olhar
da autoridade familiar/social. O sentimento que passa a dominá-lo é o medo do
fracasso (medo de gaguejar, desafinar e sofrer uma humilhação da qual
"nunca mais se levantaria").
04
– José J. Veiga utiliza uma linguagem fluida e próxima do ritmo da fala.
Observe a estruturação das frases no primeiro parágrafo e indique dois recursos
sintáticos ou estilísticos que evidenciam o caráter de oralidade do texto.
Dois recursos que
evidenciam a oralidade são:
Uso de períodos longos
encadeados por pontuação leve (vírgulas) e conjunções coordenadas: O primeiro
parágrafo é construído como um fluxo contínuo de pensamento, imitando a forma
espontânea como uma história é contada oralmente.
Uso de expressões populares
e de registro coloquial: Termos e construções como "a gente",
"fiquei me segurando muito" e "rapapés" conferem
proximidade e informalidade ao discurso do narrador.
05
– Mesmo em um fragmento cotidiano sobre o ensaio de uma peça escolar, o texto
de Sombras de reis barbudos traz elementos que dialogam com o tema central do
romance (a chegada do autoritarismo e do controle social). Como a intervenção
do "Tio Baltazar" e da "Companhia" no ensaio antecipa esse
clima de controle?
O romance Sombras
de reis barbudos é uma alegoria sobre a infiltração gradual do autoritarismo e
da perda de liberdade em uma comunidade. No fragmento, a chegada do Tio
Baltazar — associado à "Companhia" (entidade corporativa/estatal que
passa a dominar a cidade) — através do financiamento das despesas e da presença
fiscalizadora no ensaio, simboliza a perda da autonomia lúdica dos moradores. A
arte/teatro deixa de ser um espaço livre e puro de expressão para se tornar um
espaço vigiado, gerando inibição, medo e paralisia no indivíduo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário