quarta-feira, 19 de agosto de 2026

NOTÍCIA: CRITÉRIO DE RENDA PARA DELIMITAR FOME SUPERESTIMA O PROBLEMA - FRAGMENTO - SONIA ROCHA - COM GABARITO

 Notícia: Critério de renda para delimitar fome superestima o problema – Fragmento

SONIA ROCHA – Especial para a Folha

        Nos últimos 15 anos, grandes mobilizações da sociedade brasileira em torno das questões de pobreza e de desigualdade têm se dado em função do mote e do mito da fome. [...]

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhHXB_4smDn52cGX9mBZMLBbPm-Ngih8lqTMuP2oglgdYyCLkEIZRlxVdTLIYJL0Skk1iPWgXwb7qmNk_5kdnuQh3AspTnouU3wcMwuCIuy8ZZ7GAZPNQDQ8a9qXigqTPNp8WXV56-REh_jxyHADgKXo1Fi2oI6Lpet1N6qsdr9ZWlU74k1a0JxzAryXJk/s320/images.jpg  


        Sem dúvida, a alusão a enormes contingentes de desnutridos e de famintos é eficaz para indignar a sociedade. A todos parece inaceitável a persistência do problema quando, reconhecidamente, o Brasil já atingiu um nível de desenvolvimento produtivo capaz de garantir não só a alimentação, mas um nível de vida adequado para todos os cidadãos.

        No entanto, a alusão à fome atingindo contingentes amplos da população brasileira – 44 milhões, segundo as cifras do programa Fome Zero no início de 2003 – simplesmente não corresponde à realidade. Dito de outra maneira, é incorreto associar pobreza à fome como tem sido feito corriqueiramente, apesar do alerta de especialistas. [...]

        [...]. Utilizar o critério de renda para delimitar a população que "passa fome" significa, felizmente, superestimar o tamanho do problema.

        Os dados recentes divulgados pelo IBGE, derivados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares, vêm fornecer evidências inequívocas de que fome não é o problema crucial da pobreza no Brasil. Por um lado, não mostra insuficiência de peso; ao contrário, revela forte tendência a excesso de peso, o que seria evidência de má alimentação, mas não de pouca ingestão de alimentos. [...] Por outro lado, os dados quanto ao consumo monetário de alimentos, isto é, itens alimentares comprados para serem consumidos no domicílio, mostram que as pessoas dependem cada vez mais de alimentos doados e refeições feitas fora de casa, inclusive no trabalho e na escola. Isto significa que o gasto familiar de alimentos e, por extensão, o rendimento, é um indicador cada vez menos adequado para identificar as condições nutricionais adversas. [...]

        No entanto, os desnutridos existem, felizmente em número bem mais modesto do que o de pobres. [...]. Sem dúvida, aqueles que passam fome estão em condição mais crítica entre os pobres. No entanto, saber o seu número depende de indicadores físicos, como baixo peso para a altura e crescimento insuficiente das crianças, e não da renda. Nesse sentido, a nova POF vai fornecer evidências atualizadas preciosas.

Entretanto, já se sabia há muito, com base em evidências empíricas, que havia uma robusta tendência de longo prazo de redução da subnutrição no Brasil. Assim, por exemplo, o indicador mais sensível associado à desnutrição, o de mortalidade infantil, vem declinando no longo prazo: a partir de 117 por mil, em 1970, declinou para 30 por mil, em 2000, tendo caído à metade na última década.

        [...] Enfrentar problemas de fome e de subnutrição depende naturalmente da renda, mas especialmente de ações básicas de saúde voltadas para as populações mais vulneráveis, crianças de menos de cinco anos e suas mães em famílias de baixa renda.

        Atender com prioridade absoluta essa população, inclusive através de transferências de renda, passa necessariamente por ancorar as ações no sistema de saúde, fazendo da rede pública de assistência básica o instrumento de focalização e acompanhamento dos subnutridos. [...]

        É essencial que seja entendido pela sociedade em geral, e pelos governos em particular, que a questão crítica da fome, especificamente da desnutrição, se distingue da questão mais geral da pobreza, demandando, em consequência, ações diversas. Há que ser entendido também que, apesar de a maioria esmagadora dos pobres não terem a subsistência física ameaçada, é inaceitável e insustentável a persistência de grandes contingentes da população vivendo com rendas muito baixas no Brasil.

        Assim, embora a desnutrição não seja uma característica predominante dentre os pobres brasileiros, seu combate é prioritário. A pobreza, como categoria mais geral, persiste no Brasil em função da desigualdade de renda. Neste sentido, não é a fome, mas a desigualdade, o traço fundamental da pobreza brasileira.

Sônia Rocha, economista pela FGV, é autora de "Pobreza no Brasil: Afinal, de que se Trata?" (FGV, 2003). Folha de São Paulo, Cotidiano, 21/12/2004.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 51-52.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é a tese central defendida pela autora Sonia Rocha no texto?

      A autora defende que é incorreto associar diretamente a pobreza à fome utilizando apenas o critério de renda, pois isso superestima a quantidade de pessoas que passam fome no Brasil. Segundo ela, o traço fundamental da pobreza brasileira não é a fome/desnutrição, mas sim a desigualdade de renda.

02 – Por que a utilização da renda como único parâmetro superestima o número de pessoas que passam fome?

      Porque a renda e o gasto familiar com alimentos se tornaram indicadores cada vez menos precisos para medir a nutrição. As pessoas consomem cada vez mais alimentos doados e refeições feitas fora do domicílio (como na escola ou no trabalho), fazendo com que a baixa renda monetária não signifique necessariamente falta de ingestão de alimentos.

03 – Quais evidências do IBGE (via Pesquisa de Orçamentos Familiares) a autora cita para demonstrar que a fome não é o problema genérico da pobreza no Brasil?

      A autora cita que os dados da POF não mostram insuficiência de peso generalizada, mas sim uma forte tendência ao excesso de peso (indicativo de má qualidade da alimentação, e não de falta de comida). Além disso, destaca o aumento do consumo de refeições fora de casa e doações.

04 – Segundo o texto, quais são os indicadores adequados para identificar e quantificar quem realmente passa fome ou sofre de desnutrição?

      O número de pessoas com fome deve ser medido por indicadores físicos (como baixo peso para a altura e déficit de crescimento em crianças) e indicadores de saúde (como a taxa de mortalidade infantil), em vez de dados puramente financeiros ou de renda.

05 – Qual dado histórico de saúde é apresentado no texto para comprovar a queda da subnutrição no Brasil ao longo do tempo?

      O texto apresenta a evolução da taxa de mortalidade infantil, que caiu de 117 por mil em 1970 para 30 por mil no ano 2000, tendo caído pela metade apenas na década de 1990.

06 – De acordo com a autora, qual deve ser a estratégia pública prioritária e a rede de apoio para combater a desnutrição?

      As ações devem focar nas populações mais vulneráveis (crianças menores de cinco anos e suas mães em famílias de baixa renda). O combate deve ser ancorado no sistema público de saúde (rede básica), utilizando-o como ferramenta de focalização, acompanhamento e atendimento prioritário, além de ações de transferência de renda.

07 – Qual é a distinção conceitual que o texto estabelece entre a questão da fome e a questão da pobreza?

      A fome (desnutrição) é um problema específico de subsistência física que atinge um grupo modesto e muito crítico de pessoas, demandando ações focadas em saúde e nutrição. Já a pobreza é uma categoria mais ampla, que atinge grandes contingentes com rendas muito baixas devido à desigualdade, demandando políticas públicas de outra natureza.

 

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