Notícia: Critério de renda para delimitar fome superestima o problema – Fragmento
SONIA ROCHA – Especial para a Folha
Nos últimos 15 anos, grandes
mobilizações da sociedade brasileira em torno das questões de pobreza e de
desigualdade têm se dado em função do mote e do mito da fome. [...]
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhHXB_4smDn52cGX9mBZMLBbPm-Ngih8lqTMuP2oglgdYyCLkEIZRlxVdTLIYJL0Skk1iPWgXwb7qmNk_5kdnuQh3AspTnouU3wcMwuCIuy8ZZ7GAZPNQDQ8a9qXigqTPNp8WXV56-REh_jxyHADgKXo1Fi2oI6Lpet1N6qsdr9ZWlU74k1a0JxzAryXJk/s320/images.jpg Sem dúvida, a alusão a enormes
contingentes de desnutridos e de famintos é eficaz para indignar a sociedade. A
todos parece inaceitável a persistência do problema quando, reconhecidamente, o
Brasil já atingiu um nível de desenvolvimento produtivo capaz de garantir não
só a alimentação, mas um nível de vida adequado para todos os cidadãos.
No entanto, a alusão à fome atingindo
contingentes amplos da população brasileira – 44 milhões, segundo as cifras do
programa Fome Zero no início de 2003 – simplesmente não corresponde à
realidade. Dito de outra maneira, é incorreto associar pobreza à fome como tem
sido feito corriqueiramente, apesar do alerta de especialistas. [...]
[...]. Utilizar o critério de renda
para delimitar a população que "passa fome" significa, felizmente,
superestimar o tamanho do problema.
Os dados recentes divulgados pelo IBGE,
derivados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares, vêm fornecer evidências
inequívocas de que fome não é o problema crucial da pobreza no Brasil. Por um
lado, não mostra insuficiência de peso; ao contrário, revela forte tendência a
excesso de peso, o que seria evidência de má alimentação, mas não de pouca
ingestão de alimentos. [...] Por outro lado, os dados quanto ao consumo
monetário de alimentos, isto é, itens alimentares comprados para serem
consumidos no domicílio, mostram que as pessoas dependem cada vez mais de
alimentos doados e refeições feitas fora de casa, inclusive no trabalho e na
escola. Isto significa que o gasto familiar de alimentos e, por extensão, o
rendimento, é um indicador cada vez menos adequado para identificar as
condições nutricionais adversas. [...]
No entanto, os desnutridos existem,
felizmente em número bem mais modesto do que o de pobres. [...]. Sem dúvida,
aqueles que passam fome estão em condição mais crítica entre os pobres. No entanto,
saber o seu número depende de indicadores físicos, como baixo peso para a
altura e crescimento insuficiente das crianças, e não da renda. Nesse sentido,
a nova POF vai fornecer evidências atualizadas preciosas.
Entretanto,
já se sabia há muito, com base em evidências empíricas, que havia uma robusta
tendência de longo prazo de redução da subnutrição no Brasil. Assim, por
exemplo, o indicador mais sensível associado à desnutrição, o de mortalidade
infantil, vem declinando no longo prazo: a partir de 117 por mil, em 1970,
declinou para 30 por mil, em 2000, tendo caído à metade na última década.
[...] Enfrentar problemas de fome e de
subnutrição depende naturalmente da renda, mas especialmente de ações básicas
de saúde voltadas para as populações mais vulneráveis, crianças de menos de
cinco anos e suas mães em famílias de baixa renda.
Atender com prioridade absoluta essa
população, inclusive através de transferências de renda, passa necessariamente
por ancorar as ações no sistema de saúde, fazendo da rede pública de
assistência básica o instrumento de focalização e acompanhamento dos subnutridos.
[...]
É essencial que seja entendido pela
sociedade em geral, e pelos governos em particular, que a questão crítica da
fome, especificamente da desnutrição, se distingue da questão mais geral da
pobreza, demandando, em consequência, ações diversas. Há que ser entendido
também que, apesar de a maioria esmagadora dos pobres não terem a subsistência
física ameaçada, é inaceitável e insustentável a persistência de grandes
contingentes da população vivendo com rendas muito baixas no Brasil.
Assim,
embora a desnutrição não seja uma característica predominante dentre os pobres
brasileiros, seu combate é prioritário. A pobreza, como categoria mais geral,
persiste no Brasil em função da desigualdade de renda. Neste sentido, não é a
fome, mas a desigualdade, o traço fundamental da pobreza brasileira.
Sônia Rocha, economista pela FGV, é autora de "Pobreza no Brasil:
Afinal, de que se Trata?" (FGV, 2003). Folha de São Paulo, Cotidiano,
21/12/2004.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 51-52.
Entendendo a notícia:
01
– Qual é a tese central defendida pela autora Sonia Rocha no texto?
A autora defende
que é incorreto associar diretamente a pobreza à fome utilizando apenas o
critério de renda, pois isso superestima a quantidade de pessoas que passam
fome no Brasil. Segundo ela, o traço fundamental da pobreza brasileira não é a
fome/desnutrição, mas sim a desigualdade de renda.
02
– Por que a utilização da renda como único parâmetro superestima o número de
pessoas que passam fome?
Porque a renda e
o gasto familiar com alimentos se tornaram indicadores cada vez menos precisos
para medir a nutrição. As pessoas consomem cada vez mais alimentos doados e
refeições feitas fora do domicílio (como na escola ou no trabalho), fazendo com
que a baixa renda monetária não signifique necessariamente falta de ingestão de
alimentos.
03
– Quais evidências do IBGE (via Pesquisa de Orçamentos Familiares) a autora
cita para demonstrar que a fome não é o problema genérico da pobreza no Brasil?
A autora cita que
os dados da POF não mostram insuficiência de peso generalizada, mas sim uma
forte tendência ao excesso de peso (indicativo de má qualidade da alimentação,
e não de falta de comida). Além disso, destaca o aumento do consumo de
refeições fora de casa e doações.
04
– Segundo o texto, quais são os indicadores adequados para identificar e
quantificar quem realmente passa fome ou sofre de desnutrição?
O número de
pessoas com fome deve ser medido por indicadores físicos (como baixo peso para
a altura e déficit de crescimento em crianças) e indicadores de saúde (como a
taxa de mortalidade infantil), em vez de dados puramente financeiros ou de
renda.
05
– Qual dado histórico de saúde é apresentado no texto para comprovar a queda da
subnutrição no Brasil ao longo do tempo?
O texto apresenta
a evolução da taxa de mortalidade infantil, que caiu de 117 por mil em 1970
para 30 por mil no ano 2000, tendo caído pela metade apenas na década de 1990.
06
– De acordo com a autora, qual deve ser a estratégia pública prioritária e a
rede de apoio para combater a desnutrição?
As ações devem
focar nas populações mais vulneráveis (crianças menores de cinco anos e suas
mães em famílias de baixa renda). O combate deve ser ancorado no sistema
público de saúde (rede básica), utilizando-o como ferramenta de focalização,
acompanhamento e atendimento prioritário, além de ações de transferência de
renda.
07
– Qual é a distinção conceitual que o texto estabelece entre a questão da fome
e a questão da pobreza?
A fome
(desnutrição) é um problema específico de subsistência física que atinge um
grupo modesto e muito crítico de pessoas, demandando ações focadas em saúde e
nutrição. Já a pobreza é uma categoria mais ampla, que atinge grandes
contingentes com rendas muito baixas devido à desigualdade, demandando
políticas públicas de outra natureza.
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