Crônica: A GRATIDÃO DO ASSÍRIO
Lima Barreto
Meu
caro senhor Assírio, eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a
vida.
Nós
nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com
água na boca. Este não tardou em responder:
–
Estou, meu caro senhor; estou, imagine que não há dia em que não me veja
abarbado com um banquete.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8rdhEnHGdqMu0LZouagihIvIeBnBUmD7tDrEvCmdaxUPjfyOeQgH-QsTuxJ-MltFJZhoZctRQcaN6m3VN-MNH4ivw7IX7J-gYoadK16qBAcFZkQ7Pa9MM_SalffSCEL9nsKMDBy7zJdn5ZO4kv1P0evRZGgUQ4rML7ayQUwm5_ruJM22hgm3aOM6AZ3Y/s320/images.jpg –
É assim?
– Pois
não, meu digno senhor. Um poeta publica um livro e logo encomendam-me um
banquete com todos os “ff’ e rr; os jornais publicam a lista dos convidados, ao
dia seguinte, e o meu nome se espalha por este país todo. Se acontece alguém
escrever uma crônica feliz, zás, banquete, retrato e nome nos jornais. Se, por
acaso...
–
Notamos, interrompi eu, que nas suas festanças não há mulheres.
–
Já observei isto aos dilettanti de banquetes e, até, lhes ofereci
organizar um quadro de convidadas.
–
Que eles disseram?
– Penso
que eles não querem rivalidades femininas. Já as têm em bom número masculinas.
– E
as flores?
– Com
isso não me preocupo, porque, às vezes, elas me servem para meia dúzia de
banquetes. Os rapazes não reparam nisso.
–
E as iguarias?
–
Oh! Isso? Também não vale nada. Basta uns nomes arrevesados, para que os nossos
Lúculos comam gato por lebre.
Mas
a minha maior gratidão é...
– Por
quem?
– Pela
Secretaria do Exterior. Um cidadão é promovido de segundo secretário a primeiro,
banquete; um outro passa de amanuense a segundo secretário, banquete... Herança
do Rio Branco!... Outro dia, como o Serapião passasse de servente a contínuo,
logo lhe ofereceram um banquete.
–
Os serventes?
– Não;
todos os empregados. Que gente boa, meu caro senhor.
Deixamos o senhor Assírio cheio de uma terna
beatitude agradecida por tão bela gente que se banqueteia.
Careta, Rio, 11-9-1915.
Entendendo a crônica:
01 – Quem é a figura
do "senhor Assírio" personificada por Lima Barreto na crônica e por
que ele se declara satisfeito com a vida?
O "senhor
Assírio" é a personificação do famoso restaurante O Assírio, localizado no
subsolo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele se declara satisfeito por
estar constantemente "abarbado com banquetes", faturando com os
frequentes eventos e celebrações da elite intelectual e burocrática carioca.
02 – Que crítica
Lima Barreto faz à vaidade dos intelectuais e escritores da época em relação
aos banquetes promovidos?
O autor ironiza a
busca por visibilidade e status social. Os intelectuais organizavam banquetes
por qualquer motivo pequeno (o lançamento de um livro ou uma crônica bem
escrita) com o objetivo principal de ter seus nomes e fotos divulgados nos
jornais no dia seguinte.
03 – Como o senhor
Assírio revela a falta de sofisticação e o engano do público refinado (os
"Lúculos") em relação à comida e às flores do restaurante?
Ele conta que
reutiliza as mesmas flores em até meia dúzia de banquetes sem que os clientes
percebam. Além disso, afirma que a qualidade da comida não importa, pois basta
dar "nomes arrevesados" (em francês ou sofisticados) aos pratos para
que os convidados "comam gato por lebre" achando que estão
desfrutando de alta gastronomia.
04 – Por que a maior
"gratidão" do senhor Assírio é direcionada à Secretaria do Exterior?
Porque o órgão
mantinha o hábito costumeiro de encomendar banquetes por qualquer alteração
mínima na carreira de seus funcionários — desde a promoção de diplomatas até a
mudança de cargo de um servente para contínuo —, gerando um fluxo garantido de
renda para o estabelecimento.
05 – Qual o
principal recurso expressivo utilizado por Lima Barreto para construir a
crítica social nesta crônica?
O principal
recurso é a ironia através da personificação. Ao dar voz ao próprio restaurante
e fazê-lo confessar com naturalidade como explora a vaidade, a futilidade e o
gosto pelo diletantismo da elite carioca, Lima Barreto expõe o vazio e a
superficialidade das aparências sociais de sua época.
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