quarta-feira, 26 de agosto de 2026

CRÔNICA: A GRATIDÃO DO ASSÍRIO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A GRATIDÃO DO ASSÍRIO

           Lima Barreto 

 

        Meu caro senhor Assírio, eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a vida.

        Nós nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com água na boca. Este não tardou em responder:

        – Estou, meu caro senhor; estou, imagine que não há dia em que não me veja abarbado com um banquete.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8rdhEnHGdqMu0LZouagihIvIeBnBUmD7tDrEvCmdaxUPjfyOeQgH-QsTuxJ-MltFJZhoZctRQcaN6m3VN-MNH4ivw7IX7J-gYoadK16qBAcFZkQ7Pa9MM_SalffSCEL9nsKMDBy7zJdn5ZO4kv1P0evRZGgUQ4rML7ayQUwm5_ruJM22hgm3aOM6AZ3Y/s320/images.jpg


        – É assim?

        – Pois não, meu digno senhor. Um poeta publica um livro e logo encomendam-me um banquete com todos os “ff’ e rr; os jornais publicam a lista dos convidados, ao dia se­guinte, e o meu nome se espalha por este país todo. Se acontece alguém escrever uma crônica feliz, zás, banquete, retrato e nome nos jornais. Se, por acaso...

        – Notamos, interrompi eu, que nas suas festanças não há mulheres.

        – Já observei isto aos dilettanti de banquetes e, até, lhes ofereci organizar um quadro de convidadas.

        – Que eles disseram?

        – Penso que eles não querem rivalidades femininas. Já as têm em bom número masculinas.

        – E as flores?

        – Com isso não me preocupo, porque, às vezes, elas me servem para meia dúzia de banquetes. Os rapazes não re­param nisso.

        – E as iguarias?

        – Oh! Isso? Também não vale nada. Basta uns nomes arrevesados, para que os nossos Lúculos comam gato por lebre.

        Mas a minha maior gratidão é...

        – Por quem?

        – Pela Secretaria do Exterior. Um cidadão é promovido de segundo secretário a primeiro, banquete; um outro passa de amanuense a segundo secretário, banquete... Herança do Rio Branco!... Outro dia, como o Serapião passasse de servente a contínuo, logo lhe ofereceram um banquete.

        – Os serventes?

        – Não; todos os empregados. Que gente boa, meu caro senhor.

Deixamos o senhor Assírio cheio de uma terna beatitude agradecida por tão bela gente que se banqueteia.

Careta, Rio, 11-9-1915.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é a figura do "senhor Assírio" personificada por Lima Barreto na crônica e por que ele se declara satisfeito com a vida?

      O "senhor Assírio" é a personificação do famoso restaurante O Assírio, localizado no subsolo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele se declara satisfeito por estar constantemente "abarbado com banquetes", faturando com os frequentes eventos e celebrações da elite intelectual e burocrática carioca.

 

02 – Que crítica Lima Barreto faz à vaidade dos intelectuais e escritores da época em relação aos banquetes promovidos?

      O autor ironiza a busca por visibilidade e status social. Os intelectuais organizavam banquetes por qualquer motivo pequeno (o lançamento de um livro ou uma crônica bem escrita) com o objetivo principal de ter seus nomes e fotos divulgados nos jornais no dia seguinte.

 

03 – Como o senhor Assírio revela a falta de sofisticação e o engano do público refinado (os "Lúculos") em relação à comida e às flores do restaurante?

      Ele conta que reutiliza as mesmas flores em até meia dúzia de banquetes sem que os clientes percebam. Além disso, afirma que a qualidade da comida não importa, pois basta dar "nomes arrevesados" (em francês ou sofisticados) aos pratos para que os convidados "comam gato por lebre" achando que estão desfrutando de alta gastronomia.

 

04 – Por que a maior "gratidão" do senhor Assírio é direcionada à Secretaria do Exterior?

      Porque o órgão mantinha o hábito costumeiro de encomendar banquetes por qualquer alteração mínima na carreira de seus funcionários — desde a promoção de diplomatas até a mudança de cargo de um servente para contínuo —, gerando um fluxo garantido de renda para o estabelecimento.

 

05 – Qual o principal recurso expressivo utilizado por Lima Barreto para construir a crítica social nesta crônica?

      O principal recurso é a ironia através da personificação. Ao dar voz ao próprio restaurante e fazê-lo confessar com naturalidade como explora a vaidade, a futilidade e o gosto pelo diletantismo da elite carioca, Lima Barreto expõe o vazio e a superficialidade das aparências sociais de sua época.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário