domingo, 23 de agosto de 2026

CONTO: JACOB PRODURA UM DESERTO - LENE MAYER SKUMANZ - COM GABARITO

 Conto: Jacob procura um deserto

 

        O professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e Jesus gostavam de ir para o deserto.

        — No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar. Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada que o distraia quando quer falar com Deus.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaK0qUNW2J4ruzumK37a4rqn9RRe_BlxDXbYUTQ-l1HZRMToQqLzQ9LebO-L_08zP_gmoxtSv52rgHBI1ISRgj09-gwdrZGG6MaNOperNh1XIBtgUfe6F_hO7Qp7H_-EST8iaaxTRB3dy_w00Mtx-Ir0_eBdyPtxbxGg105dTnpSFFWXbBIfXDIHRI-90/s320/images.jpg


        — O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob.

        — Já — responde o professor. — Depois de visitar Jerusalém fui até lá. Gostei tanto, que quase nem consigo descrever.

        “Eu também gostava de ir para o deserto” — pensa Jacob. Só é pena que à beira de sua casa não haja nenhum deserto, nenhum local onde possa ficar em silêncio e meditar.

        Ou será que há?

        No quarto de Jacob, a seguir ao almoço, não há barulho. Só ouve, baixinho, a música da Antena 1 vinda da casa do vizinho e a mãe a lavar a loiça na cozinha. No pátio, uma criança atira a bola repetidamente contra a parede, e ao longe ouve-se o ruído dos automóveis.

        Ali ainda há demasiado barulho para poder estar em silêncio, mas, se fizer um esforço, talvez consiga abstrair-se. Jacob vai perguntar à mãe se pode ir dar um pequeno passeio.

        Não é fácil encontrar na cidade um pouco de deserto. Talvez no parque, mas ao lado está a ser aberta uma estrada, e as máquinas fazem tanto barulho que nem se consegue ouvir os pardais a chilrear no arvoredo.

        Três quarteirões mais à frente, atrás da fábrica de calçado, há uma sucata. Está fechada com arame farpado, mas Jacob conhece um buraco por onde pode escapar-se. O local da sucata é uma paisagem deserta, só com canos de fogões, detritos, máquinas de lavar e peças de automóveis. Um homem já de certa idade caminha, curvado, por entre os montes de ferro-velho e recolhe metal.

        — Andas à procura de alguma coisa? — pergunta, olhando para Jacob.

        Jacob salta novamente para a estrada e anda, anda, até chegar em frente da casa de Catarina. Sobe as escadas e toca à campainha.

        — Ando à procura de um local para meditar – diz-lhe ele.

        Ela condu-lo à sala, afasta para o lado livros e brinquedos com o pé, e encosta uma almofada à parede.

        — Pronto, senta-te aqui — diz ela. — Vou ficar quieta para tu poderes meditar. 

        Catarina senta-se à mesa a fazer os trabalhos de casa. Não diz uma palavra nem olha uma única vez para Jacob. A sala está tão silenciosa que ele consegue ouvir a caneta de tinta permanente a arranhar o papel. E o ruído abafado que os sapatos fazem quando Cati roça a perna da cadeira, porque Cati nunca consegue sentar-se totalmente quieta.

        Jacob fecha os olhos. Ouve a sua própria respiração e admira-se por respirar tão devagar. Sente como a barriga sobe e desce quando respira. O sangue palpita-lhe levemente nas orelhas e também no pescoço. Cati foi muito simpática em tê-lo deixado ficar na sala, mas Jacob não lho diz.

        — Está-se tão bem aqui. Quase como no deserto.

        — Se andas à procura de um deserto, tens de ir à sucata.

        — Já lá estive — diz Jacob.

        — E?...

        — Nada. 

        — Tens de atravessar devagarinho e com calma a sucata toda — diz Cati. — Não vás só pela beira.

        De regresso a casa, Jacob volta a entrar pelo buraco do arame farpado.

        — Então, de que é que andas à procura? — pergunta o velho.

        — De alguma coisa para a bicicleta? Talvez possa ajudar-te.

        — Eu só vim dar uma volta — diz Jacob, e continua por entre o ferro-velho. As pedras rolam-lhe por debaixo dos pés, escorrega, segue em frente. Ouve-se o vento a assobiar. Um cão ladra algures.

        No céu, bandos de gralhas voam em círculos. Jacob fica espantado. Nunca pensou que ali fosse tão calmo. Não há nada que o distraia.

        “Jesus” — pensa ele. — “O que achas do meu deserto?”

Lene Mayer-Skumanz. Lene Mayer-Skumanz (org.). Hoffentlich bald Wien, Herder Verlag, 1986. Tradução e adaptação

Entendendo o conto:

01 – Qual é a explicação dada pelo professor de religião sobre o motivo pelo qual Jesus e os profetas gostavam de ir para o deserto?

      O professor explica que no deserto o homem fica completamente sozinho, o que possibilita fazer silêncio, meditar e falar com Deus sem distrações. Além disso, o deserto é um local para testar a si mesmo e ver se é possível viver sem as comodidades do dia a dia, como boa comida, conforto, diversões e amigos.

02 – Ao tentar meditar no próprio quarto, quais são os barulhos que impedem Jacob de encontrar o silêncio absoluto?

      No quarto, Jacob consegue ouvir a música da rádio vinda da casa do vizinho, a mãe lavando a louça na cozinha, uma criança batendo repetidamente uma bola contra a parede no pátio e, ao longe, o ruído dos automóveis na rua.

03 – Como a cidade é apresentada no texto no que diz respeito à busca de Jacob por um espaço de silêncio? Dê exemplos dos locais visitados por ele antes da casa de Catarina.

      A cidade é apresentada como um ambiente barulhento e em constante movimento, onde é difícil encontrar um espaço calmo. Quando Jacob tenta ir ao parque, depara-se com máquinas barulhentas abrindo uma estrada. Ao ir para a sucata pela primeira vez, o local tem a aparência de uma paisagem deserta, mas a presença do homem que recolhe ferro-velho o assusta e o faz ir embora sem meditar 

04 – De que maneira Catarina ajuda Jacob na sua busca por um local para meditar e como ela se comporta enquanto ele está lá?

      Catarina acolhe Jacob em sua casa, abre espaço na sala afastando brinquedos e livros e coloca uma almofada para ele se sentar. Para ajudá-lo a meditar, ela decide ficar totalmente em silêncio fazendo seus deveres de casa, sem falar e sem olhar para ele, respeitando a busca do amigo 

05 – Qual é o conselho que Catarina dá a Jacob para que ele realmente consiga encontrar o "deserto" na sucata?

      Catarina aconselha Jacob a não ficar apenas na beirada da sucata, mas sim a atravessar o local inteiro, devagar e com calma, para conseguir vivenciar a experiência do silêncio e da meditação naquele espaço.

06 – O que Jacob sente e percebe quando decide seguir o conselho de Catarina e retornar à sucata?

      Ao caminhar devagar pelo ferro-velho, Jacob percebe os sons sutis ao seu redor, como o vento assobiando, as pedras rolando sob seus pés, um cão latindo ao longe e o voo das gralhas no céu. Ele se espanta com a calma do lugar e conclui que ali não há nada que o distraia, alcançando finalmente o seu "deserto". 

07 – A partir da leitura do conto, como podemos definir o conceito de "deserto" para Jacob? Trata-se apenas de um lugar geográfico? Justifique.

      O "deserto" para Jacob não é apenas uma região geográfica árida, mas sim um estado de espírito e um espaço de desconexão do barulho cotidiano. O conto mostra que o deserto pode ser encontrado em locais simples do dia a dia (como uma sucata ou um canto silencioso na casa de uma amiga), desde que a pessoa adote uma atitude de calma, foco interior e abertura para o silêncio e para a meditação.

 

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