Conto: Jacob procura um deserto
O
professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e
Jesus gostavam de ir para o deserto.
—
No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar.
Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está
habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada
que o distraia quando quer falar com Deus.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaK0qUNW2J4ruzumK37a4rqn9RRe_BlxDXbYUTQ-l1HZRMToQqLzQ9LebO-L_08zP_gmoxtSv52rgHBI1ISRgj09-gwdrZGG6MaNOperNh1XIBtgUfe6F_hO7Qp7H_-EST8iaaxTRB3dy_w00Mtx-Ir0_eBdyPtxbxGg105dTnpSFFWXbBIfXDIHRI-90/s320/images.jpg —
O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob.
—
Já — responde o professor. — Depois de visitar Jerusalém fui até lá. Gostei
tanto, que quase nem consigo descrever.
“Eu
também gostava de ir para o deserto” — pensa Jacob. Só é pena que à beira de
sua casa não haja nenhum deserto, nenhum local onde possa ficar em silêncio e
meditar.
Ou
será que há?
No
quarto de Jacob, a seguir ao almoço, não há barulho. Só ouve, baixinho, a
música da Antena 1 vinda da casa do vizinho e a mãe a lavar a loiça na cozinha.
No pátio, uma criança atira a bola repetidamente contra a parede, e ao longe
ouve-se o ruído dos automóveis.
Ali
ainda há demasiado barulho para poder estar em silêncio, mas, se fizer um
esforço, talvez consiga abstrair-se. Jacob vai perguntar à mãe se pode ir dar
um pequeno passeio.
Não
é fácil encontrar na cidade um pouco de deserto. Talvez no parque, mas ao lado
está a ser aberta uma estrada, e as máquinas fazem tanto barulho que nem se
consegue ouvir os pardais a chilrear no arvoredo.
Três
quarteirões mais à frente, atrás da fábrica de calçado, há uma sucata. Está
fechada com arame farpado, mas Jacob conhece um buraco por onde pode
escapar-se. O local da sucata é uma paisagem deserta, só com canos de fogões,
detritos, máquinas de lavar e peças de automóveis. Um homem já de certa idade
caminha, curvado, por entre os montes de ferro-velho e recolhe metal.
—
Andas à procura de alguma coisa? — pergunta, olhando para Jacob.
Jacob
salta novamente para a estrada e anda, anda, até chegar em frente da casa de
Catarina. Sobe as escadas e toca à campainha.
—
Ando à procura de um local para meditar – diz-lhe ele.
Ela
condu-lo à sala, afasta para o lado livros e brinquedos com o pé, e encosta uma
almofada à parede.
—
Pronto, senta-te aqui — diz ela. — Vou ficar quieta para tu poderes
meditar.
Catarina
senta-se à mesa a fazer os trabalhos de casa. Não diz uma palavra nem olha uma
única vez para Jacob. A sala está tão silenciosa que ele consegue ouvir a
caneta de tinta permanente a arranhar o papel. E o ruído abafado que os sapatos
fazem quando Cati roça a perna da cadeira, porque Cati nunca consegue sentar-se
totalmente quieta.
Jacob
fecha os olhos. Ouve a sua própria respiração e admira-se por respirar tão
devagar. Sente como a barriga sobe e desce quando respira. O sangue palpita-lhe
levemente nas orelhas e também no pescoço. Cati foi muito simpática em tê-lo
deixado ficar na sala, mas Jacob não lho diz.
—
Está-se tão bem aqui. Quase como no deserto.
—
Se andas à procura de um deserto, tens de ir à sucata.
—
Já lá estive — diz Jacob.
—
E?...
—
Nada.
—
Tens de atravessar devagarinho e com calma a sucata toda — diz Cati. — Não vás
só pela beira.
De
regresso a casa, Jacob volta a entrar pelo buraco do arame farpado.
—
Então, de que é que andas à procura? — pergunta o velho.
—
De alguma coisa para a bicicleta? Talvez possa ajudar-te.
—
Eu só vim dar uma volta — diz Jacob, e continua por entre o ferro-velho. As
pedras rolam-lhe por debaixo dos pés, escorrega, segue em frente. Ouve-se o
vento a assobiar. Um cão ladra algures.
No
céu, bandos de gralhas voam em círculos. Jacob fica espantado. Nunca pensou que
ali fosse tão calmo. Não há nada que o distraia.
“Jesus”
— pensa ele. — “O que achas do meu deserto?”
Lene Mayer-Skumanz. Lene Mayer-Skumanz
(org.). Hoffentlich bald Wien, Herder Verlag, 1986. Tradução e adaptação
Entendendo o conto:
01 – Qual é a
explicação dada pelo professor de religião sobre o motivo pelo qual Jesus e os
profetas gostavam de ir para o deserto?
O professor explica que no deserto o homem fica completamente sozinho, o que possibilita fazer silêncio, meditar e falar com Deus sem distrações. Além disso, o deserto é um local para testar a si mesmo e ver se é possível viver sem as comodidades do dia a dia, como boa comida, conforto, diversões e amigos.
02 – Ao tentar
meditar no próprio quarto, quais são os barulhos que impedem Jacob de encontrar
o silêncio absoluto?
No quarto, Jacob consegue ouvir a música da rádio vinda da casa do vizinho, a mãe lavando a louça na cozinha, uma criança batendo repetidamente uma bola contra a parede no pátio e, ao longe, o ruído dos automóveis na rua.
03 – Como a cidade é
apresentada no texto no que diz respeito à busca de Jacob por um espaço de
silêncio? Dê exemplos dos locais visitados por ele antes da casa de Catarina.
A cidade é apresentada como um ambiente barulhento e em constante movimento, onde é difícil encontrar um espaço calmo. Quando Jacob tenta ir ao parque, depara-se com máquinas barulhentas abrindo uma estrada. Ao ir para a sucata pela primeira vez, o local tem a aparência de uma paisagem deserta, mas a presença do homem que recolhe ferro-velho o assusta e o faz ir embora sem meditar
04 – De que maneira
Catarina ajuda Jacob na sua busca por um local para meditar e como ela se
comporta enquanto ele está lá?
Catarina acolhe Jacob em sua casa, abre espaço na sala afastando brinquedos e livros e coloca uma almofada para ele se sentar. Para ajudá-lo a meditar, ela decide ficar totalmente em silêncio fazendo seus deveres de casa, sem falar e sem olhar para ele, respeitando a busca do amigo
05 – Qual é o
conselho que Catarina dá a Jacob para que ele realmente consiga encontrar o
"deserto" na sucata?
Catarina aconselha Jacob a não ficar apenas na beirada da sucata, mas sim a atravessar o local inteiro, devagar e com calma, para conseguir vivenciar a experiência do silêncio e da meditação naquele espaço.
06 – O que Jacob
sente e percebe quando decide seguir o conselho de Catarina e retornar à
sucata?
Ao caminhar devagar pelo ferro-velho, Jacob percebe os sons sutis ao seu redor, como o vento assobiando, as pedras rolando sob seus pés, um cão latindo ao longe e o voo das gralhas no céu. Ele se espanta com a calma do lugar e conclui que ali não há nada que o distraia, alcançando finalmente o seu "deserto".
07 – A partir da
leitura do conto, como podemos definir o conceito de "deserto" para
Jacob? Trata-se apenas de um lugar geográfico? Justifique.
O
"deserto" para Jacob não é apenas uma região geográfica árida, mas
sim um estado de espírito e um espaço de desconexão do barulho cotidiano. O
conto mostra que o deserto pode ser encontrado em locais simples do dia a dia
(como uma sucata ou um canto silencioso na casa de uma amiga), desde que a
pessoa adote uma atitude de calma, foco interior e abertura para o silêncio e
para a meditação.
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