Conto: O caçador de borboletas
José Eduardo Agualusa
Vladimir recebeu muitas prendas no
Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo
do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco
de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e
alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as
borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas
estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que
fazem os coleccionadores.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5RXcPlRMCMxJ2FpEwaaaCsK3AIDMgL_G7KykipMDVhwED1kRrUDnQaAHTLpnQRw0zjqrw1HJgR3WMcDJkvByM83AB1aJQ8k6ts2jU0XrP8oJXJgyusJK2pO09haYEJZ-0XJNr8OC1nPKR0oJ5rTCpVJUKypV8GLPfqprSNzov_pOmgu6YvJW0KECMQqU/s320/images.jpg Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele
gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem
colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos
com os amigos.
Nessa mesma tarde saiu para caçar
borboletas.
Foi para o matagal junto ao rio, atrás de
casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado
cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém
cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele
julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um
arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa.
Sentiu o que deve sentir em momentos
assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe
tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a
borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de
nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
— Agora és minha — disse-lhe. — Toda a
tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito
levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:
— Isso não é possível — era a borboleta
que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na
Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…
Vladimir esfregou os olhos:
— Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
— Isso não tem importância. Ouve a
minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar.
Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E
foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para
ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
— Não! — disse Vladimir abanando a
cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem
e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso
calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):
—
Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não
podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não
podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar
estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na
noite. É ali o lugar dela.
Vladimir começava a achar que ela tinha
razão.
— Se eu te libertar agora — perguntou —
tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas iluminando
o frasco com uma luz de todas as cores.
— Já sou tua — disse — e tu já és meu.
Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.
Vladimir regressou a casa alegre como
um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino
mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
— Muito boa — disse. — Estás a ver?
Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.
José Eduardo Agualusa.
Era uma vez Revista Pais e Filhos, s/d.
Entendendo o conto:
01
– O que motivou Vladimir a sair para caçar borboletas e qual era a sua visão
inicial sobre o ato de colecionar esses insetos?
Vladimir ficou entusiasmado
ao receber de presente de Natal um kit de caça às borboletas, composto por
rede, frasco, éter, alfinetes e uma caixa de cortiça. Inicialmente, ele
encarava o ato de colecionar borboletas da mesma forma que se coleccionam
objetos inanimados (como selos ou moedas): uma oportunidade de juntar
exemplares, preservar suas formas e até trocar itens repetidos com os amigos,
sem refletir sobre o impacto da morte do animal para obter essa posse.
02
– Como o autor descreve o momento em que Vladimir avista a borboleta especial
no matagal e quais foram as reações físicas e emocionais do menino?
Ao chegar ao
matagal, Vladimir escutou uma voz "de algodão doce" (doce e macia) e
avistou uma borboleta colorida e luminosa como um arco-íris. A reação do menino
foi a de um verdadeiro caçador diante de sua presa mais cobiçada: sentiu o ar
faltar, as mãos tremerem e uma imensa alegria pela conquista iminente.
03
– Qual é o argumento da borboleta ao contar a história de Buda e como essa
narrativa se relaciona com a verdadeira natureza das borboletas?
A borboleta conta que Buda
criou as borboletas lançando flores ao vento para dar alegria ao ar. Com essa
metáfora, ela explica a Vladimir que a beleza das borboletas foi feita para o
movimento e a liberdade ("é uma beleza para ser voada"). Prende-las e
matá-las em uma caixa destrói a própria essência daquilo que as torna belas e
vivas.
04
– Qual ensinamento a borboleta transmite a Vladimir sobre a posse de coisas
intangíveis e belas da natureza?
A borboleta
ensina que existem coisas no mundo que não podem ser aprisionadas para serem
possuídas, como o luar, a brisa de um pomar ou as estrelas. Ela propõe uma nova
forma de "colecionar": admirar e contemplar os elementos em seu
habitat natural (como escolher uma estrela e deixá-la no céu), compreendendo
que a verdadeira posse nasce do respeito e do vínculo afetivo, e não do
aprisionamento.
05
– Analise o desfecho do conto: Por que Vladimir diz ao pai que fez uma
"muito boa" caçada ao mostrar o frasco vazio? O que isso revela sobre
a transformação do personagem?
Vladimir considera a caçada
bem-sucedida porque compreendeu o verdadeiro valor da liberdade e da beleza da
natureza. Ao mostrar o frasco vazio com orgulho e dizer que deixou fugir a
borboleta mais bela do mundo, o menino demonstra ter passado por um
amadurecimento moral: ele abandonou a postura possessiva de
caçador/colecionador para se tornar um protetor e admirador da vida. O frasco
vazio representa sua libertação da ignorância e sua conexão com o mundo vivo.
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