quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: O CAÇADOR DE BORBOLETAS - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA - COM GABARITO

 Conto: O caçador de borboletas

          José Eduardo Agualusa

        Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5RXcPlRMCMxJ2FpEwaaaCsK3AIDMgL_G7KykipMDVhwED1kRrUDnQaAHTLpnQRw0zjqrw1HJgR3WMcDJkvByM83AB1aJQ8k6ts2jU0XrP8oJXJgyusJK2pO09haYEJZ-0XJNr8OC1nPKR0oJ5rTCpVJUKypV8GLPfqprSNzov_pOmgu6YvJW0KECMQqU/s320/images.jpg


        Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos. 

        Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. 

        Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. 

        Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.

        — Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.

        A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:

        — Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…

        Vladimir esfregou os olhos:

        — Meu Deus! Estou a sonhar?

        A borboleta riu-se:

        — Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.

        — Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.

        A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):

        — Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.

        Vladimir começava a achar que ela tinha razão.

        — Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?

        A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.

        — Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.

        Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:

        — Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.

José Eduardo Agualusa. Era uma vez Revista Pais e Filhos, s/d.

 

Entendendo o conto:

01 – O que motivou Vladimir a sair para caçar borboletas e qual era a sua visão inicial sobre o ato de colecionar esses insetos?

      Vladimir ficou entusiasmado ao receber de presente de Natal um kit de caça às borboletas, composto por rede, frasco, éter, alfinetes e uma caixa de cortiça. Inicialmente, ele encarava o ato de colecionar borboletas da mesma forma que se coleccionam objetos inanimados (como selos ou moedas): uma oportunidade de juntar exemplares, preservar suas formas e até trocar itens repetidos com os amigos, sem refletir sobre o impacto da morte do animal para obter essa posse.

02 – Como o autor descreve o momento em que Vladimir avista a borboleta especial no matagal e quais foram as reações físicas e emocionais do menino?

      Ao chegar ao matagal, Vladimir escutou uma voz "de algodão doce" (doce e macia) e avistou uma borboleta colorida e luminosa como um arco-íris. A reação do menino foi a de um verdadeiro caçador diante de sua presa mais cobiçada: sentiu o ar faltar, as mãos tremerem e uma imensa alegria pela conquista iminente.

03 – Qual é o argumento da borboleta ao contar a história de Buda e como essa narrativa se relaciona com a verdadeira natureza das borboletas?

      A borboleta conta que Buda criou as borboletas lançando flores ao vento para dar alegria ao ar. Com essa metáfora, ela explica a Vladimir que a beleza das borboletas foi feita para o movimento e a liberdade ("é uma beleza para ser voada"). Prende-las e matá-las em uma caixa destrói a própria essência daquilo que as torna belas e vivas.

04 – Qual ensinamento a borboleta transmite a Vladimir sobre a posse de coisas intangíveis e belas da natureza?

      A borboleta ensina que existem coisas no mundo que não podem ser aprisionadas para serem possuídas, como o luar, a brisa de um pomar ou as estrelas. Ela propõe uma nova forma de "colecionar": admirar e contemplar os elementos em seu habitat natural (como escolher uma estrela e deixá-la no céu), compreendendo que a verdadeira posse nasce do respeito e do vínculo afetivo, e não do aprisionamento.

05 – Analise o desfecho do conto: Por que Vladimir diz ao pai que fez uma "muito boa" caçada ao mostrar o frasco vazio? O que isso revela sobre a transformação do personagem?

      Vladimir considera a caçada bem-sucedida porque compreendeu o verdadeiro valor da liberdade e da beleza da natureza. Ao mostrar o frasco vazio com orgulho e dizer que deixou fugir a borboleta mais bela do mundo, o menino demonstra ter passado por um amadurecimento moral: ele abandonou a postura possessiva de caçador/colecionador para se tornar um protetor e admirador da vida. O frasco vazio representa sua libertação da ignorância e sua conexão com o mundo vivo.

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