Poesia: O dia da criação – II – Fragmento
Vinícius
de Morais
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
[...]
Vinícius de Moraes. In:
Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 224.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 193.
Entendendo a poesia:
01
– No fragmento lido, o verso "Porque hoje é sábado" é repetido ao
final de cada estrofe/par de versos. Qual é o recurso estilístico empregado por
meio dessa repetição e qual efeito de sentido ele produz no poema?
O recurso
utilizado é a anáfora (ou paralelismo sintático/repetição estrutural). Essa repetição
constante funciona como uma espécie de refrão ritualístico que encadeia e
justifica todas as ações retratadas no poema. O efeito de sentido criado é o de
uma aparente contradição: ao atribuir a causa de eventos tão diversos,
violentos ou banais ao simples fato de "ser sábado", o eu lírico
ironiza a arbitrariedade da vida cotidiana e expõe o automatismo social,
transformando o sábado em um dia síntese dos excessos, contradições e tragédias
humanas.
02
– Aponte e explique o uso das contradições (antíteses) presentes nas primeiras
estrofes do poema, relacionando-as à visão do eu lírico sobre a condição
humana.
As contradições
aparecem logo no início ao colocar lado a lado eventos opostos, como
"casamento" e "divórcio", além de unir a celebração de um
espetáculo ou regata a episódios de violência e miséria ("uma mulher que
apanha e cala", "criancinhas que não comem"). Essa justaposição
de opostos revela que a condição humana é marcada pela coexistência simultânea
da alegria e do sofrimento, do sagrado e do profano, da ordem e do caos. O eu
lírico demonstra que o mesmo dia que traz a festa e a esperança também carrega
a dor e a exclusão.
03
– Embora o poema possua um tom lírico e ritmado, há nele uma forte dimensão de
crítica social. Identifique dois versos que exemplificam essa denúncia social e
comente a relevância dessas imagens no texto.
Dois exemplos
marcantes de denúncia social são os versos "Há uma mulher que apanha e
cala" e "Há criancinhas que não comem". Essas imagens expõem
problemas estruturais graves, como a violência doméstica e a misoginia
sustentadas pelo silêncio, além da extrema pobreza e da fome infantil. A
relevância dessas imagens está no choque que provocam no leitor: em meio à
atmosfera festiva comumente associada ao sábado (como regatas e espetáculos de
gala), o poema lança luz sobre a realidade cruel e invisibilizada das
populações vulneráveis.
04
– Na tradição judaico-cristã, o sábado é o dia do descanso e do término da
Criação divina. Como a representação do sábado no poema de Vinicius de Moraes
dialoga (ou se opõe) a essa tradição religiosa?
Na tradição
religiosa, o sábado representa a consumação da criação divina, um momento de
paz, descanso e santificação. No poema, Vinicius de Moraes subverte essa ideia
ao apresentar o sábado não como um dia de repouso contemplativo, mas como o
ápice das paixões humanas, do caos e da imperfeição. O sábado torna-se o dia em
que ocorrem crimes, suicídios, injustiças e celebrações efêmeras, mostrando que
a "criação" no mundo humano é imperfeita, contraditória e carregada
de profanidade.
05
– Observe a repetição do verbo "Há" no início de quase todos os
versos ímpares do fragmento. Qual é a função sintático-semântica dessa escolha
verbal no texto?
Sintaticamente, o
verbo "haver" é empregado como impessoal (no sentido de existir ou
ocorrer), criando orações sem sujeito. Semântica e expressivamente, essa
escolha confere ao poema um caráter constatativo, panorâmico e impessoal. O
verbo atua como um catálogo de fatos da existência humana, transmitindo a ideia
de que esses eventos simplesmente acontecem inevitavelmente, como um espetáculo
inevitável da vida sobre o qual não se tem controle.

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