quinta-feira, 6 de agosto de 2026

FÁBULA (POEMA): O QUE OS OLHOS NÃO VEEM - RUTH ROCHA - COM GABARITO

 Fábula (Poema): O que os olhos não veem

             Ruth Rocha

Havia uma vez um rei
num reino muito distante,
que vivia em seu palácio
com toda a corte reinante.
Reinar pra ele era fácil,
ele gostava bastante.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgu0A0qmR1ZPOI4UePhwC0eFmyTC0SsoUQ9XYVk7QXUtoMMGJXdPSaf9NaTglYlgirERpJDESI58f6dIFt6vcD-d-3mhNQ-nQgcG0d4-5x4czM-8RfTtD5O01KLmV_sPNEb3tkRPrRSk7fOprptFF-mhj2GZbW5CgMXAxGLksqqQlVvu65r4vKpMnWjvo4/s320/images.jpg



Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
nosso rei adoeceu.
De uma doença esquisita,
toda gente, muito aflita,
de repente percebeu...

Pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém.

Por isso, seus funcionários
tinham de ser escolhidos
entre os grandes e falantes,
sempre muito bem nutridos.
Que tivessem muita força,
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno,
da voz fraca, mal vestido,
não conseguia ser visto.
E nunca, nunca era ouvido.

O rei não fazia nada
contra tal situação;
pois nem mesmo acreditava
nessa modificação.
E se não via os pequenos
e sua voz não escutava,
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava.

E o pior é que a doença
num instante se espalhou.
Quem vivia junto ao rei
logo a doença pegou.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados,
toda essa gente cegou.

De uma cegueira terrível,
que até parecia incrível
de um vivente acreditar,
que os mesmos olhos que viam
pessoas grandes e fortes,
as pessoas pequeninas
não podiam enxergar.

E se, no meio do povo,
nascia algum grandalhão,
era logo convidado
para ser o assistente
de algum grande figurão.
Ou senão, pra ter patente
de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
no palácio se instalava;
e a doença, bem depressa,
no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ele tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menor conhecimento...

Seria até engraçado
se não fosse muito triste;
como tanta coisa estranha
que por esse mundo existe.

E o povo foi desprezado,
pouco a pouco, lentamente.
Enquanto que próprio rei
vivia muito contente;
pois o que os olhos não veem,
nosso coração não sente.

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
que trabalhava bastante,
mas que nunca era atendido;
que por mais que se esforçasse
não era reconhecido.

Cada pessoa do povo
foi chegando à convicção,
que eles mesmos é que tinham
que encontrar a solução
pra terminar a tragédia.
Pois quem monta na garupa
não pega nunca na rédea!

Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram,
E chegaram à conclusão
Que, se a voz de um era fraca,
Juntando as vozes de todos
Mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau,
Então ficariam grandes,
E no palácio real
Seriam logo avistados,
Ouviriam os seus brados,
Seria como um sinal.

E todos juntos, unidos,
fazendo muito alarido
seguiram pra capital.
Agora, todos bem altos
nas suas pernas de pau.
Enquanto isso, nosso rei
continuava contente.
Pois o que os olhos não veem
nosso coração não sente...

Mas de repente, que coisa!
Que ruído tão possante!
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante!
-- Vamos olhar na muralha.
-- Ai, São Sinfrônio, me valha
neste momento terrível!
Que coisa tão grande é esta
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geleia,
daquela grande assembleia,
como eu nunca imaginei!

E os grandões, antes tão fortes,
que pareciam suportes
da própria casa real;
agora tinham xiliques
e cheios de tremeliques
fugiam da capital.

O povo estava espantado
pois nunca tinha pensado
em causar tal confusão,
só queriam ser ouvidos,
ser vistos e recebidos
sem maior complicação.

E agora os nobres fugiam,
apavorados corriam
de medo daquela gente.
E o rei corria na frente,
dizendo que desistia
de seus poderes reais.
Se governar era aquilo
ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui
a história a que estou contando.
O que se seguiu depois
cada um vá inventando.
Se apareceu novo rei
ou se o povo está mandando,
na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.

Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
que quando os olhos não veem
nosso coração não sente.

 

        Moral: A história é uma metáfora (uma comparação figurada) sobre a desigualdade social e a força da união do povo.

 

Disponível em: http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historias_08.htm

 

Entendendo a fábula:

01 – O texto que você leu foi escrito em verso. Sabendo que cada linha do poema é um verso e que cada conjunto de versos forma uma estrofe, responda:

a) Quantas estrofes têm o poema?

      O poema é formado por 18 estrofes.

b) Todas as estrofes têm o mesmo número de versos?

      Não. O poema é heterostrófico (suas estrofes variam de tamanho). Existem estrofes com 6, 7 e até 10 versos.

 

02 – Um recurso sonoro muito utilizado em poemas é a rima. Rimas são repetições dos mesmos sons ao final das palavras. Releia as duas primeiras estrofes e escreva no caderno as rimas que encontrar.

      1ª Estrofes: distante rima com reinante e bastante.

      2ª Estrofes: aconteceu rima com adoeceu e percebeu.

esquisita rima com aflita.

 

03 – O texto afirma que o rei ficou doente. Qual era a doença dele?

      A doença do rei era uma cegueira e surdez seletivas: ele só conseguia enxergar e ouvir as pessoas grandes, fortes, ricas e bem-nascidas. As pessoas pequenas, de voz fraca e pobres eram completamente invisíveis para ele.

 

04 – Comparando a história com a realidade, quem você acha que representa as pessoas grandes e fortes? E as pequeninas?

      Pessoas grandes e fortes: Representam os ricos, os influentes, os políticos e a elite social, que detêm o poder econômico e a atenção dos governantes.

      Pessoas pequeninas: Representam a classe trabalhadora, os mais pobres e marginalizados da sociedade, que costumam ser ignorados pelas autoridades públicas.

 

05 – O que acontecia com as pessoas que viviam junto ao rei?

      A doença era "contagiosa". Assim que alguém passava a conviver com o rei no palácio — até mesmo uma pessoa do povo que ficasse grande —, logo pegava a mesma cegueira e passava a ignorar os pequenos e pobres.

 

06 – O que o povo fez para resolver o problema da cegueira do rei?

      O povo uniu suas forças:

      -- Uniram as vozes: Perceberam que juntas as vozes fracas soavam como um trovão.

      -- Usaram pernas de pau: Subiram em pernas de pau para ficarem altos o suficiente para serem enxergados pelo rei e sua corte.

      -- Marcharam juntos: Foram em multidão até a capital exigir ser ouvidos.

 

07 – As atitudes do rei e das pessoas próximas a ele são resumidas no provérbio “o que os olhos não veem, nosso coração não sente”. Você conhece outro provérbio que possa resumir as atitudes do povo? Qual?

      Existem alguns ditados populares que combinam muito com a atitude coletiva do povo na história:

      "A união faz a força." (O mais adequado, pois refere-se diretamente ao grupo se juntando para vencer a dor).

      "Quem não chora, não mama." (Mostra que eles tiveram que protestar para serem atendidos).

      "De grão em grão, a galinha enche o papo."

 

08 – O eu lírico (a voz que fala no poema) sugere que cada um vá inventando o que aconteceu depois que o problema foi resolvido. Invente o seu final para a história.

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Após a fuga do rei e dos nobres, o povo percebeu que não precisava de um monarca para dizer o que devia ser feito. Eles se reuniram em uma grande praça e criaram um conselho formado por representantes de cada bairro e profissão. As pernas de pau foram guardadas no museu da cidade para lembrar a todos que, dali para frente, ninguém mais seria invisível naquele lugar.

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