domingo, 23 de agosto de 2026

CONTO: HOMENAGEM AO PAPAGAIO VERDE - FRAGMENTO - JORGE DE SENA - COM GABARITO

 Conto: Homenagem ao papagaio verde – Fragmento

          Jorge de Sena

        Era verde e velho. Pelo menos, antigo. E ocupa na minha memória – junto com uma galeria indistinta e confusa de gatos tigrados e «preparados» pelo amola-tesouras-e-navalhas (mais tarde, esse primeiro mistério da minha infância passou a ser celebrado na Escola de Medicina Veterinária, já com os requintes da assepsia), e todos chamados «Mimosos» tão onomasticamente como os papas são Pios – o mais arcaico lugar reservado a uma personalidade animal. Digo personalidade, e bem, porque ele a tinha, e porque foi mesmo, para lá das surpresas contraditórias das «pessoas grandes», tão caprichosas e volúveis, tão imprevisíveis, tão ilógicas, tão hipocritamente cruéis, a revelação de um carácter. Não tinha nome: era o Papagaio, e parecia-me, porque falava, um ser maravilhoso. Depois, e a chegada desse outro eu recordo, meu pai trouxe das Áfricas um papagaio cinzento. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQu02YNIHjvbWLz5aAwxuUe31UYqTG2rZs3iP-ELIP4iC6FlWRYKvv6wIOGMXGsQTOSdw9xFIV5zeqHygfplwvMsf7FkTBUzs9F_BuO0zdwGZqZAaJMiJfoZK6B_ovrVsx2V3f-vminGldNTt91lJDOdpE0CDukH3yGka6V9pFRqxOUvb1qmM3GvEaL1U/s320/images.jpg


O papagaio por excelência passou a chamar-se o Papagaio Verde, e vivia de gaiola pendurada numa das varandas em que, por um tapume de madeira, estava dividida a varanda das traseiras da minha casa, cabendo uma parte à cozinha e outra à sala de jantar. Uma das reivindicações políticas da minha infância foi a troca de uma situação injusta que confinava o Papagaio Verde à «varanda da cozinha». Na da sala de jantar, a que era mais próxima da rua, vivia o Papagaio Cinzento. Este, menos esplendoroso e menos corpulento, menos vaidoso também das suas cores baças, morreu depois do Verde, ave grande, vistosa, transbordante de presunção e dignidade; e, apesar de ter tido muito mais do que o Verde o dom da palavra (usando-o, todavia, com menos humor involuntário), não o recordo tão distintamente como a imagem do outro, à qual a sua viera sobrepor-se à maneira de um negativo, uma sombra, um apagado duplo, na imprecisão focal da memória a desfocar-se por ele. De resto, o Cinzento era sujeito retraído e friorento, que ficava encolhido a resmonear o reportório variado, sem manifestar por alguém qualquer predileção afetiva; tinha apenas de simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão muito dócil do resignado e acorrentado escravo. O Verde, pelo contrário, era exuberante, de amizades apaixonadas e de ódios vesgos, sem continuidade nem obstinação. Minto: essas amizades e ódios, não continuados nem firmes, faziam parte do seu carácter expansivo e espetacular. Mas, com o andar do tempo, começaram a refinar numa aversão coletiva, azeda e ruidosa, ou concretizada num bico de respeito, que, traiçoeiramente, na frente de uma adejada revoada verde, se apoderava cerce de um dedo, uma canela, uma madeixa de cabelo. A contrapartida deste crescente pessimismo em relação ao género humano (no qual ele incluía, com um desprezo que raiava o absurdo, o Cinzento) foi uma dedicada e veemente amizade por mim. No mundo hostil dos adultos que me cercavam de solicitude e clausura, o Papagaio Verde, afinal, não me revelou apenas o que era carácter: ensinou-me também o que a amizade é.

        [...].

        Foi por essa altura que a nossa amizade se estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta e janela fechada em pleno sol e de passos leves das criadas, durante a vigência da qual eu – esquecido, ou mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando saía lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me chamava muito – eu ficava mais livre, entretidas as criadas numa escuta maliciosa ou no «far niente» das tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e logo, quase sem transição, passavam à violência do temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos, frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha mãe, até que, num repente, a porta abria-se para as criadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito pálida, soltava leves ais de mão no coração. Eu esgueirava-me pelo meio do tumulto, sem que ninguém reparasse em mim, e era em geral minha mãe, abrindo os olhos, quem me enxergava, suspirava mais soluçadamente, e estendia para mim mãos trémulas e dramáticas que solicitavam a minha conivência, a minha aliança, e das quais eu recuava tonto, com repugnância. E era meu pai quem me empurrava para elas, como uma espécie de plenipotenciário, encarregado de negociar a paz de uma guerra cujas causas eu não entendia, mas de que me sentia, sem o saber, o campónio que vê os exércitos inimigos devastarem-lhe a seara, uma pequena horta, um pobre jardim. Aliás, por isso, a situação de plenipotenciário tinha, pela jogada impotência e pela passividade disputada, muito mais de um refém que de um embaixador. Ninguém me perguntava ou me ensinava a perguntar o que eu queria ou o que eu pensava; e ambos, como os aliados, e os pacificadores, as terceiras forças de «cruz vermelha» e neutralismo, que às vezes eram invocadas (quando não eram arrastadas nos acontecimentos), afinal me ignoravam. E, tão depressa quanto era empurrado para os braços trémulos, era retirado deles e posto de lado, fora da porta, como a bandeira branca que, depois de brandida e de surtir efeito, fica no chão, entre os cadáveres, as cápsulas, o lixo das guerras modestas e localizadas.

        Eu ia para a varanda conversar com o Papagaio Verde, não para lhe contar desditas que claramente não entrevia, mas para comungar numa idêntica solidão acorrentada. Eu saía muito pouco, a rua era-me proibida, primos meus vinham às vezes brincar comigo. As brincadeiras, porém, constantemente interrompidas por minha mãe, a quem era preciso pedir licença para ir buscar ao «quarto escuro» o caixote dos brinquedos (o «quarto escuro» era, também, o misterioso reduto-alcova das criadas, cuja intimidade constituía outro mistério estranho), não tinham graça nem entusiasmo, e degeneravam sempre em brigas sem motivo, em que se opunham o meu anseio de brincar tudo ao mesmo tempo, e a absorção com que meus primos se dedicavam exclusivamente a algum instrumento de brincar, que eles não possuíssem e os seduzisse mais. Quando essas brigas estalavam, minha mãe mandava-os embora, e eu ficava dias e dias remoendo uma autoritária cólera insatisfeita, e esperando (de ideia fixa e numa insistência cuidadosa, para que minha mãe logo a não contrariasse) que eles voltassem. Fui, por extensão, pouco a pouco, sem cálculo nem método, conquistando o Papagaio Verde, e, ao mesmo tempo, o respeito já lendário que ele impusera à sua volta. Sem largar o poleiro, e olhando ironicamente para o meu dedo, ele dava-me o pé; cantava comigo, aceitava da minha mão alguma das coisas, como um talo de couve, que ele apreciava. Fui descobrindo que, na verdade, ele não apreciava muito esses talos que, solícito, eu lhe metia no pé. Mais por delicadeza que por gosto, mais para aproveitar a oportunidade de despedaçar metodicamente um objeto (que a gaiola com poleiro de folha, e a distância a que era posto de quanto fosse roível, não lhe consentiam), é que ele aceitava essas dádivas. Não as comia; com bicadas certeiras e calmas, que intercalava de laterais olhadelas para mim, partia tudo em bocadinhos que tombavam na gaiola ou no chão. Terminada a cerimónia, descia do poleiro, e continuava na borda da gaiola uma segunda fase que era escolher dos caídos pedaços, aqueles que ainda podiam ser, sem muito esforço, reduzidos a tamanho menor. Contemplava, então, de olho grave e atento, a extensão da devastação que fizera. Então, abrindo as asas e esticando o pescoço, sacudia-se de penas eriçadas, catava no alto da poupa azul um piolhinho (para o que erguia, à cabeça baixa, um dedo cuja unha coçava suavemente por entre as penas), sacudia-se de novo, subia para o poleiro, assentava-se nele, assentava nos ombros a cabeça, e fechava os olhos. Era o sinal de que eu me retirasse, de que a minha visita acabara. Com a ponta da vassoura, após esperar que a respiração dele fosse pausada e funda no peito verde, eu tocava-lhe. Ele fazia de conta que não dava por isso, era preciso tocar-lhe vezes seguidas, enfiar-lhe o cabo da vassoura por baixo das asas. Até que tudo isto se repetia como uma cena previamente ensaiada entre nós. Fingindo-se ele distraído e indiferente, retraído e alheio, eu teimava com o cabo da vassoura; e ele, subitamente, disparava um voo circular na ponta da corrente, pousava de esguelha no pau empinado, com as asas semiabertas numa imitação de procurado equilíbrio, e cantava, gargalhando e dando estalinhos com a língua.

        [...]

        Certa manhã, quando me levantei, havia na cozinha um movimento desusado, gritos, uma atmosfera de pânico. Provavelmente, essa atmosfera despertara-me. Fui ver. O Papagaio Verde estava solto! Passeando para cá e para lá no chão, arrastando uma ponta de corrente, o Papagaio proibia que a porta da varanda se abrisse, e esvoaçava ameaçador contra a greta que nas portadas as criadas tentassem. Eu queria passar para fora, minha mãe que acudira ao tumulto segurava-me, o Papagaio berrava. As criadas repetiam que ele fugira, fugira! Eu achava que, se tivesse fugido, teria voado para as árvores do quintal subjacente. E desmenti. E, lutando esgatanhadamente contra todas, abri as vidraças da varanda. Afugentando para o corredor a minha mãe e as criadas, que pela porta entreaberta da cozinha observavam o terrível incidente de que eu sairia mortalmente ferido («com um olho vazado», clamava minha mãe em ânsias), o Papagaio entrou, dando ao corpo nos requebros de avançar, mal espalmados no chão os dedos, a passos largos, direito a mim, que, contagiado levemente pelo pânico daquelas galinhas, recuara. E veio até aos meus pés, e fez contra um meu sapato, com doçura e ternura, aquele gesto de afiar lateralmente o bico, que fazia às vezes na borda da gaiola. Abaixei-me para lhe pegar. Ele deixou que o agarrasse, instalou-se num meu dedo, e pesava.

        [...]

        Uma tarde, à mesa, estalou a discussão entre meu pai e minha mãe, precisamente num jantar de chegada, a que, como de costume, meus tios assistiam. Eu declarei categoricamente que os detestava a todos, e, atirando com a cadeira por imitação de violência, levantei-me para a varanda, perseguido por um bofetão de meu tio. Lutei contra ele que me agarrava, e contra meu pai que o agarrava a ele, e contra minha mãe que agarrava meu pai, e contra a minha tia que os agarrava a todos; e vendo, num relance enublado, aquele cacho humano a disputar-se a primazia de castigar-me, a voz embargou-se-me em gritos de choro desatado: — Ninguém é meu amigo, ninguém é meu amigo... Só o Papagaio Verde é meu amigo.

        A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal, o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e displicente, raivosa e cheia de carácter, a proclamar, num grande voo de asas verdes, o juízo final que murmurara ao morrer. Não eram. Em verdade, não eram sequer isso, cujo sentido eu não sabia então claramente. A vida, desde então, não me esclareceu muito; mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

Jorge de Sena. Homenagem ao papagaio verde. In: Os Grão-Capitães. www.ficcoes.org/biblioteca_conto/bichos-senahtm. Acesso em: 3/3/2008.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 125.

Entendendo o conto:

01 – Como o narrador estabelece a comparação entre o Papagaio Verde e o Papagaio Cinzento, e qual deles ocupa o lugar de maior destaque em sua memória?

      O narrador contrapõe os dois animais em termos de aparência, temperamento e presença. O Papagaio Cinzento é descrito como menor, retraído, friorento, dócil e nostálgico, parecendo um "negativo" ou sombra na memória. Já o Papagaio Verde é exuberante, vistoso, presunçoso e dotado de um caráter expansivo, de amizades e ódios intensos. Apesar de o Cinzento ter um dom da palavra superior, o Papagaio Verde é o que permanece vivo e pulsante na memória do narrador devido à sua forte personalidade e ao laço afetivo construído entre eles.

02 – De que forma o ambiente familiar do garoto é retratado no texto e como a criança se sente diante das brigas dos pais?

      O ambiente familiar é retratado como hostil, dramático e instável, marcado por oscilações entre curtos períodos de harmonia e violentos episódios de discussão. O garoto sente-se instrumentalizado pelos pais, descrevendo sua posição não como a de um embaixador, mas como a de um "refém" ou "plenipotenciário" usado para intermediar a paz. Ele se sente uma "bandeira branca" que, após ser agitada para conter os conflitos, é descartada no chão. A criança percebe a falsidade e a crueldade do mundo adulto, do qual se sente totalmente alienada e incompreendida.

03 – Qual é o significado da relação de amizade construída entre o narrador e o Papagaio Verde dentro da dinâmica narrativa?

      A amizade com o Papagaio Verde representa o único refúgio de afeto autêntico e de compreensão mútua para o menino em meio ao ambiente sufocante da casa. Ambos compartilham uma "idêntica solidão acorrentada" — o animal preso na gaiola e a criança confinada pelas proibições e conflitos dos adultos. Por meio do pássaro, o menino descobre o que é ter um caráter firme e aprende o verdadeiro sentido da amizade, pautada no respeito, na cumplicidade e no afeto sincero, em oposição às relações falsas dos adultos.

04 – Análise o ritual cotidiano entre o menino e o papagaio envolvendo os talos de couve e o cabo da vassoura. O que esse momento revela sobre a convivência de ambos?

      O ritual demonstra a delicadeza e a inteligência da cumplicidade entre os dois. O Papagaio Verde aceita os talos de couve oferecidos pelo menino não por ter fome, mas por "delicadeza", destruindo-os metodicamente para retribuir o gesto afetivo. Já a brincadeira com o cabo da vassoura funciona como uma encenação previamente ensaiada: o pássaro finge indiferença até subitamente dar um voo, cantar e dar estalinhos com a língua. Esse jogo demonstra a profunda sintonia, o respeito ao espaço do outro e o humor compartilhado entre o menino e o animal.

05 – No episódio em que o Papagaio Verde se solta, qual é a reação das mulheres da casa em contraste com a atitude do menino? O que o desfecho dessa cena comprova?

      As mulheres (a mãe e as criadas) reagem com pânico, gritos e alarmismo, trancando as portas e prevendo que o menino seria ferido ("com um olho vazado"). O menino, por sua vez, desafia o medo geral e abre a porta para encarar o amigo. O desfecho comprova a confiança cega e o vínculo exclusivo entre ambos: em vez de atacar, o Papagaio Verde caminha até o garoto e roça o bico com doçura em seu sapato, permitindo ser pego no colo e desmentindo o terror infundado dos adultos.

06 – Como a família reage quando o menino declara, durante o jantar, que "Só o Papagaio Verde é meu amigo"? Qual a relevância dessa cena para a crítica ao mundo adulto?

      A família reage com uma "gargalhada alvar" e debochada, ignorando a dor genuína e o pedido de socorro emocional da criança após ter sido agredida. Essa cena escancara a insensibilidade, a falta de empatia e a soberba dos adultos, que não conseguem enxergar a profundidade dos sentimentos do garoto e desdenham de sua única fonte de afeto real, evidenciando o abismo moral entre a infância e o mundo adulto.

07 – Como pode ser interpretada a metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" no último parágrafo do conto?

      A metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" simboliza a permanência da memória do papagaio como a única força protetora e consoladora na vida do narrador. Diferente dos anjos tradicionais e da falsa moralidade dos adultos, esse "anjo" é autêntico, irreverente e conhece "os mais rudes palavrões dos sete mares". A imagem sintetiza o conforto psicológico e a lealdade que a lembrança do animal continua a proporcionar ao narrador mesmo na vida adulta diante das amarguras do mundo.

 

 

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