Conto: A morte lucrativa
Valêncio Xavier
O engenheiro, vamos chama-lo de Fulano,
trabalha na usina siderúrgica de... Dedicara sua vida – sem resultado – para
obter uma liga de aço que fosse bastante forte e ao mesmo tempo flexível com o
borracha. Já era velho e não enxergava direito. Um dia, quando inspecionava o
aço líquido que escorria nos caninhos de fundição, tropeçou e caiu dentro da
massa incandescente. Foi um corre-corre, mas nada pôde ser feito, o acidente
foi fatal e seu corpo derretera-se fundindo com o aço.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8Thyphenhyphenu8QRCX63WsJPnR4doCFWWYEhCSGiU7QKv0AJTA0X57pknBoGbths0yoHC6ZBOqTCEGotvRsIXs2G7k_rf_wRZMCHqwqE8ZXP3V0SBI4YUbWWh2XojEP45M7rrJztkzRokvcCqpXQAGZvOOdwAS9F_lJ8Vtmw-YCBZtc6I3uncDbIGG4pcbvcYPHY/s320/images.jpg Sua morte foi muito sentida, a
diretoria da usina pensou em dar sepultura cristã ao enorme bloco de metal já
solidificado, mas numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo e o
cadáver foi transformado em lâminas de barbear. O espantoso foi que, quando
submetidas aos testes, provaram ter uma resistência incrível: capazes de
receber o mais forte impacto e ao mesmo tempo maleáveis a ponto de uma criança poder
dobrá-las sem que se quebrassem. O que o engenheiro Fulano buscara durante sua
vida conseguira com sua morte.
A diretoria, ao saber do resultado dos
testes, reuniu-se para discutir a fabricação do novo tipo de aço. Seria a
glória financeira, poderia entrar no mercado internacional, concorrendo com as
grandes siderúrgicas do mundo. A reunião principiou com animadas conversas
sobre as modificações a fazer para aumento das instalações, o lucro futuro, a
revolta dos concorrentes.
No meio daquela exaltação um dos
diretores pediu a palavra e explicou: “Embora tentasse há muitos anos, o
engenheiro Fulano nunca conseguiu um aço tão perfeito. Se isto agora aconteceu,
não foi na maneira de temperar o metal, mas por alguma coisa que ele trazia no
bolso, que se juntou ao aço candente, apurando-o”.
Essas palavras caíram como água fria na
fervura, mas os outros diretores foram obrigados a reconhecer que eram certas.
Um deles, então, sugeriu: “Se isto é verdade, vamos tratar de descobrir o que o
engenheiro Fulano trazia na hora do triste acidente”.
Puseram-se em ação. Procuraram a viúva
do infeliz e, após os rodeios de praxe, indagaram sobre o conteúdo dos bolsos
do marido no dia fatídico: “Fácil”, disse ela. “Eu mesma arrumava suas coisas.
Naquele dia, lembro-me bem, coloquei nos bolsos de seu terno de sarja azul as
chaves da casa, sua carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã (o
falecido gostava tanto!), um lenço de cambraia, uma nota de 200 e uma de 20
reais. Deve ter gastado 10 de ônibus, teria então 210 reais quando morreu”.
No dia seguinte, os técnicos da usina
receberam ordem para misturar na têmpera do aço um terno de sarja azul, duas
chaves, uma carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã, um lenço de
cambraia e 210 reais. Os técnicos estranharam, mas numa grande indústria as
ordens de cima devem ser sempre obedecidas e a extravagante mistura foi posta
nos cadinhos de fundição. O aço assim produzido foi testado, mas sua qualidade
provou ser a mesma ou pior que as anteriores.
Reunião da diretoria para examinar o
fracasso da experiência. Uns explicavam o malogro pela má qualidade das balas
usadas, outros achavam que o lenço devia ser de cambraia estrangeira. As coisas
estavam nesse pé, até um dos diretores sugerir: “Quem sabe não foi nada disso
que apurou a liga, e sim o corpo do engenheiro Fulano, seus ossos, sua carne,
seu sangue?”. Alguns dos diretores mostraram-se horrorizados com essa ideia,
mas como ela foi muito bem explanada – e como as ideias bem explanadas devem
ser sempre aceitas – resolveram pô-la em prática.
Um cadáver fresco foi comprado na
Faculdade de Medicina e vestido da mesma maneira do engenheiro Fulano. Numa
tarde mandou-se sair os operários da usina e o defunto foi atirado na forja. A
diretoria esperou ansiosa o resultado dos testes. Nova desilusão: o mesmo aço
de sempre, a mesma qualidade, a eterna luta para coloca-lo no mercado. Nova
reunião. Creio que todos sabiam o que iria ser sugerido, mas ninguém tinha
coragem de dizer, por isso, o início da reunião foi bem desagradável. Longos
períodos de silêncio seguiam as palavras dos participantes. Finalmente alguém
mais corajoso tomou a palavra: “Concordamos que a ótima qualidade da liga foi
conseguida graças ao corpo do engenheiro Fulano. Repetimos o acidente, porém o
engenheiro estava vivo quando caiu na forja, mas nós usamos um cadáver. Quem
sabe se nosso erro foi esse? Talvez o sangue borbulhante e as células exerceram
alguma influência na têmpera. Proponho nova experiência, desta vez com um ser
humano vivo!”.
Longo como a eternidade foi o silêncio
que seguiu essas palavras. Não sei o que ficou resolvido; sei que, alguns dias
depois, um operário – por sinal um dos mais antigos e respeitados da usina,
tanto é que naquele mesmo dia havia sido presenteado pela direção com um belo
terno de sarja azul – caiu dentro da forja, morrendo instantaneamente. Este
triste acidente não melhorou a qualidade do aço. A diretoria , como no caso do
engenheiro, pensou em fazer os funerais do bloco de aço; contudo, naqueles dias
estourou mais uma guerra mundial. Aumentou a procura do aço e seu preço subiu
vertiginosamente; tornou-se necessário aumentar a produção e o velho operário
foi transformado em chapas blindadas para tanques. Como a guerra continua e todo
aço produzido é necessário, não importa sua qualidade, ignoro em que pé estão
as pesquisas da usina para melhorar a produção. É uma pena, pois é um problema
que me interessa bastante...
Valêncio Xavier. In:
Geração linguagem. São Paulo: Sesc e Lazuli, 2004.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 115-116.
Entendendo o conto:
01
– Qual era o grande objetivo profissional do engenheiro Fulano em vida e de que
forma ele acabou, ironicamente, alcançando esse resultado?
O objetivo de
vida do engenheiro Fulano era obter uma liga de aço que fosse extremamente
forte e, ao mesmo tempo, flexível como borracha. Ironicamente, ele só alcançou
esse resultado após a sua morte: por ter a visão prejudicada devido à idade,
ele tropeçou e caiu na massa incandescente de aço líquido da usina. Ao ter seu
corpo fundido ao metal, o bloco resultante produziu lâminas de barbear com a
resistência e a maleabilidade perfeitas que ele buscou durante toda a sua vida.
02
– Como a diretoria da usina reagiu inicialmente ao acidente fatal e o que a fez
mudar de ideia em relação ao destino do metal solidificado?
Inicialmente, a
diretoria pensou em dar uma sepultura cristã ao enorme bloco de metal em que o
corpo do engenheiro se fundira. No entanto, prevaleceu a lógica industrial de
que "numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo". Dessa
forma, a diretoria decidiu transformar o cadáver de metal em lâminas de
barbear, descobrindo logo em seguida que o aço havia adquirido qualidades
excepcionais.
03
– Quais foram as etapas de tentativas da diretoria para reproduzir a liga de
aço perfeita após o acidente do engenheiro Fulano?
A diretoria realizou
três tentativas principais:
Mistura de objetos:
Misturaram no aço líquido os mesmos pertences que o engenheiro carregava nos
bolsos no dia da morte (terno, chaves, documentos, balas de hortelã, lenço e
dinheiro).
Uso de um cadáver: Jogaram
na forja o corpo de um cadáver fresco comprado na Faculdade de Medicina,
vestido com as mesmas roupas do engenheiro.
Uso de uma pessoa viva:
Lançaram na forja um operário vivo (disfarçando a ação como um acidente) para
verificar se o "sangue borbulhante e as células vivas" seriam o fator
determinante.
04
– Como a ganância da diretoria é evidenciada no episódio envolvendo o
"velho operário"?
A ganância e a
falta de ética da diretoria atingem o ápice quando decidem sacrificar um ser
humano vivo para tentar obter a fórmula do aço perfeito. Eles presenteiam um
dos operários mais antigos e respeitados com um terno de sarja azul e, em
seguida, simulam um acidente jogando-o na forja. A frieza com que tratam a vida
humana em prol do lucro e do mercado internacional evidencia a desumanização
promovida pelo poder econômico no conto.
05
– Apesar do sacrifício do operário, a qualidade do aço não melhorou. O que
impediu que a tragédia se tornasse um prejuízo financeiro para a usina?
O estouro de uma
nova guerra mundial fez com que a demanda e o preço do aço subissem
vertiginosamente. Com a necessidade urgente de aumentar a produção
armamentista, a qualidade do metal deixou de ser prioridade para o mercado.
Assim, a usina aproveitou o bloco de aço contendo o corpo do operário e o
transformou em chapas blindadas para tanques de guerra, garantindo o lucro
independentemente do fracasso do experimento.
06
– Qual é o significado do título "A morte lucrativa" no
contexto da narrativa?
O título sintetiza
a crítica central do conto à mercantilização da vida humana no sistema
industrial e de guerra. A morte do engenheiro abriu a perspectiva de lucros
astronômicos com uma nova tecnologia; e mesmo a morte do operário, que falhou
em replicar a fórmula, acabou sendo monetizada pela indústria bélica durante a
guerra. A morte, portanto, deixa de ser uma tragédia humana e passa a ser vista
apenas como uma oportunidade de ganho financeiro.
07
– Análise o papel do narrador na frase final do conto: "É uma pena, pois é
um problema que me interessa bastante...". O que essa declaração sugere
sobre ele?
A frase final
revela o tom de ironia macabra e o distanciamento moral do narrador. Ao
lamentar que as pesquisas foram interrompidas pela guerra, o narrador demonstra
estar mais interessado na resolução do "enigma científico/industrial"
do que horrorizado com os homicídios e o desprezo pela vida humana cometidos
pela diretoria. Isso sugere que o narrador compartilha da mesma mentalidade
fria, utilitarista e insensível que domina a usina siderúrgica.
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