domingo, 23 de agosto de 2026

CONTO: A MORTE LUCRATIVA - VALÊNCIO XAVIER - COM GABARITO

 Conto: A morte lucrativa

          Valêncio Xavier

        O engenheiro, vamos chama-lo de Fulano, trabalha na usina siderúrgica de... Dedicara sua vida – sem resultado – para obter uma liga de aço que fosse bastante forte e ao mesmo tempo flexível com o borracha. Já era velho e não enxergava direito. Um dia, quando inspecionava o aço líquido que escorria nos caninhos de fundição, tropeçou e caiu dentro da massa incandescente. Foi um corre-corre, mas nada pôde ser feito, o acidente foi fatal e seu corpo derretera-se fundindo com o aço.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8Thyphenhyphenu8QRCX63WsJPnR4doCFWWYEhCSGiU7QKv0AJTA0X57pknBoGbths0yoHC6ZBOqTCEGotvRsIXs2G7k_rf_wRZMCHqwqE8ZXP3V0SBI4YUbWWh2XojEP45M7rrJztkzRokvcCqpXQAGZvOOdwAS9F_lJ8Vtmw-YCBZtc6I3uncDbIGG4pcbvcYPHY/s320/images.jpg


        Sua morte foi muito sentida, a diretoria da usina pensou em dar sepultura cristã ao enorme bloco de metal já solidificado, mas numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo e o cadáver foi transformado em lâminas de barbear. O espantoso foi que, quando submetidas aos testes, provaram ter uma resistência incrível: capazes de receber o mais forte impacto e ao mesmo tempo maleáveis a ponto de uma criança poder dobrá-las sem que se quebrassem. O que o engenheiro Fulano buscara durante sua vida conseguira com sua morte.

        A diretoria, ao saber do resultado dos testes, reuniu-se para discutir a fabricação do novo tipo de aço. Seria a glória financeira, poderia entrar no mercado internacional, concorrendo com as grandes siderúrgicas do mundo. A reunião principiou com animadas conversas sobre as modificações a fazer para aumento das instalações, o lucro futuro, a revolta dos concorrentes.

        No meio daquela exaltação um dos diretores pediu a palavra e explicou: “Embora tentasse há muitos anos, o engenheiro Fulano nunca conseguiu um aço tão perfeito. Se isto agora aconteceu, não foi na maneira de temperar o metal, mas por alguma coisa que ele trazia no bolso, que se juntou ao aço candente, apurando-o”.

        Essas palavras caíram como água fria na fervura, mas os outros diretores foram obrigados a reconhecer que eram certas. Um deles, então, sugeriu: “Se isto é verdade, vamos tratar de descobrir o que o engenheiro Fulano trazia na hora do triste acidente”.

        Puseram-se em ação. Procuraram a viúva do infeliz e, após os rodeios de praxe, indagaram sobre o conteúdo dos bolsos do marido no dia fatídico: “Fácil”, disse ela. “Eu mesma arrumava suas coisas. Naquele dia, lembro-me bem, coloquei nos bolsos de seu terno de sarja azul as chaves da casa, sua carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã (o falecido gostava tanto!), um lenço de cambraia, uma nota de 200 e uma de 20 reais. Deve ter gastado 10 de ônibus, teria então 210 reais quando morreu”.

        No dia seguinte, os técnicos da usina receberam ordem para misturar na têmpera do aço um terno de sarja azul, duas chaves, uma carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã, um lenço de cambraia e 210 reais. Os técnicos estranharam, mas numa grande indústria as ordens de cima devem ser sempre obedecidas e a extravagante mistura foi posta nos cadinhos de fundição. O aço assim produzido foi testado, mas sua qualidade provou ser a mesma ou pior que as anteriores.

        Reunião da diretoria para examinar o fracasso da experiência. Uns explicavam o malogro pela má qualidade das balas usadas, outros achavam que o lenço devia ser de cambraia estrangeira. As coisas estavam nesse pé, até um dos diretores sugerir: “Quem sabe não foi nada disso que apurou a liga, e sim o corpo do engenheiro Fulano, seus ossos, sua carne, seu sangue?”. Alguns dos diretores mostraram-se horrorizados com essa ideia, mas como ela foi muito bem explanada – e como as ideias bem explanadas devem ser sempre aceitas – resolveram pô-la em prática.

        Um cadáver fresco foi comprado na Faculdade de Medicina e vestido da mesma maneira do engenheiro Fulano. Numa tarde mandou-se sair os operários da usina e o defunto foi atirado na forja. A diretoria esperou ansiosa o resultado dos testes. Nova desilusão: o mesmo aço de sempre, a mesma qualidade, a eterna luta para coloca-lo no mercado. Nova reunião. Creio que todos sabiam o que iria ser sugerido, mas ninguém tinha coragem de dizer, por isso, o início da reunião foi bem desagradável. Longos períodos de silêncio seguiam as palavras dos participantes. Finalmente alguém mais corajoso tomou a palavra: “Concordamos que a ótima qualidade da liga foi conseguida graças ao corpo do engenheiro Fulano. Repetimos o acidente, porém o engenheiro estava vivo quando caiu na forja, mas nós usamos um cadáver. Quem sabe se nosso erro foi esse? Talvez o sangue borbulhante e as células exerceram alguma influência na têmpera. Proponho nova experiência, desta vez com um ser humano vivo!”.

        Longo como a eternidade foi o silêncio que seguiu essas palavras. Não sei o que ficou resolvido; sei que, alguns dias depois, um operário – por sinal um dos mais antigos e respeitados da usina, tanto é que naquele mesmo dia havia sido presenteado pela direção com um belo terno de sarja azul – caiu dentro da forja, morrendo instantaneamente. Este triste acidente não melhorou a qualidade do aço. A diretoria , como no caso do engenheiro, pensou em fazer os funerais do bloco de aço; contudo, naqueles dias estourou mais uma guerra mundial. Aumentou a procura do aço e seu preço subiu vertiginosamente; tornou-se necessário aumentar a produção e o velho operário foi transformado em chapas blindadas para tanques. Como a guerra continua e todo aço produzido é necessário, não importa sua qualidade, ignoro em que pé estão as pesquisas da usina para melhorar a produção. É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...

Valêncio Xavier. In: Geração linguagem. São Paulo: Sesc e Lazuli, 2004.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 115-116.

Entendendo o conto:  

01 – Qual era o grande objetivo profissional do engenheiro Fulano em vida e de que forma ele acabou, ironicamente, alcançando esse resultado?

      O objetivo de vida do engenheiro Fulano era obter uma liga de aço que fosse extremamente forte e, ao mesmo tempo, flexível como borracha. Ironicamente, ele só alcançou esse resultado após a sua morte: por ter a visão prejudicada devido à idade, ele tropeçou e caiu na massa incandescente de aço líquido da usina. Ao ter seu corpo fundido ao metal, o bloco resultante produziu lâminas de barbear com a resistência e a maleabilidade perfeitas que ele buscou durante toda a sua vida.

02 – Como a diretoria da usina reagiu inicialmente ao acidente fatal e o que a fez mudar de ideia em relação ao destino do metal solidificado?

      Inicialmente, a diretoria pensou em dar uma sepultura cristã ao enorme bloco de metal em que o corpo do engenheiro se fundira. No entanto, prevaleceu a lógica industrial de que "numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo". Dessa forma, a diretoria decidiu transformar o cadáver de metal em lâminas de barbear, descobrindo logo em seguida que o aço havia adquirido qualidades excepcionais.

03 – Quais foram as etapas de tentativas da diretoria para reproduzir a liga de aço perfeita após o acidente do engenheiro Fulano?

      A diretoria realizou três tentativas principais:

      Mistura de objetos: Misturaram no aço líquido os mesmos pertences que o engenheiro carregava nos bolsos no dia da morte (terno, chaves, documentos, balas de hortelã, lenço e dinheiro).

      Uso de um cadáver: Jogaram na forja o corpo de um cadáver fresco comprado na Faculdade de Medicina, vestido com as mesmas roupas do engenheiro.

      Uso de uma pessoa viva: Lançaram na forja um operário vivo (disfarçando a ação como um acidente) para verificar se o "sangue borbulhante e as células vivas" seriam o fator determinante.

04 – Como a ganância da diretoria é evidenciada no episódio envolvendo o "velho operário"?

      A ganância e a falta de ética da diretoria atingem o ápice quando decidem sacrificar um ser humano vivo para tentar obter a fórmula do aço perfeito. Eles presenteiam um dos operários mais antigos e respeitados com um terno de sarja azul e, em seguida, simulam um acidente jogando-o na forja. A frieza com que tratam a vida humana em prol do lucro e do mercado internacional evidencia a desumanização promovida pelo poder econômico no conto.

05 – Apesar do sacrifício do operário, a qualidade do aço não melhorou. O que impediu que a tragédia se tornasse um prejuízo financeiro para a usina?

      O estouro de uma nova guerra mundial fez com que a demanda e o preço do aço subissem vertiginosamente. Com a necessidade urgente de aumentar a produção armamentista, a qualidade do metal deixou de ser prioridade para o mercado. Assim, a usina aproveitou o bloco de aço contendo o corpo do operário e o transformou em chapas blindadas para tanques de guerra, garantindo o lucro independentemente do fracasso do experimento.

06 – Qual é o significado do título "A morte lucrativa" no contexto da narrativa?

      O título sintetiza a crítica central do conto à mercantilização da vida humana no sistema industrial e de guerra. A morte do engenheiro abriu a perspectiva de lucros astronômicos com uma nova tecnologia; e mesmo a morte do operário, que falhou em replicar a fórmula, acabou sendo monetizada pela indústria bélica durante a guerra. A morte, portanto, deixa de ser uma tragédia humana e passa a ser vista apenas como uma oportunidade de ganho financeiro.

07 – Análise o papel do narrador na frase final do conto: "É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...". O que essa declaração sugere sobre ele?

      A frase final revela o tom de ironia macabra e o distanciamento moral do narrador. Ao lamentar que as pesquisas foram interrompidas pela guerra, o narrador demonstra estar mais interessado na resolução do "enigma científico/industrial" do que horrorizado com os homicídios e o desprezo pela vida humana cometidos pela diretoria. Isso sugere que o narrador compartilha da mesma mentalidade fria, utilitarista e insensível que domina a usina siderúrgica.

 

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