Crônica: A lógica do maluco
Lima Barreto
Estes
malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de
Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o
meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do
doente – o que farei sem nenhuma discrepância.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlf6iFS6ScvVksA7Ry9450NqHDBYg0GANK56G8KL6jc3AZ0L0PXvdoG9ixpAXLaAhMkUk4zHI18ORhxoWwELvdT5WnbJyM1uIEoLOqg7gnsCKGrwIEZx0LoKnQU0v7D_TwNHtpwDBH9tLUeVsmKxBD6f8pi7BuIKLj1754A7boUPTH_CFb_LoLEg6ZJcw/s320/images.jpg Havia
na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o
era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos
notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era
um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória,
Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista
ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira
vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia
criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do
Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto,
efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as
sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga,
já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as
pressas...
A
denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba,
porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes
beletristas goianos que nela têm assento.
O
doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia
capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à
Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o
hospital da Praia das Saudades.
Entregue
aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência
de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele
gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda
obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a
olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro.
Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa
coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora
própria.
O
doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O
doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências
veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de
capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como
tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao
lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
–
Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
–
Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
–
É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio
de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória;
e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
–
Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
–
Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do
doutor Juliano.
–
Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
–
Como?
–
Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você
pode exercer um cargo público?
–
Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares,
são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
–
Mas, você...
–
Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor,
louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
Tanto
insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O
doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que
o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com
calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
–
Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de
um qualquer notável consultor jurídico.
Careta, Rio, 8-10-1921.
Entendendo a crônica:
01 – O que torna o doente internado no Hospital
Nacional de Alienados uma figura atípica entre os demais pacientes, segundo a
narrativa?
O doente destaca-se não pela gravidade ou estranheza de sua
enfermidade mental — descrita como uma mania simples —, mas pelo seu nível de
instrução, boa educação e cultura. Ele era bacharel (embora preferisse o título
de "capitão") e pertencia à Academia de Letras da Vitória, no
Espírito Santo, na condição de "membro extraordinário" ou "de
fora".
02 – Como Lima Barreto ironiza a instituição da
vaga de "membro extraordinário" na Academia de Letras da Vitória?
Embora brinque com o fato de o título lembrar "coisas de
bebês e cueiros", o cronista elogia satiricamente o mecanismo. Ele
argumenta que a existência de uma fila de espera predefinida traz efeitos
práticos positivos ao ambiente político-literário, pois evita arranjos de
última hora, campanhas de promoção pessoal ("mandar organizar um livro às
pressas") e as habituais baixezas das eleições acadêmicas.
03 – Qual foi o gatilho desencadeador da
loucura do internado e como o médico buscou tratar o problema do paciente?
O rapaz enlouqueceu ao ler a obra Comentários à Constituição,
do jurista Carlos Maximiliano. Para atenuar o quadro, o médico Dr. Gotuzzo
recolheu o texto de Maximiliano e o substituiu pela obra do jurista João
Barbalho, o que gerou uma melhora expressiva no estado mental do paciente.
04 – Qual era a solicitação do interno ao Dr.
Gotuzzo e de que maneira o médico tentou demovê-lo da ideia?
O paciente solicitou permissão para conversar pessoalmente
com o diretor do hospital, Dr. Juliano Moreira, a fim de conseguir autorização
para buscar um emprego público por meio de sua influência com o senador
Marcílio de Lacerda. O Dr. Gotuzzo argumentou contra a ideia lembrando que ele
era um doente sob interdição judicial formal movida por sua família, o que o
impossibilitaria legalmente de assumir tais funções.
05 – Qual foi o raciocínio dedutivo empregado
pelo paciente para defender seu direito de ingressar no funcionalismo público?
O paciente construiu um silogismo baseado no texto constitucional:
argumentou que, segundo a Magna Carta, "os cargos públicos civis ou
militares são acessíveis a todos os brasileiros"; sendo ele brasileiro,
teria direito ao cargo. Ao ser lembrado de sua condição de interditado,
equiparou sua situação jurídica à de outros grupos incapacitados civilmente
(como mulheres e menores), pontuando que, se estes já ocupavam posições
públicas, ele também poderia.
06 – Como o psiquiatra Juliano Moreira reagiu
ao pedido do doente e qual foi a solução elegante adotada por ele?
O Dr. Juliano
Moreira acolheu o interno com calmaria, doçura e escuta atenta. Para contornar
a insistência do paciente sem contrariar frontalmente sua lógica ou desencadear
um surto, respondeu que não poderia conceder a licença de imediato porque
precisaria antes consultar o parecer técnico de um "notável consultor
jurídico".
07 – De que modo a crônica expõe a contradição
do arcabouço jurídico e das regras institucionais brasileiras do período?
Lima Barreto usa a pretensa "loucura" do
protagonista para expor incoerências do Direito e da burocracia do país. A
capacidade do paciente de articular a Constituição com rigor lógico demonstra
que a aplicação das leis na sociedade muitas vezes carece de coerência real:
regras formais excluem sujeitos plenos enquanto interpretações casuísticas
abrem brechas institucionais, tornando a fronteira entre a razão jurídica e o
delírio extremamente tênue.
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