Poesia: Descobrimento
Mário de Andrade
Abancado à escrivaninha em São
Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.
ANDRADE, Mário de. Poesias completas. 3. ed. São Paulo: Martins Editora
& Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 150.
Fonte: livro Português:
Língua e Cultura – Carlos Alberto Faraco – vol. único – Ensino Médio – 1ª
edição – Base Editora – Curitiba, 2003. p. 490.
Entendendo a poesia:
01
– Qual é o sentimento predominante no poema?
O poema expressa
um sentimento de melancolia e distanciamento. O eu lírico, em São Paulo, sente
um "friúme por dentro" ao se lembrar de um homem brasileiro no Norte
do país, distante de sua realidade.
02
– Que contraste é estabelecido no poema?
O poema contrasta
a vida do eu lírico em São Paulo, na "rua Lopes Chaves", com a vida
de um trabalhador no Norte do Brasil. Enquanto o primeiro está "abancado à
escrivaninha", o segundo, após um dia de trabalho árduo com borracha,
"faz pouco se deitou, está dormindo".
03
– Qual é a importância do homem do Norte no poema?
O homem do Norte representa
a figura do brasileiro anônimo, trabalhador e distante dos centros urbanos. Sua
presença no poema serve para despertar no eu lírico um sentimento de conexão e
identificação, apesar da distância física e social.
04
– Como o poema aborda a questão da identidade nacional?
Ao se referir ao
homem do Norte como "brasileiro que nem eu", o poema levanta a
questão da identidade nacional para além das diferenças regionais e sociais. O
eu lírico reconhece no trabalhador do Norte um compatriota, um igual, com quem
compartilha uma identidade brasileira comum.
05
– Qual é a linguagem utilizada no poema?
A linguagem do
poema é simples e direta, com versos livres e tom coloquial. Mário de Andrade
utiliza expressões como "livro palerma" e "de supetão" para
criar uma atmosfera de intimidade e proximidade com o leitor.
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