sexta-feira, 2 de março de 2018

CAUSO: FILHOTE NÃO VOA - ROLANDO BOLDRIN - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

CAUSO -   FILHOTE NÃO VOA


   Existe por aí afora muito caboclinho esperto e safado. Imaginem que lá pras bandas do Corgo Fundo tinha um que era tal e qual do jeito que estou falando.
     Pois não é que o dito cujo deu de roubar coisas da igreja de lá? E virava e mexia, o padre saía excomungando o tal, pois não conseguia pegá-lo com a boca na botija, ou melhor, com a mão na mercadoria roubada. 

     E vai daqui e vai dali, continuava sumindo coisa. Ora uma imagem, ora dinheiro dos cofrinhos... Enfim: um despropósito de coragem pra furto.
     Mas – sempre tem um mas – eis que o padre resolve botar um paradeiro na roubança. Arma-se de um trabuco carregado e posta-se às escondidas no escuro da igreja em altas horas e ali espera, atocaiado, pelo ladrãozinho que não deveria demorar para aparecer. Devia ser umas 3 da madrugada quando o padre se depara com um vulto esperto na escuridão. Engatilha o trabuco e aponta no rumo do vulto que, percebendo, se esconde com a carinha de safado por detrás de uma estátua grande de um anjo de asas...
     Padre (falando alto) Quem está aí?
     Ninguém, é claro, responde.
     Padre (mais alto) Quem está aí?
     Ninguém responde.
     Padre (apontando a arma engatilhada) Pois bem. Pela última vez,
vou perguntar: quem está aí? Se não responder, vou pregar fogo.
     A voz (trêmula e disfarçada) É.. é...um anjo, seu vigário. Eu sô um
Anjo...
     Padre (percebendo a malandragem) Que anjo o quê, seu idiota! Voa
Já daí!
     A Voz (caipiresca) Num posso avuá, seu vigário. Eu sô fióti!
     Conta-se que o padre, depois dessa resposta, resolveu ir dormir.

                                BOLDRIN, Rolando. Brasil Almanaque de Cultura Popular, n. 75, jun. 2005.

  1 -   Em seu caderno, explique o significado dos seguintes trechos:
         a)    “Enfim: um despropósito de coragem pra furto”.
             Uma enorme coragem, ousadia para roubar.

         b)    “Mas – sempre tem um mas [...]”.
           Sempre há um entrave, uma contrariedade.

  2 -   No causo, o narrador não descreve fisicamente a personagem que realiza os roubos na igreja, mas faz referência a ela de outras maneira. Em seu caderno, transcreva todas as expressões que fazem uma descrição dessa personagem.
     “Caboclinho esperto e safado”; “um despropósito de coragem pra furto”; “Ladrãozinho”; “Vulto esperto”.

  3 -   O fato de o padre identificar a personagem que roubava pela voz tem uma intenção. Qual?
     O fato de não revelar a identidade de quem furta o causo mais misterioso; é como se o autor reforçasse o mistério de quem era o ladrão. Até o leitor fica sem essa resposta.

4 -   Se o padre continuasse insistindo até descobrir quem é a pessoa, o causo perderia a graça? Por quê?
     Sim. Porque a graça está justamente no fato de a identidade não ser revelada e de o conto ser encerrado com o padre indo dormir. Se o padre insistisse, a piada se estenderia e perderia o seu propósito.

5 - É possível afirmar que o texto apresenta marcas de uma variedade linguística específica?
     Ao empregar os termos "Corpo Fundo", "trabuco", "atocaiado", "Num posso avuá, seu vigário. Eu sô fióti!", e a própria forma como o conto é conduzido, remete a linguagem oral do povo do interior, caipiresca, portanto o texto apresenta marcas de uma variedade linguística específica, a linguagem oral.

INTRODUÇÃO
  Existe por aí afora muito caboclinho esperto e safado. Imaginem que lá pras bandas do Corgo Fundo tinha um que era tal e qual do jeito que estou falando.

CONFLITO
   Pois não é que o dito cujo deu de roubar coisas da igreja de lá? E virava e mexia, o padre saía excomungando o tal, pois não conseguia pegá-lo com a boca na botija, ou melhor, com a mão na mercadoria roubada. E vai daqui e vai dali, continuava sumindo coisa. Ora uma imagem, ora dinheiro dos cofrinhos... Enfim: um despropósito de coragem pra furto.

CLÍMAX
      Mas – sempre tem um mas – eis que o padre resolve botar um paradeiro na roubança.

SOLUÇÃO DO CONFLITO

Arma-se de um trabuco carregado e posta-se às escondidas no escuro da igreja em altas horas e ali espera, atocaiado, pelo ladrãozinho que não deveria demorar para aparecer. Devia ser umas 3 da madrugada quando o padre se depara com um vulto esperto na escuridão. Engatilha o trabuco e aponta no rumo do vulto que, percebendo, se esconde com a carinha de safado por detrás de uma estátua grande de um anjo de asas...
     Padre (falando alto) Quem está aí?
     Ninguém, é claro, responde.
     Padre (mais alto) Quem está aí?
     Ninguém responde.
     Padre (apontando a arma engatilhada) Pois bem. Pela última vez,
vou perguntar: quem está aí? Se não responder, vou pregar fogo.

DESFECHO
    A voz (trêmula e disfarçada) É.. é...um anjo, seu vigário. Eu sô um
Anjo...
     Padre (percebendo a malandragem) Que anjo o quê, seu idiota! Voa
Já daí!
     A Voz (caipiresca) Num posso avuá, seu vigário. Eu sô fióti!
     Conta-se que o padre, depois dessa resposta, resolveu ir dormir.

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