quarta-feira, 26 de agosto de 2026

CRÔNICA: A GRATIDÃO DO ASSÍRIO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A GRATIDÃO DO ASSÍRIO

           Lima Barreto 

 

        Meu caro senhor Assírio, eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a vida.

        Nós nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com água na boca. Este não tardou em responder:

        – Estou, meu caro senhor; estou, imagine que não há dia em que não me veja abarbado com um banquete.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8rdhEnHGdqMu0LZouagihIvIeBnBUmD7tDrEvCmdaxUPjfyOeQgH-QsTuxJ-MltFJZhoZctRQcaN6m3VN-MNH4ivw7IX7J-gYoadK16qBAcFZkQ7Pa9MM_SalffSCEL9nsKMDBy7zJdn5ZO4kv1P0evRZGgUQ4rML7ayQUwm5_ruJM22hgm3aOM6AZ3Y/s320/images.jpg


        – É assim?

        – Pois não, meu digno senhor. Um poeta publica um livro e logo encomendam-me um banquete com todos os “ff’ e rr; os jornais publicam a lista dos convidados, ao dia se­guinte, e o meu nome se espalha por este país todo. Se acontece alguém escrever uma crônica feliz, zás, banquete, retrato e nome nos jornais. Se, por acaso...

        – Notamos, interrompi eu, que nas suas festanças não há mulheres.

        – Já observei isto aos dilettanti de banquetes e, até, lhes ofereci organizar um quadro de convidadas.

        – Que eles disseram?

        – Penso que eles não querem rivalidades femininas. Já as têm em bom número masculinas.

        – E as flores?

        – Com isso não me preocupo, porque, às vezes, elas me servem para meia dúzia de banquetes. Os rapazes não re­param nisso.

        – E as iguarias?

        – Oh! Isso? Também não vale nada. Basta uns nomes arrevesados, para que os nossos Lúculos comam gato por lebre.

        Mas a minha maior gratidão é...

        – Por quem?

        – Pela Secretaria do Exterior. Um cidadão é promovido de segundo secretário a primeiro, banquete; um outro passa de amanuense a segundo secretário, banquete... Herança do Rio Branco!... Outro dia, como o Serapião passasse de servente a contínuo, logo lhe ofereceram um banquete.

        – Os serventes?

        – Não; todos os empregados. Que gente boa, meu caro senhor.

Deixamos o senhor Assírio cheio de uma terna beatitude agradecida por tão bela gente que se banqueteia.

Careta, Rio, 11-9-1915.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é a figura do "senhor Assírio" personificada por Lima Barreto na crônica e por que ele se declara satisfeito com a vida?

      O "senhor Assírio" é a personificação do famoso restaurante O Assírio, localizado no subsolo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele se declara satisfeito por estar constantemente "abarbado com banquetes", faturando com os frequentes eventos e celebrações da elite intelectual e burocrática carioca.

 

02 – Que crítica Lima Barreto faz à vaidade dos intelectuais e escritores da época em relação aos banquetes promovidos?

      O autor ironiza a busca por visibilidade e status social. Os intelectuais organizavam banquetes por qualquer motivo pequeno (o lançamento de um livro ou uma crônica bem escrita) com o objetivo principal de ter seus nomes e fotos divulgados nos jornais no dia seguinte.

 

03 – Como o senhor Assírio revela a falta de sofisticação e o engano do público refinado (os "Lúculos") em relação à comida e às flores do restaurante?

      Ele conta que reutiliza as mesmas flores em até meia dúzia de banquetes sem que os clientes percebam. Além disso, afirma que a qualidade da comida não importa, pois basta dar "nomes arrevesados" (em francês ou sofisticados) aos pratos para que os convidados "comam gato por lebre" achando que estão desfrutando de alta gastronomia.

 

04 – Por que a maior "gratidão" do senhor Assírio é direcionada à Secretaria do Exterior?

      Porque o órgão mantinha o hábito costumeiro de encomendar banquetes por qualquer alteração mínima na carreira de seus funcionários — desde a promoção de diplomatas até a mudança de cargo de um servente para contínuo —, gerando um fluxo garantido de renda para o estabelecimento.

 

05 – Qual o principal recurso expressivo utilizado por Lima Barreto para construir a crítica social nesta crônica?

      O principal recurso é a ironia através da personificação. Ao dar voz ao próprio restaurante e fazê-lo confessar com naturalidade como explora a vaidade, a futilidade e o gosto pelo diletantismo da elite carioca, Lima Barreto expõe o vazio e a superficialidade das aparências sociais de sua época.

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

PEÇA TEATRAL: PEDREIRA DAS ALMAS . O TELESCÓPIO (FRAGMENTO) - JORGE ANDRADE - COM GABARITO

 PEÇA TEATRAL: Pedreira das almas. O telescópio (Fragmento)

 

(Bié entra, vindo da cozinha; está sujo, com a roupa rasgada e o cabelo despenteado.)

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWPtrYTZdlGOnuOabBA5t2nlTv6EHCQe4TQxaQGpLMH5qlcqJZ_eZ6sclIfivk7nkDHegjT5KIsciRGZBQJlueESw_u_Ekf3WNqLfTKukha9qYaZDLXY6jb3_Ic7LPlfBXtsewFDBq-sKzCbQPo5zo58Dlk_3_1jH8S_FxKtKsvP5b1jI5prpzuky3Zag/s320/images.jpg 

FRANCISCO:  Ninguém vai carregar meus móveis!

RITA:  Ora, Francisco!

BIÉ:  Pai! O Argemiro tá querendo batê uma prosa com o senhor.

FRANCISCO:  Quantas vezes já disse para não falar assim?! Parece que tem prazer em ser atrasado. (Quase gritando.) Onde está o Argemiro?

BIÉ:  Deixei ele no curral.

 

(Francisco prepara-se para sair. Rita vai para a cozinha.)

 

FRANCISCO:  (A Bié.) Pegue a winchester e dê um jeito nos sanhaços. Estão acabando com as jabuticabas. (Raivoso.) Nunca vi passarinho mais daninho.

BIÉ:  Num dianta. Esses sanhaços sabe falá até franceis. Nunca vi tão veiacos.

FRANCISCO:  (Corrigindo.) Velhacos! Leve assim mesmo. Será sua obrigação de hoje em diante. Mas não quero que mate. Só para espantar. (Sai.)

BIÉ:  Dá na mesma, né Leila? Veiacos ou velhacos, eles estraga do mesmo jeito.

LEILA:  Adoro fazenda! (Subitamente.) Ainda existem as matas da "Vista Alegre"?

BIÉ:  (Surpreso.) Por que não havera de existir? Lá, ninguém põe a mão.

LEILA:  Assim que puder, vou ver a "Vista Alegre". Sempre achei o lugar mais bonito da fazenda. Tão repousante!

BIÉ:  Meus magrelo também gosta muito. É onde quero morá.

LEILA:  (Surpresa.) Na "Vista Alegre"?!

BIÉ:  É. Faço meu rancho no meio da mata e quero caçá até rachá o cano da espingarda.

LEILA:  (Mordaz.) Também, você não faz outra coisa: caçar, não é?

BIÉ:  Qualé o meu!

LEILA:  (Amável.) Não tem mau gosto. Acho a caça excitante, viril! (Olhando a cabeça de cervo pendurada na parede.) Nunca pude compreender como vovô conseguiu matar esse animal! Só de pensar em enfrentar um bicho desses ... me arrepio toda!

BIÉ:  Vovô era macho sacudido! Pegava a unha se era preciso!

LEILA:  Como você?!

BIÉ:  (Sorri.) Tar qual!

LEILA:  (Pequena pausa.) Bem! Se a "Vista Alegre" for minha, poderá caçar à vontade.
BIÉ:  (Lentamente, depois de passar a mão na cabeça do cervo.) Éééé! Mais num vai sê!
LEILA:  (Subitamente.) Quer me acompanhar? Tenho medo dos cachorros.
BIÉ:  (Sorri satisfeito.) Ah! meus magrelo são mordedô memo. (Bié sai pelo corredor. Leila vai ao espelho do cabide e se arruma. Bié volta com uma winchester.)

  ANDRADE, Jorge.  Pedreira das almas.  O telescópio.


Entendendo o texto

 

01. No trecho "Num dianta. Esses sanhaços sabe falá até franceis. Nunca vi tão veiacos.", a variedade linguística empregada por Bié caracteriza:

a. A linguagem formal utilizada por pessoas com alto grau de escolaridade.

b. Uma variedade linguística regional e popular, típica do meio rural.

c. O uso exclusivo de gírias modernas urbanas.

d. Um vício de linguagem que impede a compreensão da mensagem pelos outros interlocutores.

02. A reação do pai, Francisco, ao modo de falar de Bié ("Quantas vezes já disse para não falar assim?! Parece que tem prazer em ser atrasado.") demonstra:

a. Uma atitude de preconceito linguístico, associando o falar caipira ao atraso cultural.

b. Orgulho das raízes caipiras e do vocabulário da fazenda.

c. Indiferença em relação à forma como o filho se expressa.

d. Entusiasmo em ensinar línguas estrangeiras, como o francês, na fazenda.

03. Sobre os planos de Bié para as matas da "Vista Alegre", a personagem Leila demonstra:

a. Raiva intensa, proibindo Bié de frequentar as terras.

b. Uma postura de deboche e ironia que depois se transforma em simpatia e vaidade.

c. Medo de caminhar pela fazenda por causa dos pássaros sanhaços.

d. Desejo imediato de vender toda a fazenda e morar na cidade.

04. A palavra "winchester", citada nas rubricas e nos diálogos do texto, refere-se a:

a. Um modelo de espingarda/rifle utilizado para caça e proteção.

b. Um tipo de ferramenta para limpar o curral.

c. Uma raça específica de cão de caça da fazenda.

d. Um chapéu tradicional usado pelos fazendeiros locais.

Resposta correta: A) Um modelo de espingarda/rifle utilizado para caça e proteção.

05. A fala de Bié "Éééé! Mais num vai sê!", dita em resposta à afirmação de Leila sobre a posse da "Vista Alegre", sugere que:

a. Leila tem certeza absoluta de que herdará a propriedade.

b. Há uma disputa, dúvida ou descrença sobre quem herdará ou ficará com a fazenda.

c. O local "Vista Alegre" já foi vendido para terceiros.

d. Francisco já assinou a doação das terras exclusivamente para Leila.

 



POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - III - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – III – Fragmento

           Vinícius de Moraes

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4XofF36UUBztJArGKbnAihabjrFm5eRe73fTkmgbHfVHlvfHj70-bC6W2U9G2aSBWziABg3s_Pe55TfJcBA9JYS5iV9hnxedUBLzNPOxnxXKG5TV0k5hw4T_2n5TE21mG5AOGZZzkZx4S1RLxBhcz6aaBDnVa9n26pDE8teIjqR3sJ_Kfly-mywLR0s8/s320/images.jpg


Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento III, o eu lírico faz uma clara alusão aos eventos narrados no livro do Gênesis. De que maneira ele avalia a decisão divina de criar a humanidade no Sexto Dia e qual subversão do texto sagrado ocorre nessa crítica?

      O eu lírico avalia a criação do homem e da mulher de forma francamente negativa, afirmando que "o homem não era necessário" e que seria melhor se Deus tivesse descansado antes de criá-los. A subversão da narrativa bíblica reside no fato de que, no Gênesis, a criação do ser humano é apresentada como o ápice perfeito da obra divina; no poema, porém, essa mesma ação é vista como um erro ou um impulso injustificado ("porque o Senhor cismou em não descansar"). O tom solene do texto religioso é desconstruído para apresentar a criação humana como a origem de todo o sofrimento e absurdo existencial.

02 – Ao se dirigir à figura feminina, o poema a define como "ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada". Como a mulher é caracterizada nesses versos e qual o seu papel na visão do eu lírico sobre a condição humana?

      A mulher é caracterizada por meio de uma metáfora que a conecta diretamente às forças primordiais e insaciáveis da natureza. Ao associá-la a um "ser vegetal" e detentora do "vórtice supremo da paixão", o eu lírico a coloca como o motor central dos desejos e da intensidade vital humana. Ela representa, ao mesmo tempo, o mistério insondável ("dona do abismo") e a atração irresistível que perpetua a existência da espécie humana, ligando o homem tanto à beleza natural quanto ao sofrimento das paixões inconselháveis.

03 – O eu lírico projeta como seria o planeta Terra caso o Criador não tivesse moldado o homem. Quais aspectos da natureza são enaltecidos nessa projeção e o que a ausência humana representaria para o mundo?

      Na ausência da humanidade, a natureza é descrita em um estado de "indizível beleza e harmonia", marcada pelo equilíbrio entre a flora, a fauna e os astros ("plano verde das terras e das águas em núpcias", "pureza maior do instinto"). A ausência humana representaria a preservação do mundo natural sem a violência da exploração (sem "degola dos animais e asfixia dos peixes") e sem o peso da dor moral. Sem o homem, o planeta seria um ecossistema puro, em que os seres vivos existiriam de acordo com seus instintos em uma paz perfeitamente integrada.

04 – O poema contrapõe o estado natural à existência em sociedade. Como a lista de obrigações e instituições civis/religiosas ("escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia") reforça a tese do poema sobre o fardo da vida moderna?

      A enumeração dessas instituições funciona como uma crítica à artificialidade da vida em sociedade. Cada um dos elementos citados representa uma amarra formal que disciplina, burocratiza ou pune o ser humano ao longo da vida (da infância com a escola até a morte com a missa de sétimo dia). Essa lista demonstra que o ato da criação divina não trouxe apenas a existência física ao homem, mas o condenou a uma estrutura social opressiva, em que a liberdade natural é sufocada por obrigações, dogmas e rotinas automáticas (como "rir sem vontade e até praticar amor sem vontade").

05 – Nos últimos versos do fragmento, o eu lírico sugere um motivo irônico para Deus ter criado o homem "à sua imagem e semelhança". Qual é esse motivo e como ele se conecta ao tema central de todo o poema?

      O motivo sugerido é que Deus criou o homem apenas "para não ficar com as vastas mãos abanando", impulsionado por um tédio criativo "porque era sábado". Essa justificativa humaniza e desmistifica a figura divina, reduzindo o ato da Criação a um mero passatempo de fim de semana. O desfecho consolida a ironia central de todo o poema: o sábado, tido como o dia das contradições e dos impulsos impensados na vida terrena, é projetado no próprio plano divino, sugerindo que a humanidade nasceu de um ato de tédio efêmero em um sábado cósmico.

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: O MITO DA CAVERNA - MARILENA CHAUI - COM GABARITO

 Artigo de opinião: O mito da Caverna

        Marilena Chaui

        Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semiobscuridade, enxergar o que se passa no interior. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgFD7HjdmemZTBzW0I8Dx6g6GpI3ySm6YYjCYwO74q1l0xTRzZbkhSYEByjqmZ5JqARlhiLqM9Sx94Ko1Os_pYkgdv9MQdTE9ldZ_6Ei-aY5HMFa6YwQrmUZJ-hTlouIiLddIRgbzGjV_jpRGGYQEfsiZp4u8B_nmRlZZmLM_jb1bHl59ae67hGiEqJa5A/s320/images.jpg


        A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. 

        Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam. 

        Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna. 

        Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria. 

        Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. 

        Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. 

        Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. 

Marilena Chaui. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1997, p. 40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 212-213.

Entendendo o artigo:

01 – No início do texto, Marilena Chaui descreve os prisioneiros e afirma que eles "imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas". Por que os prisioneiros tomam as sombras como a realidade absoluta e o que essas sombras representam no plano filosófico?

      Os prisioneiros tomam as sombras como a própria realidade porque, estando imobilizados desde a infância, jamais viram qualquer outra coisa ou fonte de luz diversa. A experiência sensitiva deles é limitada à parede do fundo da caverna. No plano filosófico, as sombras representam o conhecimento sensível (as aparências, as opiniões/doxa e os preconceitos) que as pessoas tomam como verdade indiscutível por falta de reflexão crítica e por estarem presas ao senso comum.

02 – Ao descrever a saída do prisioneiro libertado, o texto aponta que, em um primeiro momento, ele ficaria "inteiramente ofuscado" e "completamente cego". Como se explica esse ofuscamento no processo de busca pelo conhecimento verdadeiro?

      O ofuscamento e a dor física simbolizam a transição do senso comum para o conhecimento racional/filosófico. Abandonar certezas antigas e confrontar a verdade não é um processo simples ou imediato; gera desconforto, dúvida e resistência. A cegueira momentânea mostra que a mente humana precisa de tempo e esforço reflexivo para se habituar à luz da verdade (o mundo das ideias/realidade) após passar a vida inteira na obscuridade da ilusão.

03 – O texto estabelece uma gradação entre as sombras, as estatuetas e as "próprias coisas" no exterior. Explique a diferença entre ser espectador das sombras e contemplar a "própria realidade", segundo a narrativa.

      Ser espectador das sombras significa estar no nível mais baixo do conhecimento: ver apenas cópias imperfeitas de objetos que já são, por si sós, representações (as estatuetas). Já contemplar a "própria realidade" no exterior significa sair do domínio das imagens indiretas para alcançar as coisas em sua essência, sob a luz do Sol (que representa a Razão ou a ideia do Bem). É a passagem da ilusão mediada para a apreensão direta da verdade.

04 – Por que o prisioneiro libertado decide regressar à caverna em vez de permanecer no exterior desfrutando da realidade descoberta? Qual é o papel que ele assume ao retornar?

      O prisioneiro regressa por um compromisso ético e pedagógico com os seus antigos companheiros. Ele assume o papel do educador/filósofo, cuja função social não é guardar a verdade para si em um isolamento contemplativo, mas compartilhar o conhecimento, conscientizar os outros sobre a sua condição de alienação e guiá-los no caminho da libertação e do pensamento crítico.

05 – Marilena Chaui relata que, ao retornar, o libertador enfrenta zombarias, agressões e a ameaça de morte por parte dos demais prisioneiros. O que essa reação violenta revela sobre a postura da sociedade diante de novas verdades?

      Essa reação revela a resistência dogmática ao novo e a zona de conforto proporcionada pela ignorância. A maioria das pessoas tende a apegar-se às suas crenças habituais, reagindo com hostilidade, negação e violência contra aqueles que questionam suas certezas ou expõem suas iludidas estruturas de pensamento. Historicamente, essa passagem também faz alusão ao julgamento e à condenação à morte de Sócrates, que foi executado por perturbar as certezas da sociedade ateniense com seus questionamentos.

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - I - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O DIA DA CRIAÇÃO – I – Fragmento

           Vinícius de Moraes

     Macho e fêmea os criou.
     Bíblia: Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNq5IT9q-Acd0WTglZNSDbRChQvdhROTXddUY5pTM_b5VVBanAQPGn1mYI6evz4rLTNP9ZLYHx4iCcABugm3zSJmNSo8Q-mVV_l-M_YyxfeD2WoOCFrN6raHDYi35x4KiuMLIJW5K6Kj5HLKrEmcMAWQ2DPvSxu1gvWIxpQyhbujRqi0jJPPcUAicJyB8/s320/images.jpg 



Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – O poema traz como epígrafe o trecho "Macho e fêmea os criou" (Gênese 1, 27). Como essa citação da Bíblia dialoga com a última estrofe do fragmento lido, na qual o eu lírico descreve o comportamento de homens, namorados, maridos e mulheres?

      A epígrafe resgata o mito judaico-cristão da criação perfeita da humanidade por Deus. No entanto, o poema subverte essa perfeição ao contrastá-la com o cotidiano humano no sábado. Na última estrofe, a divisão em "macho e fêmea" ganha contornos de rotina, tédio e automatismo: homens "vazios" nos bares, maridos "funcionando regularmente" e mulheres em estado de permanente alerta. A intertextualidade expõe o contraste entre o ideal sagrado da criação divina e a realidade profana, mecânica e desencantada do mundo moderno.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Amanhã não gosta de ver ninguém bem / Hoje é que é o dia do presente". Qual é a visão de tempo apresentada nesses versos e como ela justifica a relevância do sábado?

      A visão de tempo apresentada é a do imediatismo (carpe diem). O eu lírico enxerga o futuro ("amanhã", o domingo) com desconfiança e apreensão, associando-o ao término do descanso, ao dever ou à incerteza. Em contrapartida, o sábado é o "dia do presente", a única realidade tangível e vivível. Essa percepção justifica a relevância do sábado como o dia em que todas as emoções, fugas e excessos devem acontecer intensamente, pois o amanhã representa a interrupção desse estado de suspensão.

03 – Nos versos "Os bondes andam em cima dos trilhos / E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar", o eu lírico aproxima um fato cotidiano banal a um evento central da fé cristã. Qual é o efeito de sentido produzido por essa aproximação?

      O efeito de sentido é a ironia e a denúncia da banalização do sagrado. Ao colocar no mesmo patamar sintático e descritivo o movimento mecânico dos bondes e o sacrifício supremo de Cristo, o poema revela como a sociedade moderna automatizou até mesmo os dogmas religiosos. O sacrifício divino passa a ser visto apenas como mais um dado ordinário da realidade, desprovido do seu impacto espiritual transformador diante da rotina previsível e fria da cidade.

04 – Na última estrofe, o eu lírico menciona que "Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios". Como o uso dessa imagem contribui para a caracterização do sábado e da condição humana no poema?

      A imagem cria um paradoxo significativo: o espaço físico (os bares) está "repleto", mas o conteúdo humano que o ocupa é "vazio". Isso demonstra que a busca pelo lazer, pela bebida e pela sociabilidade no sábado muitas vezes não passa de uma tentativa fútil de preencher um vazio existencial ou compensar a opressão da rotina semanal. A expressão reforça a ideia de que, sob a aparente descontração e vivacidade do sábado, subjaz uma profunda solidão e falta de sentido na vida moderna.

05 – A frase "Hoje é sábado, amanhã é domingo" abre as três primeiras estrofes do fragmento. Qual é a função dessa repetição na construção do ritmo e do significado do texto?

      A repetição constante dessa constatação temporal funciona como um refrão que marca o ritmo de uma ciranda ou de um martelar diário. Significa a inexorabilidade do tempo: o tempo passa de forma mecânica e inevitável, independentemente dos dramas humanos. A frase reafirma o sábado como uma constante que rege a conduta de todos os indivíduos, servindo de gancho para que o eu lírico desenvolva suas reflexões sobre a brevidade da vida, a necessidade de viver o presente e a impossibilidade de fugir da "dura realidade".

 

 

 

POEMA: PAROLAGEM DA VIDA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Parolagem da Vida

           Carlos Drummond de Andrade

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.

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Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 390.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 220.

Entendendo o poema:

01 – O título do poema utiliza a palavra "Parolagem" (verborragia, falação sem utilidade). Como essa escolha de título contrasta com a construção dos primeiros versos ("Como a vida muda. / Como a vida é muda...") e qual o efeito de sentido desse jogo fonético?

      A palavra "parolagem" sugere um excesso de palavras fúteis. Drummond usa essa ideia de forma irônica: o poema tenta definir a vida por meio de um acúmulo de tentativas linguísticas, mas esbarra na impossibilidade de enquadrá-la em um único conceito. Nos versos iniciais, o poeta joga com a paronímia entre as palavras "muda" (do verbo mudar) e "muda" (ausência de som/fala). Esse recurso demonstra a mobilidade inconstante da existência e, ao mesmo tempo, o seu silêncio enigmático diante das inquietações humanas, mostrando que a "parolagem" é a tentativa verbal do homem de dar sentido a algo que é mutável e calado.

02 – Ao longo de todo o poema, a vida é caracterizada por pares de opostos (antíteses e paradoxos), como em "Como a vida é nada. / Como a vida é tudo". Identifique outro paradoxo no texto e explique de que modo essa estrutura dialoga com a temática central da obra.

      Outro paradoxo marcante ocorre no verso "Como a vida é vida / ainda quando morte / esculpida em vida". Essa construção expressa que a finitude e a mortalidade fazem parte da própria substância do viver. A estrutura baseada em contradições é fundamental no poema porque reflete a visão drummondiana da existência como algo indecifrável, pleno de polaridades (tudo/nada, paz/guerra, ganho/perda). Para o poeta, a vida não é uma linha reta coerente, mas a convivência simultânea de forças antagônicas.

03 – Na estrofe "Como a vida é bela / sendo uma pantera / de garra quebrada", o eu lírico constrói uma metáfora singular para a beleza da vida. Qual é o significado da imagem da "pantera de garra quebrada"?

      A pantera é um animal associado à força, ao perigo, à selvageria e à elegância. No entanto, ao apresentá-la com a "garra quebrada", o poema insere o elemento da vulnerabilidade, do ferimento e da imperfeição. A beleza da vida, portanto, não reside em um estado intocado de perfeição ou controle, mas sim em sua capacidade de permanecer altiva, selvagem e fascinante mesmo quando ferida e fragilizada pelas adversidades da existência.

04 – Nos versos "Como a vida chora / de saber que é vida / e nunca nunca nunca / leva a sério o homem, / esse lobisomem", de que maneira o eu lírico caracteriza a figura humana e seu papel perante a existência?

      O homem é caracterizado ironicamente como um "lobisomem", metáfora que remete à sua dualidade, instabilidade e natureza bestial/irracional. A vida "nunca leva a sério o homem" porque as pretensões, vaidades e ilusões de controle da humanidade são insignificantes diante do fluxo maior do universo. A vida lamenta sua própria consciência de existir, enquanto assiste às contradições e ao papel quase caricato e trágico desempenhado pelo ser humano.

05 – Analise os versos "Como a vida toca / seu gasto realejo / fazendo da valsa / um puro Vivaldi". Qual é a metáfora presente no "realejo" e o que significa transformar a "valsa" em "Vivaldi"?

      O "gasto realejo" simboliza a rotina repetitiva, gasta e ordinária da existência. No entanto, a vida possui a capacidade de sublimar essa repetição mecânica: ao transformar uma simples "valsa" (música popular/dançante) em um "puro Vivaldi" (referência à alta música clássica e complexa), o poema indica a capacidade da existência de extrair arte, transcendência e sublime daquilo que é banal e desgastado no cotidiano.

06 – Na estrofe final, o eu lírico afirma que a vida é "sempre renascida / em flor e formiga / em seixo rolado / peito desolado / coração amante". De que forma a enumeração desses elementos representa a manifestação da vida?

      A enumeração reúne elementos do reino vegetal (flor), animal (formiga), mineral (seixo rolado) e subjetivo/humano (peito desolado, coração amante). Essa diversidade demonstra que a vida não se restringe à experiência humana nem às emoções nobres; ela é uma força impessoal, democrática e contínua que se renova em qualquer matéria ou estado, seja no sofrimento ("peito desolado") ou no afeto ("coração amante").

07 – O poema culmina nos versos "E como se salva / a uma só palavra / escrita no sangue / desde o nascimento: / amor, vidamor!". Qual é o papel da palavra "amor" e da neologização "vidamor" na conclusão da poesia?

      Após catalogar os absurdos, dores, ironias e contradições da existência, o poema encontra sua síntese e redenção na força do amor. A fusão vocabular neológica "vidamor" unifica visceralmente as duas instâncias: a vida só ganha sentido e salvação quando fundida intrinsecamente ao amor. Esse sentimento é apresentado como algo gravado biologicamente e existencialmente na essência humana ("escrita no sangue desde o nascimento"), funcionando como a resposta final para vencer o absurdo do mundo.

 

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - II - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAIS - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – II – Fragmento

           Vinícius de Morais

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado

 
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Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 224.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 193.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento lido, o verso "Porque hoje é sábado" é repetido ao final de cada estrofe/par de versos. Qual é o recurso estilístico empregado por meio dessa repetição e qual efeito de sentido ele produz no poema?

      O recurso utilizado é a anáfora (ou paralelismo sintático/repetição estrutural). Essa repetição constante funciona como uma espécie de refrão ritualístico que encadeia e justifica todas as ações retratadas no poema. O efeito de sentido criado é o de uma aparente contradição: ao atribuir a causa de eventos tão diversos, violentos ou banais ao simples fato de "ser sábado", o eu lírico ironiza a arbitrariedade da vida cotidiana e expõe o automatismo social, transformando o sábado em um dia síntese dos excessos, contradições e tragédias humanas.

02 – Aponte e explique o uso das contradições (antíteses) presentes nas primeiras estrofes do poema, relacionando-as à visão do eu lírico sobre a condição humana.

      As contradições aparecem logo no início ao colocar lado a lado eventos opostos, como "casamento" e "divórcio", além de unir a celebração de um espetáculo ou regata a episódios de violência e miséria ("uma mulher que apanha e cala", "criancinhas que não comem"). Essa justaposição de opostos revela que a condição humana é marcada pela coexistência simultânea da alegria e do sofrimento, do sagrado e do profano, da ordem e do caos. O eu lírico demonstra que o mesmo dia que traz a festa e a esperança também carrega a dor e a exclusão.

03 – Embora o poema possua um tom lírico e ritmado, há nele uma forte dimensão de crítica social. Identifique dois versos que exemplificam essa denúncia social e comente a relevância dessas imagens no texto.

      Dois exemplos marcantes de denúncia social são os versos "Há uma mulher que apanha e cala" e "Há criancinhas que não comem". Essas imagens expõem problemas estruturais graves, como a violência doméstica e a misoginia sustentadas pelo silêncio, além da extrema pobreza e da fome infantil. A relevância dessas imagens está no choque que provocam no leitor: em meio à atmosfera festiva comumente associada ao sábado (como regatas e espetáculos de gala), o poema lança luz sobre a realidade cruel e invisibilizada das populações vulneráveis.

04 – Na tradição judaico-cristã, o sábado é o dia do descanso e do término da Criação divina. Como a representação do sábado no poema de Vinicius de Moraes dialoga (ou se opõe) a essa tradição religiosa?

      Na tradição religiosa, o sábado representa a consumação da criação divina, um momento de paz, descanso e santificação. No poema, Vinicius de Moraes subverte essa ideia ao apresentar o sábado não como um dia de repouso contemplativo, mas como o ápice das paixões humanas, do caos e da imperfeição. O sábado torna-se o dia em que ocorrem crimes, suicídios, injustiças e celebrações efêmeras, mostrando que a "criação" no mundo humano é imperfeita, contraditória e carregada de profanidade.

05 – Observe a repetição do verbo "Há" no início de quase todos os versos ímpares do fragmento. Qual é a função sintático-semântica dessa escolha verbal no texto?

      Sintaticamente, o verbo "haver" é empregado como impessoal (no sentido de existir ou ocorrer), criando orações sem sujeito. Semântica e expressivamente, essa escolha confere ao poema um caráter constatativo, panorâmico e impessoal. O verbo atua como um catálogo de fatos da existência humana, transmitindo a ideia de que esses eventos simplesmente acontecem inevitavelmente, como um espetáculo inevitável da vida sobre o qual não se tem controle.

 

NOTÍCIA: COLEIRA É NECESSÁRIA PARA ALGUNS - IÇAMI TIBA - COM GABARITO

 Notícia: Coleira é necessária para alguns

IÇAMI TIBA. ESPECIAL PARA A FOLHA

        A questão do controle dos pais sobre os filhos sempre é controversa, mas é necessário deixar claro que o responsável pelos limites que os adultos estabelecem para a sua autonomia é o próprio adolescente.

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        Quem vai dizer se tem de haver um controle ou não é a própria vida que o adolescente leva nesse processo de "segundo parto” –porque a adolescência é o segundo parto para ganhar a autonomia comportamental.

        Teoricamente, esse jovem não precisa depender dos adultos para decidir o que fazer.

        Agora, uma vez que ele não se mostre competente para ditar os próprios rumos e, em vez de ir à escola fica no bar da esquina, o controle é necessário.

        Nesse contexto, aparelhos rastreadores capazes de deixar os filhos localizáveis o tempo todo, que chamo de "coleira virtual", são bastante viáveis.

        Esses jovens que precisam de controle não tomam as medidas de proteção necessárias e acabam se expondo a todo o tipo de perigo. Em vez de manter a família informada, simplesmente desaparecem. Os pais têm de impor limites: se largar o celular em qualquer lugar, então não merece sair.

        Nesse ponto, tem de ser um pouco mais radical, porque alguns adolescentes transcendem os limites, e os pais só vão saber na hora de tirá-los, na melhor das hipóteses, da delegacia.

        Assim como há jovens que podem ir para a "balada" sem maiores preocupações, existem outros que precisam, sim, dessa "coleira virtual".

IÇAMI TIBA, 63, psiquiatra, é autor de "Quem Ama, Educa!", entre outros livros. Folha de S. Paulo – Cotidiano, 12/12/2004.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 203-204.

Entendendo a notícia:

01 – No segundo parágrafo, Içami Tiba se refere à adolescência como um "segundo parto". O que o autor quer dizer com essa metáfora e qual é a relação entre essa fase e o nível de controle exercido pelos pais?

      A metáfora do "segundo parto" simboliza o processo de desligamento da dependência infantil para o nascimento do indivíduo autônomo na vida adulta. Segundo o autor, o nível de controle dos pais deve ser diretamente proporcional ao grau de maturidade demonstrado pelo próprio jovem nesse processo: quanto mais responsabilidade e competência o adolescente demonstra para gerir sua vida, menor precisa ser o controle dos pais, e vice-versa.

02 – O que o autor define como "coleira virtual" no texto e em quais circunstâncias específicas ele defende que essa medida extrema deva ser aplicada?

      A "coleira virtual" refere-se ao uso de tecnologias de rastreamento e localização contínua por meio do celular ou outros aparelhos eletrônicos. Içami Tiba defende o uso dessa medida apenas para os adolescentes que não demonstram competência para impor os próprios limites — aqueles que faltam às aulas, expõem-se ao perigo, não mantêm a família informada e rompem o pacto de confiança com os pais.

03 – De acordo com o texto, qual é a justificativa apresentada pelo autor para que os pais adotem atitudes "um pouco mais radicais" com determinados jovens?

      A justificativa reside na prevenção de riscos graves à integridade física e jurídica do jovem. O autor argumenta que a falta de limites rígidos com adolescentes inconsequentes pode fazer com que eles "transcendam os limites" e se exponham a perigos severos, fazendo com que os pais só venham a descobrir a gravidade dos atos do filho "na hora de tirá-los, na melhor das hipóteses, da delegacia".

04 – Içami Tiba afirma que "se [o jovem] largar o celular em qualquer lugar, então não merece sair". Como essa relação entre responsabilidade e privilégio se encaixa na visão do autor sobre a educação dos filhos?

      Essa relação reforça a premissa central do texto de que os direitos e privilégios da juventude (como a liberdade de sair) devem ser conquistados pelo cumprimento de deveres mínimos de segurança e comunicação. Para o autor, se o jovem não demonstra nem a responsabilidade básica de manter o canal de comunicação/localização ativo com a família, ele prova que ainda não possui a maturidade necessária para usufruir da liberdade de sair sozinho.

05 – No encerramento do texto, o autor contrapõe os jovens que podem ir para a "balada" sem preocupações àqueles que precisam da "coleira virtual". O que essa comparação revela sobre a postura ideal que os pais devem ter em relação aos limites?

      A comparação revela que a educação e o controle parental não devem seguir uma fórmula única e rígida aplicada a todos os filhos igualmente. A postura ideal dos pais deve ser flexível e adaptada à conduta individual de cada jovem: os que demonstram autorresponsabilidade e discernimento demandam autonomia, enquanto os que agem com inconsequência exigem fiscalização e limites mais rígidos.