quarta-feira, 18 de novembro de 2020

CRÔNICA: REDASSÃO, UM ATO DE EX-CREVER - CARLOS EDUARDO NOVAES - COM GABARITO

       CRÔNICA: REDASSÃO, UM ATO DE EX-CREVER

                                 Carlos Eduardo Novaes     

          Prova de redação de Ouriço Jr., incluído entre os 8% dos vestibulandos que ainda conseguem pensar alguma coisa, em ordem.

  Tema: “São frequentes os comentários sobre a falta de hábito de leitura dos jovens. Como você vê este problema? Que fatores estarão dificultando o encontro dos jovens com o livro?”

             Como eu vejo este problema? Eu não vejo. Num tá com nada quem andou espalhando por aí que nós não temos hábito de leitura. A gente não tem hábito por causa que ninguém escreve pros jovens. Uma vez, em 1977, eu entrei numa livraria e só tinha livro pra adulto e pra criança. Aí eu pedi um livro pra mim e o vendedor trouxe um, dum cara chamado Robson Cruzeiro que morava numa ilha deserta e teve um caso com um índio. Aí eu disse pro vendedor: escuta meu irmão, isso não tem nada a ver, eu moro na Barata Ribeiro e não tem índio em Copacabana.

          Não manjo muito de fatores não, mas esse deve ser um. No cinema é a mesma coisa: só tem filme pra criança ou pra adulto, no teatro idem, idem. Então se a Cultura não quer nada com a gente, a gente vai pro Consumo que dá pra gente a maior cobertura.

          Acho que os jovens e os livros transaram um encontro errado: os jovens foram prum lado e os livros pro outro. Mas os adultos é que devem responder a essa pergunta. Se vocês, caras, que são adultos não sabem, se soubessem não tavam perguntando, que dirá eu que nunca li nem um livro de cheque. Aliás, tô achando esse tema muito devagar. Livro não tá com nada. Meu avô me disse que o mundo era muito melhor quando não havia livros. Os astecas nunca leram um livro e fizeram uma civilização porreta. Os incas também nunca entraram numa livraria. Deviam mais era pegar esses caras que se metem a escrever livros e jogar na lavoura. Se por cada página de livro fosse plantado um pé de tomate tava resolvido o problema da fome. Depois que todo mundo acabasse de comer aí então a gente ia fazer a digestão lendo um livrinho que podia ser, deixa eu ver se me lembro de algum? Ah, sim, podia ser o Livro de Ouro da minha avó.

           Acho também que a falta de hábito de leitura é por causa que ler não é fácil. Ler é uma transa muito complicada. Tanto é, que no Brasil tem mais de 50 milhões de pessoas que não sabem ler. A gente tinha que mudar esse alfabeto. Fazer umas letras e umas palavras que o analfabeto também pudesse entender. Esse alfabeto é muito careta, antigão e quadrado. O mundo mudou muito nestas últimas décadas só o alfabeto continua o mesmo. Eu não agüento mais. A televisão que começou muito depois do livro tá mandando ver. Há dez anos que a gente já tem tevê a cores. O livro continua em preto e branco. A gente abre, é aquela coisa monótona, as páginas brancas e as letrinhas pretas. Só a capa é que é bonita. Por isso eu só gosto de ler capa de livro. Acho que os jovens iam ler muito mais se os livros só tivessem capa.

              Os livros são um negócio muito antigo. Desde que foi impresso o primeiro, se não me engano, a Bíblia de Jesus Cristo que eles têm o mesmo formato. Por que não fazem livros redondos? Por que não imprimem histórias em papel de parede? Os americanos estão imprimindo livros em papel higiênico. Por que não escrevem um livro numa prancha de surfe? Por que ainda hoje as histórias têm que ser impressas nos livros, como na época do Gutemberg Guarabira? Uma linha embaixo da outra? Eu que vivo a mil e só sei ler pulando de três em três linhas fico todo baratinado. Também acho que esses escritores escrevem demais. No dia em que eu entrei na tal livraria tinha livro, podes crer, de 400 páginas.  Ninguém mais tem tempo pra tudo isso. Eu queria aproveitar pra dar um plá pros escritores e pedir pra ver se dá pra resumir tudo em uma, duas, três páginas no máximo, assim todo mundo ia ler às pampas.

           O problema é que além de escrever muito, esses intelectuais escrevem muito difícil. Meu professor disse que nunca viu um livro onde tivesse escrito: sem essa, é isso aí, bicho, pintou um bode. Os nossos escritores ainda escrevem em latim ou português arcaico. Tem vezes que eu abro um livro e não manjo nada. Aí tenho que pegar um dicionário. Vocês já sentiram o peso de um dicionário? Não é mole ficar andando com um livro e um dicionário para lá e pra cá. Aí eu desisto. Os escritores têm que entrar na nossa.  Se escreverem na nossa língua não vão precisar mais do que 30 palavras pra resumir tudo.

           Outro problema é que os livros são muito caros. E por que são caros? O professor me disse que é por causa do preço do papel. Por que os editores não fazem livros de plástico que é mais barato? Mas eu não acredito muito nesse papo não, porque o disco também é caro e vende adoidado. A televisão também é cara e lá na minha casa tem três aparelhos (e dois livros). A questão é que o livro tá  superadão. Como os discos é que vendem, eu se fosse escritor ia gravar meu livro. Tem um papo aí que a televisão atrapalha a leitura.  Todo mundo gosta de ver televisão. Por que então os editores não sacam uma e inventam uma televisão literária? Um  aparelho, já andei bolando, em que você enfia um livro dentro e vai virando os canais: cada canal é uma página.

         Tô desconfiado que esses editores não têm a menor criatividade. Já que os livros estão caros por que não vendem páginas descartáveis? A gente ia poder entrar numa livraria e pedir: me dá aí 10 páginas da Divina Comédia do Grande Otelo e meia dúzia de páginas do Que é isso, Meu Chapa? do Otávio Mangabeira. Lá na minha casa todo mundo lê. Minha avó lê bula de remédio, minha irmã que tá desempregada lê os anúncios dos classificados e eu me amarro em ler inscrições nos muros. Já li todos os muros e paredes do Rio. Isso dá quase um livro não dá? A mais viva de todas é a minha tia, que só lê mão — e ainda ganha dinheiro pra isso. A única que lê livro mesmo é minha mãe. Ela é considerada a intelectual da família.  Toda vez que vai visita jantar lá em casa ela pega um livro e vai ler na cozinha.

In Democracia à vista. Rio de Janeiro: Nórdica, 1981.

Fonte da imagem: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fgesconcursos.com.br%2Festudar-para-concurso-durante-as-ferias-e-possivel-saiba-como%2Flivros-abertos%2F&psig=AOvVaw1ukLPx_aEDBbAN-yoX-OUU&ust=1605832043624000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCICLreasje0CFQAAAAAdAAAAABAD

Compreensão do texto:

1)   Por que o autor escreveu o título do seu texto com erros de ortografia?

Para chamar a atenção do leitor, despertar a curiosidade para saber do que se trata.

2)   Há algum argumento usado pelo aluno: Justifique suas respostas.

     a)   do qual você discorda totalmente?

Resposta pessoal.

 b)   com o qual você concorda totalmente?

Resposta pessoal.

c)   com o qual você concorda em parte?

Resposta pessoal.

3)   Observe os trechos seguintes, retirados do texto lido.

                “Como eu vejo este problema? Eu não vejo.

             Mas os adultos não sabem, se soubessem não tavam perguntando, que dirá eu que

              Nunca li nem um livro de cheque.”

      Nos dois trechos o autor da dissertação se mostra despreparado para debater o assunto. Na sua opinião, como leitor, esse procedimento diminui sua confiança nos argumentos apresentados? Por quê?

      Resposta pessoal.

    4)   Identifique e comente as falhas existentes no seguinte argumento do estudante:

       "Acho que os jovens iam ler muito mais se os livros só tivessem capa."

  A desculpa não tem fundamento, a verdade é que só leem quando a leitura é obrigatória pela escola como dever escolar. 

  Abordagem do texto:

1-   Baseando-se no parágrafo inicial, responda:

   a)   Em que situação o texto do vestibulando foi escrito?

Em uma Prova de Redação.

 b)   Qual era o tema da redação?

            “São frequentes os comentários sobre a falta de hábito de leitura dos jovens. Como você vê este problema? Que fatores estarão dificultando o encontro dos jovens com o livro?”

2-   Indique os argumentos com os quais o estudante fundamenta as afirmações a seguir:

   a)   “A gente não tem hábito por causa que ninguém escreve pros jovens”.

Uma vez, em 1977, eu entrei numa livraria e só tinha livro pra adulto e pra criança. Aí eu pedi um livro pra mim e o vendedor trouxe um, dum cara chamado Robson Cruzeiro que morava numa ilha deserta e teve um caso com um índio. Aí eu disse pro vendedor: escuta meu irmão, isso não tem nada a ver, eu moro na Barata Ribeiro e não tem índio em Copacabana.

 b)   “Livro não tá com nada.”

Meu avô me disse que o mundo era muito melhor quando não havia livros. Os astecas nunca leram um livro e fizeram uma civilização porreta. Os incas também nunca entraram numa livraria. Deviam mais era pegar esses caras que se metem a escrever livros e jogar na lavoura. Se por cada página de livro fosse plantado um pé de tomate tava resolvido o problema da fome.

3-   Na sua opinião. A sugestão do vestibulando de eliminar o alfabeto para tornar a leitura uma atividade mais fácil é lógica? Por quê?

     Resposta pessoal.

   Estudo da linguagem 

 

1-   Releia o terceiro parágrafo e corrija as expressões que podem ser consideradas inadequadas em um exercício escrito, por representarem recursos da linguagem oral.

Como eu vejo este problema? Eu não vejo. Não está correto quem andou falando por aí que nós não temos hábito de leitura. Nós não tem hábito por que ninguém escreve para os jovens. Uma vez, em 1977, eu entrei numa livraria e só tinha livro para adulto e para criança. Então pedi um livro para mim e o vendedor trouxe um, de um autor chamado Robson Cruzoé que morava numa ilha deserta e teve um caso com um índio. Eu disse para o vendedor: isso não tem nada a ver comigo, eu moro na Barata Ribeiro e não tem índio em Copacabana.

2-   Substitua os termos destacados nos trechos a seguir por outros mais formais.

     Se vocês, caras, que são adultos não sabem [...]

     Se vocês, examinadores, que são adultos não sabem [...]

     Livro não tá com nada. Meu avô me disse que o mundo era muito melhor quando não havia livros. Os astecas nunca leram um livro e fizeram uma civilização porreta. Os inca também nunca entraram numa livraria. Deviam mais era pegar esses caras que se metem a escrever livros e jogar na lavoura.

 

     Se vocês, pessoas, que são adultos não sabem [...]

     Se vocês, averiguadores, que são adultos não sabem [...]

     Livro não faz qualquer sentido. Meu avô me disse que o mundo era muito melhor quando não havia livros. Os astecas nunca leram um livro e fizeram uma civilização muito boa. Os inca também nunca entraram numa livraria. Deviam levar essas  pessoas que gostam de escrever livros e colocar na lavoura.

 

 

 

 

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