sexta-feira, 18 de março de 2022

CONTO: O GALO QUE CANTAVA PARA FAZER O SOL NASCER - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: O galo que cantava para fazer o sol nascer

             Rubem Alves

        Era uma vez um galo que acordava bem cedo todas as manhãs e dizia para a bicharada do galinheiro:

        -- Vou cantar para fazer o sol nascer...

        Ato contínuo, subia até o alto do telhado, estufava o peito, olhava para o nascente e ordenava, definitivo:

        -- Có-có-ri-có-có...

        E   ficava esperando.

        Dali a pouco a bola vermelha começava a aparecer, até que se mostrava toda, acima das montanhas, iluminando tudo.

        O galo se voltava, orgulhoso, para os bichos e dizia:

        -- Eu não falei?

        E todos ficavam biqui/abertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra fazer o sol nascer.

        Ninguém duvidava. Tinha sido sempre assim. Também o galo-pai cantara para fazer o sol nascer, e o galo-avô...

        Tal poder extraordinário provocava as mais variadas reações.

        Primeiro, os próprios galos não estavam de acordo. E isto porque não havia um galo só. Quando a cantoria começava, de madrugada, ela ia se repetindo pelos vales e montanhas. Em cada galinheiro havia um galo que pensara a mesma coisa e julgava todos os outros uns impostores invejosos. Além do que não havia acordo sobre a partitura certa para fazer o sol nascer. Cada um dizia que a única verdadeira era a sua – todas as outras sendo falsificações e heresias. Em cada galinheiro imperava o terror. Os galos jovens tinham de aprender a cantar do jeitinho do galo velho, e se houvesse algum que desafinasse ou trocasse bemóis por sustenidos, era imediatamente punido. Por vezes, a punição era um ano de proibição de cantar. Sendo mais grave o desafino, ameaçava-se com o caldeirão de canja do fazendeiro, fervendo sobre o fogão de lenha.

        [...]

        Depois, havia grande ansiedade entre os moradores do galinheiro. E se galo ficasse rouco? E se esquecesse da partitura?

        Quem cantaria para fazer nascer o sol? O dia não amanheceria. E por causa disso cuidavam do galo com o major cuidado. Ele, sabendo disso, sempre ameaçava a bicharada, para ser mais bem tratado ainda.

        -- Olha que eu enrouqueço! dizia.

        E todos se punham a correr, para satisfazer as suas vontades.

        [...]

        Aconteceu, como era inevitável, que certa madrugada o galo perdeu a hora. Não cantou para fazer o sol nascer.

        E o sol nasceu sem o seu canto.

        O galo acordou com o rebuliço no galinheiro. Todos falavam ao mesmo tempo.

        -- O sol nasceu sem o galo... O sol nasceu sem o galo...

        O pobre galo não podia acreditar naquilo que os seus olhos viam: a enorme bola vermelha, lá no alto da montanha. Como era possível? Teve um ataque de depressão ao descobrir que o seu canto não era tão poderoso como sempre pensara. E a vergonha era muita.

        Os bichos, por seu lado, ficaram felicíssimos. Descobriram que não precisavam do galo para que o sol nascesse. O sol nascia de qualquer forma, com galo ou sem galo.

        Passou-se muito tempo sem que se ouvisse o cantar do galo, de deprimido e humilhado que ele estava. O que era uma pena: porque é tão bonito. Canto de galo e sol nascente combinam tanto. Parece que nasceram um para o outro.

        Até que, numa bela manhã, o galinheiro foi despertado de novo com o canto do galo. Lá estava ele, como sempre, no alto do telhado, peito estufado.

        -- Está cantando para fazer o sol nascer? Perguntou o peru em meio a uma gargalhada.

        -- Não, ele respondeu.  Antes, quando eu cantava para fazer o sol nascer, eu era doido varrido. Mas agora eu canto porque o sol vai nascer. O canto é o mesmo. E eu virei poeta.

 ALVES, Rubem. Estórias de bichos. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1990. p. 22-5.

Fonte: Livro- PORTUGUÊS: Linguagens – Willian R. Cereja/Thereza C. Magalhães – 6ª Série – 2ª edição - Atual Editora – 2002 – p. 234-6.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

·        Bemóis e sustenidos: variações de tom de uma nota musical.

·        Depressão: abatimento moral.

·        Deprimido: estado daquele que entra em depressão.

·        Heresia: pensamento que se opõe às ideias vigentes.

·        Impostor: fingindo, que se faz passar por alguém que não é.

·        Partitura: representação gráfica de uma composição musical.

·        Rebuliço: barulho, agitação.

02 – O galo, no início da história, gozava de uma condição especial.

a)   Como era tratado?

Com respeito e atenção.

b)   Por que o tratavam assim?

Porque tinham medo de que ele se zangasse e não fizesse mais o sol nascer.

03 – Em todas as comunidades, é muito forte o significado da tradição, isto é, das crenças, dos costumes, dos valores, etc.

a)   No galinheiro desta história, os galos valorizam a tradição? Por quê?

Sim, porque transmitem sua técnica de canto de geração a geração, não aceitando nenhuma inovação.

b)   Que consequência teve, para a comunidade do galinheiro, o fato de o galo um dia não cantar para o sol nascer?

A comunidade descobriu que o sol nasce mesmo sem o canto do galo; Isso modificou o modo de ver a tradição e levou o fim dos privilégios do galo, vindos de longa data.

04 – Releia este parágrafo:

        “Passou-se muito tempo sem que se ouvisse o cantar do galo, de deprimido e humilhado que ele estava. O que era uma pena: porque é tão bonito. Canto de galo e sol nascente combinam tanto. Parece que nasceram um para o outro.”

a)   Até esse parágrafo, o narrador se limitava a contar a história, sem emitir opiniões pessoais. Identifique o trecho em que muda sua postura.

“O que era uma pena” até “nasceram um para o outro”.

b)   Pode-se dizer que esse parágrafo antecipa o desfecho da história. Quais são as “pistas” existentes nele que permitem prever o destino do galo?

O narrador, ao dizer que o canto do galo é bonito, antecipa o papel que ele vai assumir no desfecho da história.

05 – Observe as palavras destacadas nestas frases: “Antes, quando eu cantava para fazer o sol nascer, eu era doido varrido. Mas agora eu canto porque o sol vais nascer”.

a)   Relacione as palavras destacadas a estas ideias:

Causa – tempo – consequência – finalidade.

·        Qual dessas ideias a palavra para exprime?

Finalidade.

·        Qual dessas ideias a palavra porque exprime?

Causa.

b)   Por que o galo diz que era “doido varrido” quando cantava para fazer o sol nascer?

Percebe agora que o que fazia não tinha sentido.

c)   Explique por que ele agora se considera poeta.

Porque agora ele canta sem nenhuma finalidade específica, canta apenas porque é bonito ou porque gosta de cantar.

06 – Observe a palavra destacada neste trecho: “E todos ficavam biqui/abertos e respeitosos”. O autor inventou um neologismo, isto é, uma palavra nova, que não existe na língua. Para fazer isso, ele apenas modificou o início de outra palavra, essa sim existe na língua.

a)   Qual é essa outra palavra?

Boquiaberto.

b)   O que as duas palavras significam?

Em estado de espanto.

07 – No texto, o autor também empregou palavras criadas a partir da união de outras duas: galo-pai e galo-avô. Seguindo o exemplo de Rubem Alves, invente você também palavras a partir da junção de outras existentes na língua. Se quiser, aproveite estas sugestões: galo, madrugada, sol, canto, montanha, poeta, bichos. Ou crie livremente.

      Resposta pessoal do aluno.

 

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