sábado, 11 de agosto de 2018

TEXTO: NOTÍCIA DE JORNAL - STANISLAW PONTE PRETA - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO


Texto: NOTÍCIA DE JORNAL

     Quem descobriu, perdida no noticiário policial de um matutino, a intensa poesia contida no bilhete do suicida? Creio que foi Manuel Bandeira. Sim, se a memória não falha (e, meu Deus, ela está começando a falhar), foi o poeta Bandeira. Ele é que tem o dom da poesia mais forte. Claro, todos nós somos poetas em potencial, amando a poesia no voo de um pássaro, na comovente curva de um joelho feminino, no pôr-do-sol, na chuva que cai no mar. Mas nós somos os pequenos poetas, os que sentimos a poesia, sua mensagem de encantamento, sem capacidade bastante para transmitir ao amigo, à amada, ao companheiro aquilo que nos encantou.
        Então Deus fez o poeta maior, aquele que tem o dom de transmitir por meio de palavras toda e qualquer poesia, seja ela plástica, audível, rítmica; sentimento ou dor.
        "A poesia é espontânea" – disse um dia Pedro Cavalinho, o tímido esteta, enquanto descíamos de madrugada uma rua molhada de orvalho e um galo branco cantou num muro próximo. Um muro que o limo pintara de verde.
        E é mesmo. Tão espontânea, que estava no bilhete do suicida. Um minuto antes de botar formicida no copo de cerveja e beber, ele rabiscou, com sua letra incerta, num pedaço de papel: "Morri do mal de amor. Avisem minha mãe. Ela mora na Ladeira da Alegria, sem número".
        Manuel Bandeira, poeta maior, nem precisou transformar num poema as palavras do morto. Leu a notícia em meio às notas policiais do matutino e notou logo o que podem as palavras. O homem humilde, que fora a vida inteira um espectador da poesia das coisas, no último instante, sem a menor intenção, se fez poeta também. E deixou sobre a mesa suja de um botequim, entre um copo de formicida e uma garrafa de cerveja, a sua derradeira mensagem - a primeira mensagem poética.
        Num matutino de ontem, num desses matutinos que se empenham na publicidade do crime, havia a seguinte notícia: "João José Gualberto, vulgo 'Sorriso', foi preso na madrugada de ontem, no Beco da Felicidade, por ter assaltado a Casa Garson, de onde roubara um lote de discos".
        Pobre redator, o autor da nota. Perdido no meio de telegramas, barulho de máquinas, campainhas de telefones, nem sequer notou a poesia que passou pela sua desarrumada mesa de trabalho, e que estava contida no simples noticiário de polícia.
        Bem me disse Pedro Cavalinho, o tímido esteta, naquela madrugada: "A maior inimiga da poesia é a vulgaridade". Distraído na rotina de um trabalho ingrato, esse repórter de polícia soube que um homem que atende por um vulgo de "Sorriso" roubara discos numa loja e fora preso naquele beco sujo que fica entre a Presidente Vargas e a Praça da República e que se chama Felicidade. Fosse o repórter menos vulgar e teria escrito:
        "O Sorriso roubou a música e acabou preso no Beco da Felicidade".

PRETA, Stanislaw Ponte. Tia Zulmira e eu. 1. ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 145-7.
Entendendo o texto:
01 – Releia atentamente os dois primeiros parágrafos do texto. A seguir, escreva um parágrafo em que se diferenciem os poetas menores do poeta maior.
     Os poetas menores são capazes de sentir a poesia; o poeta maior é capaz de transmitir verbalmente toda e qualquer carga poética. Essa diferença básica deve ser cobrada na resposta do aluno. 
   
02 – Relacione as palavras de Pedro Cavalinho (terceiro parágrafo) com a situação aí descrita.
      A cena descrita no parágrafo é espontânea e é poética: deve-se levar o aluno a visualizar o galo branco que canta num muro pintado de verde pelo limo, numa manhã úmida.

03 – O que existe de poético, no seu entender, no bilhete do suicida (Quarto parágrafo).
       Há intensa carga poética no drama do suicida: morre por amor, preocupa-se em avisar sua mãe, e ela mora, amargamente, na Ladeira da Alegria, numa casa tristemente sem número.

04 – No quinto parágrafo, há várias expressões de sentido oposto. Aponte-as e comente seu emprego.
      “O homem humilde” / “se fez poeta”; “a vida inteira” / “no último instante”; “A sua derradeira mensagem” / “a sua primeira mensagem poética”. O emprego dessas expressões é altamente enfático – amplia a dramaticidade do episódio narrado.

05 – “A maior inimiga da poesia é a vulgaridade.” Relacione o conteúdo dessa frase com o comportamento do redator.
      O redator agiu de forma meramente profissional, enxergando na notícia apenas o conteúdo policialesco. Agiu com vulgaridade, portanto.

06 – A notícia, como o redator a produziu, lhe parece inadequada à finalidade a que se propõe? Comente.
      Não. Ela não é inadequada à finalidade a que se propõe. O redator cumpriu seu dever profissionalmente.

07 – O modo como Stanislaw Ponte Preta elaborou a mensagem tem qual finalidade?
      Stanislaw visa a uma finalidade bastante diversa a que visava o redator: trata-se, agora, de despertar prazer estético pela elaboração da mensagem e de extrair da vida aquilo que ela tem de poético.

08 – Stanislaw utilizou o mesmo material que o redator para elaborar sua mensagem poética. As mensagens de um e de outro são, no entanto, muito diferentes. Por quê?
      Trata-se de textos elaborados com finalidades explicitamente diferentes. Deve-se, a partir desse aspecto, enfatizar veementemente a importância da finalidade na configuração da mensagem.

09 – O texto “Notícia de jornal” é coeso? Como se articulam as diversa partes que o formam?
      É um texto coeso. Observar com o aluno como o texto principia com uma indagação sobre a descoberta da poesia no cotidiano para, num segundo momento, efetuar exatamente essa mesma descoberta.

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