domingo, 23 de agosto de 2026

NOTÍCIA: "VIVA A UTOPIA" - FRAGMENTO - REVISTA RAÇA BRASIL - COM GABARITO

 Notícia: “VIVA A UTOPIA” – Fragmento

        A infância na comunidade carente lhe revelou as faces da pobreza e da violência, das quais ele teve a dádiva de retirar apenas a experiência de vida. “De onde eu vim muitos amigos já morreram ou estão presos”, conta. “Não me considero em nada melhor do que eles. Só tive a sorte de ter uma família me apoiando, de nascer com um dom e de poder desenvolvê-lo”, acrescenta. “Eu me tornei artista para revolucionar e quero servir de bom exemplo. Não me conformo com o mundo como está. Desejo ver a mesma proporção de negros e brancos nas escolas e nas plateias de teatro. Viva a utopia”.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8KMaLd8ktOKfQJJDsAHvROygYbFseTzekNuT576ju-iQk-ll0nhWkVYBKqZ5ngCRLvu8Wa1piZHmzT4hEboMFUJOBYHZloAKqGq8Gcu3yjM33r8jEOCQ46vV3bofu5rxmc4FZq9gVViqtaRDpKDaY39p8IvGq5QOWFnNgu_IvkGTqhSR62LPXQBxXUmc/s320/images.jpg


        Apesar dos passos trilhados pela Química e pelas vendas, o pendor para as artes vem de bem antes, ainda garoto. Já no início dos anos 80 ele estudava violão e pouco tempo depois entrou para o grupo de teatro da Igreja de Santo Sepulcro, em Madureira. “Em 1985, fiz a minha primeira peça amadora”, relembra. “Subi ao palco antes mesmo de assistir a um espetáculo.” Foi assim que, de grupo em grupo, de peça em peça, a bola-de-neve artística se avolumou, até chegar a participações e pequenos papéis em espetáculos, como Cabaré Brasil e Obrigado, Cartola! além de longas-metragens como Orfeu, Bossa nova e Carandiru, sem contar minisséries, programas humorísticos e novelas da Globo (...)

Adaptado de Revista Raça Brasil, ed. 98, maio/2006. Disponível em http://racabrasil.uol.com.br/Edicoes/98/artigo17492-1.asp.

Entendendo a notícia:

01 – Numere os fatos na ordem em que aconteceram na vida de Loroza:

(3) Estudou Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

(5) Conseguiu fama em programas humorísticos e novelas da Rede Globo.

(1) Viveu sua infância no subúrbio carioca de Madureira.

(2) Estudou violão e participou do grupo de teatro da igreja.

(4) Abandonou o emprego para tentar a carreira de artista.

 

02 – Releia:

        “Hoje, ele chama a atenção menos pela circunferência do que pela competência como músico e ator”.

De acordo com o texto, isso significa dizer que:

(  ) Serjão é bastante discriminado por sua aparência física.

(X) A competência artística é o que mais impressiona as pessoas em relação a Serjão.

(  ) Serjão passa despercebido entre as pessoas.

 

03 – Numere cada frase, de acordo com o que está informado:

(1) A informação refere-se apenas a Sérgio Loroza.

(2) A informação refere-se também a um dos personagens de Sérgio Loroza.

(2) “A popularidade mesmo, porém, só veio com o bem-humorado, mulherengo e um tanto mau-caráter dono da agência de empregos do seriado A diarista, da Rede Globo”.

(1) “Para chegar onde está agora, foi com a cara e a coragem”.

(1) “Eu me tornei artista para revolucionar e quero servir de bom exemplo”.

 

04 – Leia o verbete utopia, adaptado do Novo Dicionário Aurélio:

        Utopia. 1. País imaginário, criado pelo escritor inglês Thomas Morus, onde um governo organizado proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. 2. Descrição de qualquer lugar ou situação ideal, em que as normas e instituições políticas sejam muito aperfeiçoadas. 3. Projeto que não se pode realizar, sonho, produto da imaginação, fantasia.

No texto, Sérgio Loroza afirma:

        “Eu me tornei artista para revolucionar e quero servir de bom exemplo. Não me conformo com o mundo como está. Desejo ver a mesma proporção de negros e brancos nas escolas e nas plateias de teatro. Viva a utopia”.

Responda: Qual é a utopia de Loroza?

      A utopia de Loroza é a construção de um mundo mais justo e igualitário, onde haja a mesma proporção e igualdade de acesso de negros e brancos nas escolas e nas plateias de teatro, superando a desigualdade e o preconceito social e racial.

 

HISTÓRIA EM QUADRINHOS - MAFALDA - QUINO - COM GABARITO

 História em quadrinhos Mafalda

 


Entendendo a história:

01 – Uma personagem de HQ costuma ter características marcantes. Descreva em seu caderno:

a) Como é Filipe fisicamente?

      É um menino loiro, dentuço.

b) Quais são as características da personagem de Filipe?

      Gosta de ler quadrinhos. É preguiçoso, não gosta da escola. Tem uma imaginação fértil. É muito tímido.

c) O humor das tiras é derivado das características físicas ou psicológicas de Filipe?

      Das características psicológicas.

 

02 – Você se identifica de alguma forma com Filipe? Em que você acha que é semelhante a ele? Em que você é diferente?

      Respostas pessoal do aluno.

 

03 – As tiras ab e c apresentam uma característica típica do humor que é a “reversão das expectativas”, ou seja, elas apresentam no último quadrinho uma situação que contradiz toda a sequência anterior. Copie as orações abaixo e complete-as, explicando com suas palavras o que ocorre no último quadrinho de cada tira.

a) Na tira a, Filipe precisa tomar uma atitude e fazer os deveres, mas...

      ... se comporta como um rato (come queijo enquanto lê HQs).

b) Na tira b, Filipe acorda, vai para a escola, vê que ela está sendo demolida, mas...

      ... percebe que estava apenas imaginando.

c) Na tira c, Filipe se esforça para prestar atenção à aula, mas...

      ... ao ficar se disciplinando, deixa de prestar atenção à professora.

 

04 – Os balões das HQs misturam linguagem verbal e não verbal, trazendo-nos informações importantes.

a) Quais tiram contêm balões de pensamento?

      As tiras a, b, c e d.

b) Na tira b, o que você acha que Filipe estaria murmurando no primeiro quadro?

      Resposta pessoal.  Sugestão: “já acordei mãe!”

c) No terceiro quadro da tira b, o autor usa dois pontos de exclamação no final das frases. Por quê?

      Para enfatizar a fala da personagem.

d) Na tira b há um balão cujo rabicho sai do quadrinho. Quem está falando?

      Resposta pessoal. Possivelmente a mãe da personagem.

e) No último quadro da tira c, múltiplos rabichos saem do balão. O que isso significa?

      Isso representa a fala de personagens que estão fora do quadro.

 

05 – Que tipo de revista Filipe está lendo na tira d?

      Uma revista de quadrinhos.

 

06 – No quinto quadro da tira d, o texto o balão lido por Filipe torna-se incompreensível.

a) Na sua opinião, por que isso acontece?

      Resposta pessoal. Sugestão: Isso ocorre porque Filipe não consegue se concentrar na HQ quando está perto da garota de que gosta.

b) Por que o autor desenhou um coração nesse quadro?

      Para representar o amor que Filipe sente pela garota.

 

07 – Que recursos visuais o autor usa para representar a vergonha de Filipe na tira d?

      A face de Filipe fica vermelha e gotas de suor pulam de seu rosto.

 

08 – Às vezes mais de uma ação podem estar representadas em um único quadrinho. Relate qual a sequência de ações de Filipe no único quadro da tira e.

      Filipe se aproxima da garota pela qual está apaixonado com a intenção de falar com ela, mas fica muito envergonhado, desiste da conversa e se afasta cabisbaixo, triste e pensativo.

 

Oliveira, Gabriela Rodella de. Português: a arte da palavra, 6º ano. 1.ed. São Pulo: Editora AJS Ltda,2009.

 

 

POEMA: O QUE NÓS VEMOS DAS COUSAS SÃO AS COUSAS - ALBERTO CAEIRO - COM GABARITO

 Poema: O que nós vemos das cousas são as cousas

        Alberto Caeiro

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg97oFbl5wSK7T0yWLSk4LCIU4J-yFj_zdwJy-aOv9pe_RGPKvemxgqntAEoGL_gMSnwvyNbYmY6atPprjewEqN3v3_29Rjb-Fub3ZEhOq6fySDqG0U0nntgU3Toc99YOZH8imh-C9gLpJQN66IDPbvuFd3cNbNFPPvJwsufIsHTr0uQXFHxwtzWtKmKM4/s1600/images%20(1).jpg



Fernando Pessoa. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 217.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 89.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a premissa filosófica fundamental defendida por Alberto Caeiro na primeira estrofe do poema?

a) A negação do dualismo entre a aparência e a essência das coisas.

b) A supremacia da razão sobre as impressões sensoriais imediatas.

c) A impossibilidade de alcançar o conhecimento através dos sentidos.

d) A busca por um significado oculto e transcendente na natureza.

02 – Segundo a segunda estrofe, qual é o principal obstáculo que impede o ser humano de atingir a verdadeira percepção da realidade?

a) A limitação biológica dos órgãos dos sentidos como olhos e ouvidos.

b) A interferência do pensamento racional no ato de contemplação.

c) A recusa em aceitar interpretações simbólicas e metafóricas.

d) A escassez de elementos naturais disponíveis para observação.

03 – O que a metáfora 'trazer a alma vestida' simboliza no contexto do poema?

a) A incapacidade de expressar emoções puras na escrita literária.

b) A modéstia moral e a religiosidade profunda do sujeito poético.

c) A proteção do espírito humano contra as intempéries do mundo.

d) O peso das construções culturais, filosóficas e abstrações intelectuais.

04 – Qual processo é caracterizado no poema pela expressão 'uma aprendizagem de desaprender'?

a) O abandono do convívio social em busca de um isolamento monástico.

b) A rejeição formal do uso de regras gramaticais e métricas na poesia.

c) O desmonte de conceitos abstratos para recuperar a visão simples da natureza.

d) O esquecimento das memórias da infância para alcançar a maturidade.

05 – Como o eu lírico posiciona a sua visão de mundo frente à tradição poética convencional na última estrofe?

a) Defendendo a atribuição de virtudes humanas aos fenômenos da natureza.

b) Exaltando as figuras de linguagem tradicionais como revelação da verdade.

c) Substituindo os símbolos clássicos por novas alegorias filosóficas.

d) Recusando as atribuições metafóricas e reduzindo os elementos à sua existência física.

 

CONTO: A MORTE LUCRATIVA - VALÊNCIO XAVIER - COM GABARITO

 Conto: A morte lucrativa

          Valêncio Xavier

        O engenheiro, vamos chama-lo de Fulano, trabalha na usina siderúrgica de... Dedicara sua vida – sem resultado – para obter uma liga de aço que fosse bastante forte e ao mesmo tempo flexível com o borracha. Já era velho e não enxergava direito. Um dia, quando inspecionava o aço líquido que escorria nos caninhos de fundição, tropeçou e caiu dentro da massa incandescente. Foi um corre-corre, mas nada pôde ser feito, o acidente foi fatal e seu corpo derretera-se fundindo com o aço.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8Thyphenhyphenu8QRCX63WsJPnR4doCFWWYEhCSGiU7QKv0AJTA0X57pknBoGbths0yoHC6ZBOqTCEGotvRsIXs2G7k_rf_wRZMCHqwqE8ZXP3V0SBI4YUbWWh2XojEP45M7rrJztkzRokvcCqpXQAGZvOOdwAS9F_lJ8Vtmw-YCBZtc6I3uncDbIGG4pcbvcYPHY/s320/images.jpg


        Sua morte foi muito sentida, a diretoria da usina pensou em dar sepultura cristã ao enorme bloco de metal já solidificado, mas numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo e o cadáver foi transformado em lâminas de barbear. O espantoso foi que, quando submetidas aos testes, provaram ter uma resistência incrível: capazes de receber o mais forte impacto e ao mesmo tempo maleáveis a ponto de uma criança poder dobrá-las sem que se quebrassem. O que o engenheiro Fulano buscara durante sua vida conseguira com sua morte.

        A diretoria, ao saber do resultado dos testes, reuniu-se para discutir a fabricação do novo tipo de aço. Seria a glória financeira, poderia entrar no mercado internacional, concorrendo com as grandes siderúrgicas do mundo. A reunião principiou com animadas conversas sobre as modificações a fazer para aumento das instalações, o lucro futuro, a revolta dos concorrentes.

        No meio daquela exaltação um dos diretores pediu a palavra e explicou: “Embora tentasse há muitos anos, o engenheiro Fulano nunca conseguiu um aço tão perfeito. Se isto agora aconteceu, não foi na maneira de temperar o metal, mas por alguma coisa que ele trazia no bolso, que se juntou ao aço candente, apurando-o”.

        Essas palavras caíram como água fria na fervura, mas os outros diretores foram obrigados a reconhecer que eram certas. Um deles, então, sugeriu: “Se isto é verdade, vamos tratar de descobrir o que o engenheiro Fulano trazia na hora do triste acidente”.

        Puseram-se em ação. Procuraram a viúva do infeliz e, após os rodeios de praxe, indagaram sobre o conteúdo dos bolsos do marido no dia fatídico: “Fácil”, disse ela. “Eu mesma arrumava suas coisas. Naquele dia, lembro-me bem, coloquei nos bolsos de seu terno de sarja azul as chaves da casa, sua carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã (o falecido gostava tanto!), um lenço de cambraia, uma nota de 200 e uma de 20 reais. Deve ter gastado 10 de ônibus, teria então 210 reais quando morreu”.

        No dia seguinte, os técnicos da usina receberam ordem para misturar na têmpera do aço um terno de sarja azul, duas chaves, uma carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã, um lenço de cambraia e 210 reais. Os técnicos estranharam, mas numa grande indústria as ordens de cima devem ser sempre obedecidas e a extravagante mistura foi posta nos cadinhos de fundição. O aço assim produzido foi testado, mas sua qualidade provou ser a mesma ou pior que as anteriores.

        Reunião da diretoria para examinar o fracasso da experiência. Uns explicavam o malogro pela má qualidade das balas usadas, outros achavam que o lenço devia ser de cambraia estrangeira. As coisas estavam nesse pé, até um dos diretores sugerir: “Quem sabe não foi nada disso que apurou a liga, e sim o corpo do engenheiro Fulano, seus ossos, sua carne, seu sangue?”. Alguns dos diretores mostraram-se horrorizados com essa ideia, mas como ela foi muito bem explanada – e como as ideias bem explanadas devem ser sempre aceitas – resolveram pô-la em prática.

        Um cadáver fresco foi comprado na Faculdade de Medicina e vestido da mesma maneira do engenheiro Fulano. Numa tarde mandou-se sair os operários da usina e o defunto foi atirado na forja. A diretoria esperou ansiosa o resultado dos testes. Nova desilusão: o mesmo aço de sempre, a mesma qualidade, a eterna luta para coloca-lo no mercado. Nova reunião. Creio que todos sabiam o que iria ser sugerido, mas ninguém tinha coragem de dizer, por isso, o início da reunião foi bem desagradável. Longos períodos de silêncio seguiam as palavras dos participantes. Finalmente alguém mais corajoso tomou a palavra: “Concordamos que a ótima qualidade da liga foi conseguida graças ao corpo do engenheiro Fulano. Repetimos o acidente, porém o engenheiro estava vivo quando caiu na forja, mas nós usamos um cadáver. Quem sabe se nosso erro foi esse? Talvez o sangue borbulhante e as células exerceram alguma influência na têmpera. Proponho nova experiência, desta vez com um ser humano vivo!”.

        Longo como a eternidade foi o silêncio que seguiu essas palavras. Não sei o que ficou resolvido; sei que, alguns dias depois, um operário – por sinal um dos mais antigos e respeitados da usina, tanto é que naquele mesmo dia havia sido presenteado pela direção com um belo terno de sarja azul – caiu dentro da forja, morrendo instantaneamente. Este triste acidente não melhorou a qualidade do aço. A diretoria , como no caso do engenheiro, pensou em fazer os funerais do bloco de aço; contudo, naqueles dias estourou mais uma guerra mundial. Aumentou a procura do aço e seu preço subiu vertiginosamente; tornou-se necessário aumentar a produção e o velho operário foi transformado em chapas blindadas para tanques. Como a guerra continua e todo aço produzido é necessário, não importa sua qualidade, ignoro em que pé estão as pesquisas da usina para melhorar a produção. É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...

Valêncio Xavier. In: Geração linguagem. São Paulo: Sesc e Lazuli, 2004.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 115-116.

Entendendo o conto:  

01 – Qual era o grande objetivo profissional do engenheiro Fulano em vida e de que forma ele acabou, ironicamente, alcançando esse resultado?

      O objetivo de vida do engenheiro Fulano era obter uma liga de aço que fosse extremamente forte e, ao mesmo tempo, flexível como borracha. Ironicamente, ele só alcançou esse resultado após a sua morte: por ter a visão prejudicada devido à idade, ele tropeçou e caiu na massa incandescente de aço líquido da usina. Ao ter seu corpo fundido ao metal, o bloco resultante produziu lâminas de barbear com a resistência e a maleabilidade perfeitas que ele buscou durante toda a sua vida.

02 – Como a diretoria da usina reagiu inicialmente ao acidente fatal e o que a fez mudar de ideia em relação ao destino do metal solidificado?

      Inicialmente, a diretoria pensou em dar uma sepultura cristã ao enorme bloco de metal em que o corpo do engenheiro se fundira. No entanto, prevaleceu a lógica industrial de que "numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo". Dessa forma, a diretoria decidiu transformar o cadáver de metal em lâminas de barbear, descobrindo logo em seguida que o aço havia adquirido qualidades excepcionais.

03 – Quais foram as etapas de tentativas da diretoria para reproduzir a liga de aço perfeita após o acidente do engenheiro Fulano?

      A diretoria realizou três tentativas principais:

      Mistura de objetos: Misturaram no aço líquido os mesmos pertences que o engenheiro carregava nos bolsos no dia da morte (terno, chaves, documentos, balas de hortelã, lenço e dinheiro).

      Uso de um cadáver: Jogaram na forja o corpo de um cadáver fresco comprado na Faculdade de Medicina, vestido com as mesmas roupas do engenheiro.

      Uso de uma pessoa viva: Lançaram na forja um operário vivo (disfarçando a ação como um acidente) para verificar se o "sangue borbulhante e as células vivas" seriam o fator determinante.

04 – Como a ganância da diretoria é evidenciada no episódio envolvendo o "velho operário"?

      A ganância e a falta de ética da diretoria atingem o ápice quando decidem sacrificar um ser humano vivo para tentar obter a fórmula do aço perfeito. Eles presenteiam um dos operários mais antigos e respeitados com um terno de sarja azul e, em seguida, simulam um acidente jogando-o na forja. A frieza com que tratam a vida humana em prol do lucro e do mercado internacional evidencia a desumanização promovida pelo poder econômico no conto.

05 – Apesar do sacrifício do operário, a qualidade do aço não melhorou. O que impediu que a tragédia se tornasse um prejuízo financeiro para a usina?

      O estouro de uma nova guerra mundial fez com que a demanda e o preço do aço subissem vertiginosamente. Com a necessidade urgente de aumentar a produção armamentista, a qualidade do metal deixou de ser prioridade para o mercado. Assim, a usina aproveitou o bloco de aço contendo o corpo do operário e o transformou em chapas blindadas para tanques de guerra, garantindo o lucro independentemente do fracasso do experimento.

06 – Qual é o significado do título "A morte lucrativa" no contexto da narrativa?

      O título sintetiza a crítica central do conto à mercantilização da vida humana no sistema industrial e de guerra. A morte do engenheiro abriu a perspectiva de lucros astronômicos com uma nova tecnologia; e mesmo a morte do operário, que falhou em replicar a fórmula, acabou sendo monetizada pela indústria bélica durante a guerra. A morte, portanto, deixa de ser uma tragédia humana e passa a ser vista apenas como uma oportunidade de ganho financeiro.

07 – Análise o papel do narrador na frase final do conto: "É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...". O que essa declaração sugere sobre ele?

      A frase final revela o tom de ironia macabra e o distanciamento moral do narrador. Ao lamentar que as pesquisas foram interrompidas pela guerra, o narrador demonstra estar mais interessado na resolução do "enigma científico/industrial" do que horrorizado com os homicídios e o desprezo pela vida humana cometidos pela diretoria. Isso sugere que o narrador compartilha da mesma mentalidade fria, utilitarista e insensível que domina a usina siderúrgica.

 

POEMA: NÃO SEI. FALTA-ME UM SENTIDO, UM TACTO - ÁLVARO DE CAMPOS - COM GABARITO

 Poema: Não sei. Falta-me um sentido, um tacto

            Álvaro de Campos

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto

Para a vida, para o amor, para a glória...

Para que serve qualquer história,

Ou qualquer facto?

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhxizCk_ocrqq5ckLE01LJWHxgcCnVejrsxoPZr1Zdi0nLAah-57TM-5HDOX3EIPgZBhpSc6Mc2CQjZhSnlKrjgv19zoA-h-T95vFs-tSLXtHwcWIVZqGTBGm_-etkYos1qBK0HIxEKJtllfv3D0si0ksUECGtYB26LZZMZFU77RpMG80B5mNCKq5r0kFY/s320/images.jpg
 
 

Estou só, só como ninguém ainda esteve,

Oco dentro de mim, sem depois nem antes.

Parece que passam sem ver-me os instantes,

Mas passam sem que o seu passo seja leve.

 

Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.

Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.

O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir

É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.

 

Não ser nada, ser uma figura de romance,

Sem vida, sem morte material, uma ideia,

Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,

Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.

Fernando Pessoa. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 356.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 85.

Entendendo o poema:

01 – Em qual das fases estilísticas do heterónimo Álvaro de Campos este poema melhor se enquadra?

a) Fase de celebração do futurismo moderno.

b) Fase de abulia e pessimismo existencial.

c) Fase de exaltação da natureza rural.

d) Fase de regresso à infância e nostalgia.

02 – Qual sentimento do eu lírico é sintetizado pela metáfora do verso 'Oco dentro de mim'?

a) A frustração financeira resultante de ambições fracassadas.

b) O esvaziamento interior e a perda de referências temporais.

c) O desejo iminente de construir uma nova identidade.

d) A raiva intensa provocada pela rejeição amorosa.

03 – O que caracteriza a relação do sujeito poético com o ato de pensar e sentir na terceira estrofe do poema?

a) A antecipação dolorosa e o cansaço prévio das experiências.

b) A busca incansável por novos conhecimentos e aprendizados.

c) A satisfação plena com as conclusões lógicas do raciocínio.

d) O entusiasmo infantil diante das possibilidades de sonhar.

04 – Na última estrofe, por que o eu lírico expressa o desejo de 'ser uma figura de romance'?

a) Para escapar às dores da existência e da finitude física.

b) Para manipular o destino de outras pessoas reais.

c) Para viver grandes aventuras e paixões dramáticas.

d) Para conquistar a fama e o reconhecimento literário.

05 – De acordo com a segunda estrofe, de que maneira o eu lírico percebe o transcorrer do tempo?

a) Como uma ilusão criada pela mente para enganar a razão.

b) Como um fluxo rápido que traz alívio imediato às dores.

c) Como uma oportunidade constante de renovação pessoal.

d) Como um fardo pesado que transcorre de forma indiferente.

 

 

 

CONTO: JACOB PROCURA UM DESERTO - LENE MAYER SKUMANZ - COM GABARITO

 Conto: Jacob procura um deserto

 

        O professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e Jesus gostavam de ir para o deserto.

        — No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar. Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada que o distraia quando quer falar com Deus.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaK0qUNW2J4ruzumK37a4rqn9RRe_BlxDXbYUTQ-l1HZRMToQqLzQ9LebO-L_08zP_gmoxtSv52rgHBI1ISRgj09-gwdrZGG6MaNOperNh1XIBtgUfe6F_hO7Qp7H_-EST8iaaxTRB3dy_w00Mtx-Ir0_eBdyPtxbxGg105dTnpSFFWXbBIfXDIHRI-90/s320/images.jpg


        — O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob.

        — Já — responde o professor. — Depois de visitar Jerusalém fui até lá. Gostei tanto, que quase nem consigo descrever.

        “Eu também gostava de ir para o deserto” — pensa Jacob. Só é pena que à beira de sua casa não haja nenhum deserto, nenhum local onde possa ficar em silêncio e meditar.

        Ou será que há?

        No quarto de Jacob, a seguir ao almoço, não há barulho. Só ouve, baixinho, a música da Antena 1 vinda da casa do vizinho e a mãe a lavar a loiça na cozinha. No pátio, uma criança atira a bola repetidamente contra a parede, e ao longe ouve-se o ruído dos automóveis.

        Ali ainda há demasiado barulho para poder estar em silêncio, mas, se fizer um esforço, talvez consiga abstrair-se. Jacob vai perguntar à mãe se pode ir dar um pequeno passeio.

        Não é fácil encontrar na cidade um pouco de deserto. Talvez no parque, mas ao lado está a ser aberta uma estrada, e as máquinas fazem tanto barulho que nem se consegue ouvir os pardais a chilrear no arvoredo.

        Três quarteirões mais à frente, atrás da fábrica de calçado, há uma sucata. Está fechada com arame farpado, mas Jacob conhece um buraco por onde pode escapar-se. O local da sucata é uma paisagem deserta, só com canos de fogões, detritos, máquinas de lavar e peças de automóveis. Um homem já de certa idade caminha, curvado, por entre os montes de ferro-velho e recolhe metal.

        — Andas à procura de alguma coisa? — pergunta, olhando para Jacob.

        Jacob salta novamente para a estrada e anda, anda, até chegar em frente da casa de Catarina. Sobe as escadas e toca à campainha.

        — Ando à procura de um local para meditar – diz-lhe ele.

        Ela condu-lo à sala, afasta para o lado livros e brinquedos com o pé, e encosta uma almofada à parede.

        — Pronto, senta-te aqui — diz ela. — Vou ficar quieta para tu poderes meditar. 

        Catarina senta-se à mesa a fazer os trabalhos de casa. Não diz uma palavra nem olha uma única vez para Jacob. A sala está tão silenciosa que ele consegue ouvir a caneta de tinta permanente a arranhar o papel. E o ruído abafado que os sapatos fazem quando Cati roça a perna da cadeira, porque Cati nunca consegue sentar-se totalmente quieta.

        Jacob fecha os olhos. Ouve a sua própria respiração e admira-se por respirar tão devagar. Sente como a barriga sobe e desce quando respira. O sangue palpita-lhe levemente nas orelhas e também no pescoço. Cati foi muito simpática em tê-lo deixado ficar na sala, mas Jacob não lho diz.

        — Está-se tão bem aqui. Quase como no deserto.

        — Se andas à procura de um deserto, tens de ir à sucata.

        — Já lá estive — diz Jacob.

        — E?...

        — Nada. 

        — Tens de atravessar devagarinho e com calma a sucata toda — diz Cati. — Não vás só pela beira.

        De regresso a casa, Jacob volta a entrar pelo buraco do arame farpado.

        — Então, de que é que andas à procura? — pergunta o velho.

        — De alguma coisa para a bicicleta? Talvez possa ajudar-te.

        — Eu só vim dar uma volta — diz Jacob, e continua por entre o ferro-velho. As pedras rolam-lhe por debaixo dos pés, escorrega, segue em frente. Ouve-se o vento a assobiar. Um cão ladra algures.

        No céu, bandos de gralhas voam em círculos. Jacob fica espantado. Nunca pensou que ali fosse tão calmo. Não há nada que o distraia.

        “Jesus” — pensa ele. — “O que achas do meu deserto?”

Lene Mayer-Skumanz. Lene Mayer-Skumanz (org.). Hoffentlich bald Wien, Herder Verlag, 1986. Tradução e adaptação

Entendendo o conto:

01 – Qual é a explicação dada pelo professor de religião sobre o motivo pelo qual Jesus e os profetas gostavam de ir para o deserto?

      O professor explica que no deserto o homem fica completamente sozinho, o que possibilita fazer silêncio, meditar e falar com Deus sem distrações. Além disso, o deserto é um local para testar a si mesmo e ver se é possível viver sem as comodidades do dia a dia, como boa comida, conforto, diversões e amigos.

02 – Ao tentar meditar no próprio quarto, quais são os barulhos que impedem Jacob de encontrar o silêncio absoluto?

      No quarto, Jacob consegue ouvir a música da rádio vinda da casa do vizinho, a mãe lavando a louça na cozinha, uma criança batendo repetidamente uma bola contra a parede no pátio e, ao longe, o ruído dos automóveis na rua.

03 – Como a cidade é apresentada no texto no que diz respeito à busca de Jacob por um espaço de silêncio? Dê exemplos dos locais visitados por ele antes da casa de Catarina.

      A cidade é apresentada como um ambiente barulhento e em constante movimento, onde é difícil encontrar um espaço calmo. Quando Jacob tenta ir ao parque, depara-se com máquinas barulhentas abrindo uma estrada. Ao ir para a sucata pela primeira vez, o local tem a aparência de uma paisagem deserta, mas a presença do homem que recolhe ferro-velho o assusta e o faz ir embora sem meditar 

04 – De que maneira Catarina ajuda Jacob na sua busca por um local para meditar e como ela se comporta enquanto ele está lá?

      Catarina acolhe Jacob em sua casa, abre espaço na sala afastando brinquedos e livros e coloca uma almofada para ele se sentar. Para ajudá-lo a meditar, ela decide ficar totalmente em silêncio fazendo seus deveres de casa, sem falar e sem olhar para ele, respeitando a busca do amigo 

05 – Qual é o conselho que Catarina dá a Jacob para que ele realmente consiga encontrar o "deserto" na sucata?

      Catarina aconselha Jacob a não ficar apenas na beirada da sucata, mas sim a atravessar o local inteiro, devagar e com calma, para conseguir vivenciar a experiência do silêncio e da meditação naquele espaço.

06 – O que Jacob sente e percebe quando decide seguir o conselho de Catarina e retornar à sucata?

      Ao caminhar devagar pelo ferro-velho, Jacob percebe os sons sutis ao seu redor, como o vento assobiando, as pedras rolando sob seus pés, um cão latindo ao longe e o voo das gralhas no céu. Ele se espanta com a calma do lugar e conclui que ali não há nada que o distraia, alcançando finalmente o seu "deserto". 

07 – A partir da leitura do conto, como podemos definir o conceito de "deserto" para Jacob? Trata-se apenas de um lugar geográfico? Justifique.

      O "deserto" para Jacob não é apenas uma região geográfica árida, mas sim um estado de espírito e um espaço de desconexão do barulho cotidiano. O conto mostra que o deserto pode ser encontrado em locais simples do dia a dia (como uma sucata ou um canto silencioso na casa de uma amiga), desde que a pessoa adote uma atitude de calma, foco interior e abertura para o silêncio e para a meditação.

 

CONTO: A PEDRA NO CAMINHO - WILLIAM J. BENNETT - COM GABARITO

 Conto: A pedra no caminho

 

        Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpNb1GOhled-UxGCZpxAWbMl5DXpwSHHtKTpt1jeJnsk0f_hd1F1mWpCKZm_D-D8mk9vg-e5TsRPT098lvTW-AwK_AWZ6Y-YF0YdvdE_l1hRF0kKwPu1fFcIz5GLREfsgjndbvzG7r_I6YJNu7vbWTZpcojLM2xzwKGERXJokpWnRfLg00l26i48j59fQ/s320/images.jpg


        — Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

        Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

        Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

        — Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?  E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

        Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

        O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

        Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

        Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho.

        Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”

        E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

        Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

        Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

        A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

        — Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

        Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

 

William J. Bennett O Livro das Virtudes II Editora Nova Fronteira, 1996.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual era o principal objetivo do rei ao colocar uma pedra propositalmente no meio da estrada e o que isso revela sobre a sua visão de liderança?

      O rei, descrito como sábio, não buscava apenas pregar uma peça, mas sim criar uma lição prática sobre cidadania e iniciativa. Seu objetivo era "inculcar bons hábitos" e testar a disposição do povo em resolver problemas por conta própria em vez de apenas reclamar. Isso revela uma visão de liderança educativa, onde o governante não apenas provê, mas desafia seus súbditos a serem proativos e responsáveis pelo bem comum.

 

02 – Compare a reação do fazendeiro e do soldado diante do obstáculo. O que há de comum entre as atitudes desses dois personagens?

      Ambos os personagens reagem com indignação e buscam culpados externos ("preguiçosos"), mas nenhum deles considera a possibilidade de resolver o problema pessoalmente. O fazendeiro desvia sua carroça e reclama; o soldado, embora sofra um acidente físico ao tropeçar, também se limita a limpar a poeira e amaldiçoar os outros. O ponto comum é a passividade e o egoísmo: eles enxergam a pedra como um incômodo para si, mas não sentem a responsabilidade de removê-la para ajudar a coletividade.

 

03 – Por que a filha do moleiro foi a única a retirar a pedra e qual foi a sua principal motivação, de acordo com o texto?

      Diferente dos outros, a filha do moleiro foi movida pela empatia e pela prudência. Mesmo estando cansada após um dia de trabalho, ela pensou na segurança alheia ao notar que, com a chegada da noite, alguém poderia tropeçar e se ferir gravemente. Sua motivação não foi a busca por recompensa (já que ela não sabia do ouro), mas sim o desejo genuíno de evitar um mal ao próximo e melhorar o caminho para todos.

 

04 – Explique o significado da frase final do rei: "A decepção é normalmente o preço da preguiça." Relacione-a com o comportamento final dos outros súbditos ao descobrirem o ouro.

      A frase sugere que aqueles que evitam o esforço e o trabalho perdem as oportunidades de crescimento e recompensa que estão escondidas sob os desafios. A "decepção" mencionada refere-se ao sentimento do fazendeiro e do soldado que, ao verem o ouro, perceberam que a riqueza poderia ter sido deles se tivessem tido a iniciativa de agir. O comportamento final deles, de procurar ouro no pó da estrada, demonstra que eles ainda não haviam entendido a lição: a recompensa não cai do céu por sorte, mas é fruto de enfrentar o obstáculo.

 

05 – O conto utiliza a "pedra" como uma metáfora. Para além do objeto físico, o que a pedra representa na vida humana e qual é a mensagem central do conto sobre como devemos lidar com os nossos "fardos"?

      A pedra representa as dificuldades, problemas sociais e obstáculos inesperados que surgem em nossa jornada. A mensagem central é que os problemas não devem ser apenas contornados ou usados como motivo de reclamação; eles são oportunidades disfarçadas para o desenvolvimento pessoal e para o serviço ao próximo. O conto ensina que o progresso (o "ouro") pertence àqueles que arregaçam as mangas para transformar obstáculos em degraus.