Conto: O recital

Luís Fernando
Veríssimo
Uma boa maneira de começar um conto é
imaginar uma situação rigidamente formal — digamos, um recital de quarteto de
cordas — e depois começar a desfiá-la, como um pulôver velho. Então vejamos. Um
recital de quarteto de cordas.
O quarteto entra no palco sob educados
aplausos da seleta plateia. São três homens e uma mulher. A mulher, que é
jovem e bonita, toca viola. Veste um longo vestido preto. Os três homens estão
de fraque. Tomam os seus lugares atrás das partituras. Da esquerda para a
direita: um violino, outro violino, a viola e o violoncelo. Deixa ver se não
esqueci nenhum detalhe. O violoncelista tem um grande bigode ruivo. Isto pode
se revelar importante mais tarde, no conto. Ou não.
Os quatro afinam seus instrumentos.
Depois, silêncio. Aquela expectativa nervosa que precede o início de qualquer
concerto. As últimas tossidas da plateia. O primeiro violinista consulta seus
pares com um olhar discreto. Estão todos prontos, o violinista coloca o
instrumento sob o queixo e posiciona seu arco. Vai começar o recital. Nisso…
Nisso, o quê? Qual a coisa mais
insólita que pode acontecer num recital de um quarteto de cordas? Passar uma
manada de zebus pelo palco, por trás deles? Não. Uma manada de zebus passa,
parte da plateia pula das suas poltronas e procura as saídas em pânico, outra
parte fica paralisada e perplexa, mas depois tudo volta ao normal. O quarteto,
que manteve-se firme em seu lugar até o último zebu — são profissionais e,
mesmo, aquilo não pode estar acontecendo — começa a tocar. Nenhuma explicação é
pedida ou oferecida. Segue o Mozart.
Não. É preciso instalar-se no
acontecimento, como a semente da confusão, uma pequena incongruência. Algo
que crie apenas um mal-estar, de início e chegue lentamente, em etapas
sucessivas, ao caos. Um morcego que posa na cabeça do segundo violinista
durante um pizzicato. Não. Melhor ainda. Entra no palco um homem carregando uma
tuba.
Há um murmúrio na plateia. O que é
aquilo? O homem entra, com sua tuba, dos bastidores. Posta-se ao lado do
violoncelista. O primeiro violinista, retesado como um mergulhador que
subitamente descobriu que não tem água na piscina, olha para a tuba entre
fascinado e horrorizado. O que é aquilo? Depois de alguns instantes em que a
tensão no ar é como a corda de um violino esticada ao máximo, o primeiro
violinista fala:
— Por favor…
— O quê? — diz o homem da tuba, já na
defensiva. — Vai dizer que eu não posso ficar aqui?
— O que o senhor quer?
— Quero tocar, ora. Podem começar que
eu acompanho.
Alguns risos na plateia. Ruídos de
impaciência. Ninguém nota que o violoncelista olhou para trás e quando deu com
o tocador de tuba virou o rosto em seguida, como se quisesse se esconder. O
primeiro violinista continua:
— Retire-se, por favor.
— Por quê? Quero tocar também.
O primeiro violinista olha nervosamente
para a plateia. Nunca em toda a sua carreira como líder do quarteto teve que
enfrentar algo parecido. Uma vez um mosquito entrou na sua narina durante uma
passagem de Vivaldi. Mas nunca uma tuba.
— Por favor. Isto é um recital para
quarteto de cordas. Vamos tocar Mozart. Não tem nenhuma parte para a
tuba.
— Eu improviso alguma coisa. Vocês
começam e eu faço o um-pá-pá.
Mais risos na plateia. Expressões de
escândalo. De onde surgiu aquele homem com uma tuba? Ele nem está de fraque.
Segundo algumas versões veste uma camisa do Vasco. Usa chinelos de dedo. A
violista sente-se mal. O violinista ameaça chamar alguém dos
bastidores para retirar o tocador de tuba a força. Mas ele aproxima o bocal do
seu instrumento dos lábios e ameaça:
— Se alguém se aproximar de mim eu toco
pof!
A perspectiva de se ouvir um pof
naquele recinto paralisa a todos.
— Está bem — diz o primeiro violinista.
— Vamos conversar. Você, obviamente, entrou no lugar errado.
Isto é um recital de cordas. Estamos nos preparando para tocar Mozart. Mozart não
tem um-pá-pá.
— Mozart não sabe o que está perdendo —
diz o tocador de tuba, rindo para a plateia e tentando conquistar a sua
simpatia.
Não consegue. O ambiente é hostil. O
tocador de tuba muda de tom. Torna-se ameaçador:
— Está bem, seus elitistas.
Acabou. Onde é que vocês pensam que estão, no século XVIII? Já houve 17
revoluções populares depois de Mozart. Vou confiscar estas partituras em nome
do povo. Vocês todos serão interrogados. Um a um, pá-pá.
Torna-se suplicante:
— Por favor, só o que eu quero é tocar
um pouco também. Eu sou humilde. Não pude estudar instrumento de cordas. Eu
mesmo fiz esta tuba, de um Volkswagen velho. Deixa…
Num tom sedutor, para a violista:
— Eu represento os seus sonhos
secretos. Sou um produto da sua imaginação lúbrica, confessa. Durante o Mozart,
neste quarteto anti-séptico, é em mim que você pensa. Na minha barriga e na
minha tuba fálica. Você quer ser violada por mim num alegro assai, confessa…
Finalmente, desafiador, para o
violoncelista:
— Esse bigode ruivo. Estou
reconhecendo. É o mesmo bigode que eu usava em 1968. Devolve!
O tocador de tuba e o violoncelista
atracam-se. Os outros membros do quarteto entram na briga. A plateia agora
grita e pula. É o caos! Simbolizando, talvez, a falência final de todo o
sistema de valores que teve início com o iluminismo europeu ou o triunfo do
instinto sobre a razão ou ainda, uma pane mental do autor. Sobre o palco, um
dos resultados da briga é que agora quem está com o bigode ruivo é a violista.
Vendo-a assim, o tocador de tuba para de morder a perna do segundo violinista,
abre os braços e grita: “Mamãe!”
Nisso, entra no palco uma manada de
zebus.
Verissimo,
Luís Fernando. O analista de Bagé.
São
Paulo, Círculo do Livro, s/d. p. 59-61.
Entendendo o conto:
01 – O narrador se coloca no
texto, assumindo o papel de emissor da mensagem e mostrando ao leitor vários de
seus procedimentos e dúvidas. Releia atentamente essas passagens e responda: O
texto é fruto de intenções? A tessitura obtida é premeditada?
As intervenções do narrador demonstram
que ele estrutura conscientemente seu texto, buscando obter efeitos
premeditados (humor, suspense, surpresa) sobre o leitor.
02 – “Isto pode se revelar
importante mais tarde, no conto. Ou não. (Segundo parágrafo):
a)
Qual elemento é retomado pelo pronome isto?
O fato de o violoncelista ter um grande bigode ruivo.
b)
Comente a importância desse elemento em duas
passagens posteriores: depois do primeiro diálogo entre o homem da tuba e o
líder do quarteto e antes da confusão que antecede a entrada dos zebus.
O violoncelista, ao ver o homem de tuba, procura esconder-se. Isso
demonstra a existência de algum tipo de contato anterior entre eles. Ao ver o
bigode ruivo, o homem de tuba o reconhece e nos fornece uma informação: Ele,
homem de tuba, usava esse bigode em 1968 – ano particularmente sugestivo em
virtude dos fatos históricos nacionais e internacionais que então ocorreram.
03 – “Nisso...” (Terceiro parágrafo) O que prepara essa palavra?
Você, leitor, o que passa a esperar que a lê? E o narrador-emissor, que faz
depois de enuncia-la?
A palavra nisso
prepara o leitor para o surgimento de algum fato capaz de provocar o
desencadeamento da ação. Como será visto mais tarde, essa palavra prepara a complicação do texto narrativo.
04 – O quarto parágrafo
parece ser uma digressão, ou seja, um momento em que o texto foge ao tema
principal. Depois da leitura do texto inteiro, essa impressão continua? Qual a
importância real desse parágrafo para a estrutura do texto?
É nesse quarto parágrafo que se introduz
a manada de zebus que será fundamental no encerramento caótico da história.
Mais uma vez, salta aos olhos a inter-relação entre as partes do texto. Deve-se
chamar a atenção do aluno para o aparente desinteresse do narrador nessa
passagem, que mascara sua real importância.
05 – O quinto parágrafo nos
mostra como deve ser o desenvolvimento de um conto. Relacione o que se diz
nesse parágrafo com a série de acontecimentos que o seguem.
Nesse parágrafo,
o narrador tece considerações sobre o momento narrativo da complicação. É
evidente a relação entre esse parágrafo e toda a série de acontecimentos
desencadeados pela chegada do tocador de tuba.
06 – Aponte, no penúltimo
parágrafo, o momento em que o texto avalia aquilo que está sendo narrado. Que
tipo de linguagem é então utilizado?
De “É o caos!”
até “... pane mental do autor”. A linguagem utilizada é intelectualizada,
típica de críticos de arte, sociólogos, psicólogos.
07 – O desfecho do texto é
surpreendente? Relacione esse desfecho com o que é dito no quarto e o quinto
parágrafos. Não deixe de observar o que o narrador-emissor havia definido sobre
a manada de zebus.
O desfecho foi
finamente arquitetado pelo autor, que, no quarto parágrafo, numa aparente
digressão, aludiu pela primeira vez à manada de zebus, e no quinto parágrafo
fingiu descarta-la. O texto é, portanto, exemplar para discutir o conceito de
coesão textual, reforçando a ideia de que as partes têm de se relacionar
mutuamente na textura textual.
08 – O texto nos apresenta
um universo em que muitas coisas se mostram diferentes do que determina a
lógica do cotidiano. Pensando nisso, comente:
a)
O valor do argumento colocado pelo homem da
tuba (18° parágrafo) para evitar a aproximação de quem o quisesse retirar de
cena.
A ameaça só pode ser “ameaçadora” num conto em que os despropósitos
são apresentados com toda a naturalidade.
b)
A linguagem utilizado pelo homem da tuba na
sequência em que se torna ameaçador, suplicante e sedutor (do 23° ao 27°
parágrafo).
Ele se mostra altamente intelectualizado, ao contrário do que fariam
supor seus trajes e seu comportamento até então. O fato de que usava um bigode
ruivo em 68 pode explicar essa nova “personalidade”.
c)
A ambiguidade da passagem “Mas nunca uma
tuba” no 14° parágrafo, em que o primeiro violinista se recorda de situações
difíceis anteriores.
Há
contradição no texto?
Uma tuba nunca entrou no nariz? Ou no palco? O texto não é
contraditório porque estabelece um universo regido por regras diferentes
daquelas do cotidiano real.
09 – De que forma você
utilizaria o texto “O recital” para provar a tese de que um texto é um todo
estruturado e não uma mera justaposição de partes desconexas?
Resposta pessoal
do aluno. Deve-se leva-lo a analisar o fino trabalho de construção do texto,
evidenciado pelas inúmeras relações de sentido analisadas durante o
questionário.
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