terça-feira, 12 de junho de 2018

CRÔNICA: NA ESCOLA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

Crônica: Na Escola 
               Carlos Drummond de Andrade


        Democrata é Dona Amarílis, professora na escola pública de uma rua que não vou contar, e mesmo o nome de Dona Amarílis é inventado, mas o caso aconteceu.
        Ela se virou para os alunos, no começo da aula, e falou assim:

        -- Hoje eu preciso que vocês resolvam uma coisa muito importante. Pode ser?
        -- Pode – a garotada respondeu em coro.
        -- Muito bem. Será uma espécie de plebiscito. A palavra é complicada, mas a coisa é simples. Cada um dá sua opinião, a gente soma as opiniões e a maioria é que decide. Na hora de dar opinião, não falem todos de uma vez só, porque senão vai ser muito difícil eu saber o que é que cada um pensa. Está bem?
        -- Está – respondeu o coro, interessadíssimo.
        -- Ótimo. Então, vamos ao assunto. Surgiu um movimento para as professoras poderem usar calça comprida nas escolas. O governo disse que deixa, a diretora também, mas no meu caso eu não quero decidir por mim. O que se faz na sala de aula deve ser de acordo com os alunos. Para todos ficarem satisfeitos e um não dizer que não gostou. Assim não tem problema. Bem, vou começar pelo Renato Carlos. Renato Carlos, você acha que sua professora deve ou não deve usar calça comprida na escola?
        -- Acho que não deve – respondeu, baixando os olhos.
        -- Por quê?
        -- Porque é melhor não usar.
        -- E por que é melhor não usar?
        -- Porque minissaia é muito mais bacana.
        -- Perfeito. Um voto contra. Marilena, me faz um favor, anote aí no seu caderno os votos contra. E você, Leonardo, por obséquio, anote os votos a favor, se houver.
        -- Agora quem vai responder é Inesita.
        -- Claro que deve, professora. Lá fora a senhora usa, por que vai deixar de usar aqui dentro?
        -- Mas aqui dentro é outro lugar.
        -- É a mesma coisa. A senhora tem uma roxo-cardeal que eu vi outro dia na rua, aquela é bárbara.
        -- Um a favor. E você, Aparecida?
        -- Posso ser sincera, professora?
        -- Pode, não. Deve.
        -- Eu, se fosse a senhora, não usava.
        -- Por quê?
        -- O quadril, sabe? Fica meio saliente…
        -- Obrigada, Aparecida. Você anotou, Marilena? Agora você, Edmundo.
        - Eu acho que Aparecida não tem razão, professora. A senhora deve ficar muito bacana de calça comprida. O seu quadril é certinho.
        -- Meu quadril não está em votação, Edmundo. A calça sim. Você é contra ou a favor da calça?
        -- A favor 100%.
        -- Você, Peter?
        -- Pra mim tanto faz.
        -- Não tem preferência?
        -- Sei lá. Negócio de mulher eu não me meto, professora.
        -- Uma abstenção. Mônica, você fica encarregada de tomar nota dos votos iguais ao de Peter: nem contra nem a favor, antes pelo contrário. 
        Assim iam todos, votando, como se escolhessem o Presidente da República, tarefa que talvez, quem sabe? No futuro sejam chamados a desempenhar. Com a maior circunspeção. A vez de Rinalda:
        -- Ah, cada um na sua.
        -- Na sua, como?
        -- Eu na minha, a senhora na sua, cada um na dele, entende?
        -- Explique melhor.
        -- Negócio seguinte. Se a senhora quer vir de pantalona, venha. Eu quero vir de midi, de máxi, de short, venho. Uniforme é papo furado.
        -- Você foi além da pergunta, Rinalda. Então é a favor?
        -- Evidente. Cada um curtindo à vontade.
        -- Legal! – exclamou Jorgito. – Uniforme está superado, professora. A senhora vem de calça comprida, e a gente aparecemos de qualquer jeito.
        -- Não pode – refutou Gilberto. – Vira bagunça. Lá em casa ninguém anda de pijama ou de camisa aberta na sala. A gente tem de respeitar o uniforme.
        Respeita, não respeita, a discussão esquentou, Dona Amarílis pedia ordem, ordem, assim não é possível, mas os grupos se haviam extremado, falavam todos ao mesmo tempo, ninguém se fazia ouvir, pelo que, com quatro votos a favor de calça comprida, dois contra, e um tanto-faz, e antes que fosse decretada por maioria absoluta a abolição do uniforme escolar, a professora achou prudente declarar encerrado o plebiscito, e passou à lição de História do Brasil.

                       Carlos Drummond de Andrade. Para gostar de ler,
                              V.2, Crônicas. São Paulo: Ática, 1995, p. 54-7.
Entendendo a crônica:
01 - O texto que você acabou de ler conta uma história
        a) Quem são os personagens?
            A professora e os alunos.

        b) O que eles estão fazendo?
             Eles estão discutindo (tomando partido) sobre um assunto proposto.

       c) Onde ocorrem os fatos?
             Os fatos ocorrem na sala de aula, apesar de haver alusões à rua e à casa.

02 - Que fatos ocorridos no texto podem acontecer no dia a dia de uma sala de aula?
        Resposta pessoal. Um debate sobre um tema polêmico, a diferença de opiniões, a votação, etc.

03 - Você entendeu a explicação de dona Amarilis sobre plebiscito? Explique, então, do que se trata.
       É a participação popular (democrática) em uma decisão ou escolha por meio de votação acerca de um assunto específico.

04 – Observe a seguinte passagem do texto: "Democrata é Dona Amarílis, professora na escola pública de uma rua que não vou contar, [...]". Procure o significado do termo destacado e responda:
a) Que tipo de pessoa é Dona Amarílis?
      Democrata é referente à democracia, cujo significado remete à participação do povo na tomada de decisões do governo, por exemplo. Dessa forma, Dona Amarílis é uma professora que leva em consideração as opiniões de todos os alunos.

05 – O nome da professora citada no texto é o nome real da professora na qual foi inspirada essa história? Comprove sua resposta com uma passagem do texto.
      Não. " Dona Amarílis é inventado".

06 – É correto afirmar que a história contada no texto, de fato, aconteceu? Justifique sua resposta com um trecho do texto.
      Sim. "[...] o nome de Dona Amarílis é inventado, mas o caso aconteceu."

07 – Observe a seguinte frase do texto: "-- Pode – a garotada respondeu em coro.". De que forma a turma respondeu para a professora?
      Todos juntos. 

08 – De que forma a palavra "plebiscito" é explicada no texto?
      "Cada um dá sua opinião, a gente soma as opiniões e a maioria é que decide."

09 – Sobre qual questão a professora resolveu fazer um plebiscito com a turma? E por que ela solicitou a participação dos alunos?
      Se professoras poderiam usar calça comprida em sala de aula. Porque, segundo ela, o que se faz em sala de aula deve estar de acordo com a opinião dos alunos.

10 – Qual foi a opinião de Renato Carlos sobre o assunto? De que forma ele justificou essa opinião?
      Ele acha que ela não deveria usar, pois prefere que ela use saia.

11 – Observe a frase: "-- Acho que não deve – respondeu, baixando os olhos.". O que o trecho destacado demostra sobre o sentimento de Renato, ao dar sua opinião?
      Vergonha, timidez.

12 – Para quem a professora pediu que anotasse os votos contra o uso da calça comprida? E para quem pediu que anotasse os a favor do uso?
      Marilena, contra; Leonardo, a favor.

13 – Observe o trecho: "E você, Leonardo, por obséquio, anote os votos a favor, se houver.". Reescreva a frase, substituindo a expressão destacada por um sinônimo.
       São: "por gentileza", "por favor".

14 – Na seguinte frase: "A senhora tem uma roxo-cardeal que eu vi outro dia na rua, aquela é bárbara.". Com que sentido foi empregada a palavra destacada, neste contexto?
      Maravilhosa.

15 – No 23º parágrafo, a aluna justifica o voto contra usando a seguinte frase: "-- O quadril, sabe? Fica meio saliente…". De quem é essa opinião, e o que a menina quis dizer?
      Aparecida. Ela quis dizer que o quadril fica muito grande.

16 – Qual dos alunos preferiu não dar sua opinião? Que palavra, no texto, foi usada para registrar isso?
      Peter. Abstenção.

17 – Observe o seguinte trecho: "Assim iam todos, votando, como se escolhessem o Presidente da República, tarefa que talvez, quem sabe? No futuro sejam chamados a desempenhar. Com a maior circunspeção.". Reescreva a frase, substituindo o termo destacado por um sinônimo. Faça as alterações necessárias.
      Cuidado, atenção, análise. 

18 - Qual foi a opinião de Jorgito? E a de Rinalda?
      Jorgito achou legal e sugeriu abolir o uniforme. Rinalda sugere que cada um se vista com o que quiser.

19-  Na frase abaixo, há um erro. Reescreva-a, empregando a norma padrão. "A senhora vem de calça comprida, e a gente aparecemos de qualquer jeito.".
[...] nós aparecemos de qualquer jeito. 

20 – Que palavra foi empregada, no texto, para demonstrar que Gilberto discordou de Jorgito? Que argumentos ele usou para basear sua opinião?
      Refutou. Vira bagunça. Lá em casa ninguém anda de pijama ou de camisa aberta na sala. A gente tem de respeitar o uniforme.

21 – De que forma e por que a professora resolveu encerrar a discussão?
      Porque virou confusão e ela resolver passar a história do Brasil.

22 – Observe o seguinte trecho do último parágrafo: "[...] e antes que fosse decretada por maioria absoluta a abolição do uniforme escolar, [...]". O que significam os termos destacados? Como poderíamos reescrever essa frase, sem alterar o sentido?
      [...] e antes que fosse determinado pela maioria total/ampla a abolição do uniforme escolar [...] 

23– Qual foi o placar final do plebiscito proposto por Dona Amarílis?
      Quatro votos a favor de calça comprida, dois contra, e um tanto-faz. 



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