segunda-feira, 25 de junho de 2018

CRÔNICA: O HOMEM TROCADO - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO


Crônica: O Homem Trocado  

        O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
     – Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.
  – Eu estava com medo desta operação…
  – Por quê? Não havia risco nenhum.
        – Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…
        E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
        – E o meu nome? Outro engano.
        – Seu nome não é Lírio?
        – Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e…
        Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
        – Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
        – O senhor não faz chamadas interurbanas?
        – Eu não tenho telefone!
        Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
        – Por quê?
        – Ela me enganava.
        Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
        – O senhor está desenganado.
        Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
        – Se você diz que a operação foi bem…
        A enfermeira parou de sorrir.
        – Apendicite? – perguntou, hesitante.
        – É. A operação era para tirar o apêndice.
        – Não era para trocar de sexo?
                                                                    Luís Fernando Veríssimo.
Entendendo a crônica.

01 – Que elementos o cronista utilizou para gerar humor no texto?
      O fato de acontecer tudo errado com a personagem central.

02 – Justifique o título do texto.
      O homem trocado: trocado na maternidade; trocaram seu nome; sua mulher o trocou por outro; trocaram a natureza de sua operação.

03 – Indique que consequências os seguintes fatos têm na narrativa:
a)   Troca na maternidade.
Foi criado por dez anos por um casal oriental.

b)   A ida de outro bebê para sua mãe.
O marido a abandonou.

c)   Engano do cartório.
Seu nome ficou sendo Lírio e não Lauro.

d)   Engano do computador.
Não pôde frequentar a universidade, embora tenha passado no vestibular.

e)   Engano da companhia telefônica.
Pagava contas altíssimas e nem tinha telefone.

f)    Engano do médico.
Este lhe dissera que ele estava desenganado, ou seja que o paciente estava prestes a morrer.

04 – Observe a fala do médico: “— O senhor está desenganado”. Qual o sentido da palavra “desenganado”?
      Que não há mais salvação, que o paciente está prestes a morrer.   

05 – Por que o narrador não fica apreensivo com este diagnóstico?
     Porque ele sabe que sempre acontecem enganos com ele, então, certamente, ele não estaria “desenganado” e, consequentemente, sua doença teria cura.

06 – Por que, no contexto, o uso da palavra “desenganado” gera humor?
      Porque o texto apresenta o personagem como vítima de enganos durante toda a sua vida. O médico, ao dar seu diagnóstico, usa exatamente um termo derivado dessa palavra, com um prefixo de negação (des), logo significaria que ele não estaria enganado.

07 – Comente o final da crônica. Como se produziu o humor nessa passagem?
      Novamente houve um engano em relação a ele, desta vez, extremamente complicado: sua operação era apenas de apendicite, mas realizaram a troca de sexo. O humor se estabelece juntamente com a surpresa e o absurdo da situação.



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