terça-feira, 25 de setembro de 2018

CRÔNICA: LINDA DE MORRER - LÉO CUNHA - COM GABARITO

Crônica: Linda de morrer

        O pai resolveu abrir uma funerária.
        --- Tem muita gente morrendo. É negócio de futuro!
        Ao que a mãe acrescentou:
        --- Gente que nunca morreu tá morrendo...
        O filho perdeu a paciência.
        --- Dá pra parar com as piadinhas sem graça? Abrir um negócio não é brincadeira não.
        O pai sorriu condescendente. Sabia que o filho estava bem-intencionado. Mas é que o rapaz tinha acabado de concluir um desse MBAs da vida, e só conseguia raciocinar em termos mercadológicos.
        --- Calma, filho. Você só fala de critérios, métodos, empredorismo... não sei em falar esse troço.
        --- Empreendedorismo, pai.
        --- Pois é. Estou querendo pôr o nome de " funerária Vai com Deus."
        --- Pelo amor de Deus!
        --- Também é bom, mas "Vai com Deus" é melhor.
        --- Não, pai, pelo amor de Deus, não põe um nome desses!
        E olhou ansioso pra mãe, pedindo socorro. A mãe nem tchum.
        --- Acho que é um nome interessante, filho. Diferente. Ousado.
        O pai respondeu:
        --- Imaginem só o slogan: Na hora de morrer, "Vai com Deus".
        A mãe soltou uma gargalhada.
        --- Você dois parem com isso! – o filho já estava vermelho. – Que coisa mórbida! Vamos pensar com um mínimo de...
        --- Empredee... dorismo...
        --- Do... rimos!
        --- Doritos!
        --- Empreendedorismo! – o filho berrou.
        --- Ah é. Quer ver outro nome bom? Funerária sete Palmos...
        --- Passagem de Ida! – a mãe entrou na tabela.
        --- Último Adeus! – o pai emendou.
        Agora os dois já riam solto. O filho olhando pro chão, besta. Já estava calculando os prejuízos.
        O pai não parava.
        --- "Funerária Último Adeus: uma empresa linda de morrer".
        --- Uma empresa linda de morrer! – a mãe, repetiu, saboreando cada palavra.
        --- Linda de morrer... – o filho repetiu, mordendo as palavras. – nem Freud explica vocês dois...
        --- Engano seu, filho. Você sabia que o Freud era fanático por humor negro? Ele adorava o anúncio de uma funerária americana que falava assim: "Pra que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?"
        --- Sensacional! – a mãe já batia as mãos na mesa, de tanto rir.
        --- E lembra aquele cemitério que tinha um slogan assim: "Se você não pode saber quando, sabia   pelo menos onde". Dessa vez, até o filho deixou escapar uma risada:
        --- É verdade. Essa propaganda eu lembro. Engraçado, na época eu achei esse slogan muito bom. É claro que eu não tinha conhecimentos de ...
        --- Perdedorismo...
        --- Predadorismo...
        --- O filho saiu batendo os pés, resmungando para si mesmo: posicionamento, agregação, downsizing, rightsizing e, acima de tudo, empreendedorismo. Seu pai nunca ia mesmo dar conta daquelas palavras lindas de morrer.
                               CUNHA, Leo. Manual de Desculpas Esfarrapadas.
São Paulo: FTD, 2004.p.75-77
Entendendo a crônica:

01 – O que o título “Linda de Morrer”, significa?
      É o nome que seria dado a funerária que queriam abrir.

02 – Quem são os personagens da crônica?
      O pai, a mãe e o filho.

03 – Qual é a palavra que o pai não conseguia pronunciar?
      Empreendedorismo.

04 – Cite três nomes, que eles estavam pensando em pôr na funerária.
·        “Funerária vai com Deus.”
·        “Funerária sete palmos.”
·        “Funerária último adeus.”

05 – Qual a característica principal deste texto?
      Possivelmente, a grande maioria achará o texto humorístico: é divertido o desencontro de opiniões do filho, com relação aos pais; é engraçado o pai não conseguir, mas tentar sempre, falar determinada palavra; é cômica a sequência de nomes aventados para a funerária.

06 – Que recurso o autor usa para dar agilidade ao caso?
      Há um largo uso de diálogos (ou discurso direto), com poucas intervenções do narrador.

07 – Qual o gênero deste texto?
      Crônica, pois se trata de uma situação do cotidiano.

08 – De acordo com o texto, o Freud era fanático por humor negro, qual o anúncio que ele adorava?
      “Pra que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares.”

09 – Quem é o autor e de onde foi tirado a crônica?
      É Leo Cunha. Foi tirado do Manual de Desculpas Esfarrapadas.




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