sábado, 28 de abril de 2018

TEXTO: SEGURA A ONÇA QUE EU SOU CAÇADOR DE PREÁ - JOSÉ CÂNDIDO CARVALHO - COM GABARITO

Texto: SEGURA A ONÇA QUE EU SOU CAÇADOR DE PREÁ


        Não passava de um modesto caçador de preá. Era Bentinho Alves, dos Alves de Arió do Pará. Em dia de semana gastava os olhos no pilulador da Farmácia Brito. Em tempo de feriado consumia as vistas no rasto das preás. Até que resolveu caçar bicho de maior escama:
        --- Comigo agora é na onça! Ou mais que onça! Na tal da pantera negra.
        Foi quando deu em Arió do Pará um doutor de erva aparelhado para fazer os maiores serviços de mato adentro. Mediante uns trocados, o curandeiro botava macaco para desgostar de banana e tamanduá correr com perna de coelho. Bentinho, exagerado, mandou que o especial em erva preparasse simpatia capaz de fazer morrer na pólvora de sua espingarda as caças mais grossas, coisa assim no montante de uma capivara de banhado ou uma onça das mais pintadas. E no ardume do entusiasmo:
        --- Ou mais! É aparecer e morrer.
        O curandeiro tirou uma baforada do covil dos peitos e mandou que Bentinho largasse no rodapé do arvoredo mais galhoso uma figa de guiné de sociedade com fumo de rolo e pó de unha de tatu. Bentinho não fez outra coisa. E montado nessa simpatia, uma quinzena adiante, o aprendiz de botica entrava no mato. E bem não tinha dado meia dúzia de passos já o trabalho do curandeiro fazia efeito na forma de uma onçona de três metros de barriga por quatro de raiva. Bentinho, diante daquela montanha de carne e pelo, largou a espingarda para subir de lagartixa pelo primeiro pé de pau que encontrou na alça de mira. E enquanto subia Bentinho falava para Bentinho:
        --- Curandeiro exagerado! Isso não é onça para aprendiz de farmácia. Isso é onça para doutor formado. Ou mais!
        E voltou para sua caça miúda de preá.

                    CARVALHO, José Cândido de. Os mágicos municipais.
                                      Rio de Janeiro, José Olympio, 1984. p. 24-5.

Entendendo o texto:
01 – Após a leitura atenta do texto, divida-o em apresentação, complicação, clímax e desfecho.
     Apresentação: do início até “... rastro das preás”.
     Complicação: de “Até que resolveu...” até “... pantera negra”.
     Clímax: surgimento da onça e fuga de Betinho.
     Desfecho: último parágrafo.

02 – Qual o tempo verbal que predomina na apresentação? Esse tempo é apropriado para indicar uma situação que se estende ao longo do tempo?
     É o pretérito imperfeito do indicativo (passava, era, gastava, consumia), tempo apropriado para exprimir uma ação que se prolonga por um período de tempo no passado.

03– Qual o tempo verbal que surge ao ter início a complicação? Qual a principal diferença entre esse tempo e aquele que domina a apresentação?
     É o pretérito perfeito do indicativo (resolveu), apropriado para exprimir ações pontuais no passado, ou seja, ações que ocorrem e se encerram num ponto (e não num período) do passado.

04– Releia atentamente o quinto parágrafo do texto e observe os tempos verbais que aí aparecem. Procure justificar seu emprego.
     Pretérito perfeito do indicativo (tirou, mandou e outros) – indica ações realizadas e completas num ponto do passado.
     Pretérito imperfeito do indicativo (entrava, fazia e outros) – indica ações que se prolongam por um período de tempo no passado ou que são concomitantes a outras ações passadas.
     Pretérito mais-que-perfeito (tinha dado) – indica ação passada em relação a outra ação passada.
     Imperfeito do subjuntivo (largasse) – usado numa oração subordinada.

05 – A fala de Bentinho para Bentinho (sexto parágrafo) pode ser considerada uma avaliação da narrativa? Comente.
     SIM, ela tem o valor de uma avaliação de todo o acontecido. Esse tipo de avaliação é, aliás, frequente na estrutura narrativa.

06 – Resuma a narrativa em três momentos: estado inicial, transformações e estado final.
     Estado inicial: Bentinho, pilulador e caçador de preás.
     Transformações: Bentinho metendo-se a caçador de onça e pantera negra; chegada do doutor de erva e realização de sua simpatia; encontro de Bentinho com a pintada.
     Estado final: Bentinho, caçador de preás.

07 – Que tipo de narrador o texto utiliza? Justifique sua resposta com trechos do próprio texto.
     O texto é narrado em terceira pessoa. O aluno deve apontar como justificativa qualquer passagem em que o narrador use a terceira pessoa (pronome ou nome próprio) para designar o personagem (por exemplo, “E montado nessa simpatia, uma quinzena adiante, o aprendiz de botica entrava no mato.”).

08 – O primeiro período de texto nos apresenta o protagonista por meio de uma afirmação. Seu desenvolvimento confirma essa colocação inicial? Comente.
     Sem dúvida. A frase é quase um vaticínio, uma afirmação de um destino ao qual não se pode fugir.

09 – Quem exerce o papel de antagonista?
     A onça.

10 – De que forma é caracterizado o personagem coadjuvante?
     “... doutor de erva aparelhado para fazer os maiores serviços de mato adentro. Mediante uns trocados, o curandeiro botava macaco para desgostar de banana e tamanduá correr com perna de coelho.” Deve-se observar como o autor cria um tipo com rápidas pinceladas.


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