terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA: MEIO AMIGO - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Crônica: MEIO AMIGO

              José Fernandes 


        A conversa estava animada. Cada um defendia as virtudes de seu candidato com argumentos aparentemente irrefutáveis. Até aqueles candidatos que foram garis, engraxates, catadores de papel, e, hoje, são donos de mansões, castelos, bezerros de ouro, poderiam ser postos no altar, sem que o processo de canonização passasse pelos órgãos competentes. Os mais eloquentes diziam-se amigos desse ou daquele que, segundo seus valores, parecia ser o mais virtuoso. De repente, Empédocles se acorda de seu torpor schopenhaureano e vaticina:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt_4aTRqZIpOlmvPrShwexUEYnsjO0c1OCstCEXrHQWM8qvY7k63tQtpvs6Gn4dii8DDTM6fIDJMd7r3qW1Ocwu1hcCA46yKeym7jp9_TWA0gY2MJJ9pqneGrmbJQ76KIit4eappNkwvQhO92ue6gKkHrlrC9p7l7ZJHdlv3KL-Cl0ggEmoFNUTZcvsFc/s320/images.jpg


        — Em política, não há amigos. O que há são pessoas interessadas em cargos e benesses do poder. Aliás, não conheço quem realmente tem amigos. Existem necessidades que, para serem satisfeitas, requerem certos fingimentos sociais que se assemelham à amizade. Uma vez satisfeitas, o amigo fingidor se afasta, e a amizade se desfaz. 

        — Desculpe-me, Empédocles, mas, como você mesmo o disse, isso não é amizade. Para mim, ela é um sentimento profundo que leva as pessoas a se admirarem e a se respeitarem em um nível tal que ultrapassa o meramente humano. Ela é uma concórdia que não repousa, obrigatoriamente, na identidade de opiniões, mas na harmonia do semelhante e, muitas vezes, do contrário. Acima da amizade, só há o amor, que implica uma complementação que se opera em nível metafísico. O amor verdadeiro aproxima o homem dos deuses, à medida que, no ato supremo, ocorre a ultrapassagem do físico, chamado pequeno êxtase, que, na realidade, se configura como transubstanciação, mistério e enigma do bem-querer. 

        — Ora, Filófilo, você está filosofando demais! A humanidade está tão podre que não merece esta ontologia da amizade e, muito menos, do amor, que é apenas uma forma de duas pessoas se fingirem humanas! 

        — Acredito que a humanidade está como está, porque não tem sido pensada, e pensada no amor. Os indivíduos têm agido como se fossem eternos, voltados para si mesmos. Quando se é egoísta, não há lugar para a amizade e, muito menos, para o amor. O egoísta é incapaz de enxergar o outro. Enxerga apenas e unicamente o próprio umbigo. O seu mundo termina na ponta do nariz ou nos números de sua conta bancária. Por isso, ele não pode ter amigos. O egoísta é amigo de si mesmo! É um narciso que ama a própria imagem! 

        Creio que se não houver pessoas em quem pudermos confiar, a quem pudermos amar, a vida perde o sentido, porque todos os bens que a perfazem, são conservados mediante a participação do outro. Queiramos ou não, o outro, a despeito de Sartre havê-lo dito o inferno, é a razão da existência. Empédocles, você já se imaginou sozinho no universo, sem alguém que o ame, em quaisquer dos sentidos que os gregos atribuíam às relações humanas, ao ponto de haver cinco ou seis palavras para designar as diversas acepções do amor e da amizade? 

        — Eu não disse que os homens não necessitam uns dos outros! Disse que tudo não passa de jogos de interesses. Uma vez satisfeitos, não há mais razão para a amizade, uma vez que ela é inteira dependente da sinceridade, e homem, hipócrita como é, não calha com lealdade, com lhaneza. Caro Filófilo, Machado de Assis é que estava certo quando, em Memórias póstumas de Brás Cubas, no capítulo Das negativas, disse: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e um filósofo, de quem não me lembro o nome, disse que a humanidade é um mal incurável. Ora, se a humanidade não presta, essa história de amizade e amor, de fidelidade e gratidão, passa a ser história para boi dormir.

        — Empédocles, apesar de você ser inflexível, de meus argumentos lhe parecerem obsoletos, ou absurdos, para mim, o pior ato praticado por um ser humano é a ingratidão. Se alguém me tiver feito algum bem, seja ele qual for, serei sempre reconhecido. A amizade que se acaba, como já dissera Aristóteles, é aquela fundada na utilidade e no prazer. Aquela que tem por sustentáculo o bem, a gratidão e a fidelidade, dura sempre, porque traz em si um outro bem que manifesta a humanidade do homem: a verdade. 

        — Ora, Filófilo, você não tem de ser fiel a vida toda, só porque seu amigo lhe fez um favor! Você é ingênuo demais! Acredita em coisas que existem apenas em sua imaginação. Onde já se viu acreditar na humanidade?! Entre humanos só existem meias amizades! 

        — Caro Empédocles, na minha concepção, existe meio mamão, meio abacate, meio da rua, meio de campo, meio da ponte; mas meio amigo, não. Como não há meio gol, meio grávida, meio seguro, também não existe meio amigo. Ou se é amigo, ou não se é! Adjuva nos, Domine!

José Fernandes.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o estopim da discussão entre os personagens e como o cenário inicial se conecta com a tese de Empédocles?

      O debate começa com uma conversa animada sobre política, onde as pessoas defendiam fervorosamente as "virtudes" de seus candidatos (inclusive criticando o enriquecimento rápido de alguns deles). Esse cenário de exaltação política serve de gancho perfeito para Empédocles intervir, pois, para ele, a política é o maior exemplo de que as relações humanas não são movidas por afeto, mas sim por interesses egoístas, cargos e benefícios.

02 – Como Filófilo conceitua a verdadeira amizade e o amor, diferenciando-os das relações utilitaristas?

      Para Filófilo, a verdadeira amizade é um sentimento profundo de admiração e respeito mútuo que supera o nível puramente humano, operando na harmonia entre semelhantes ou contrários. O amor estaria ainda acima, funcionando em um nível metafísico de complementação ("transubstanciação"). Para ele, essas relações só existem quando se supera o egoísmo e se é capaz de enxergar o outro de forma genuína.

03 – Empédocles utiliza referências literárias e filosóficas para sustentar seu pessimismo. Quais são elas e o que defendem?

      Ele é descrito inicialmente em um "torpor schopenhaureano" (referência ao pessimismo do filósofo Arthur Schopenhauer). Mais adiante, ele cita explicitamente Machado de Assis na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, relembrando a célebre frase sobre não transmitir a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria". Ele usa essas bases para defender que a humanidade é hipócrita, incurável e que sentimentos como fidelidade e gratidão são apenas ilusões ou "histórias para boi dormir".

04 – De acordo com Filófilo, por que a humanidade chegou ao estado de "podridão" mencionado por seu colega?

      Filófilo argumenta que a humanidade está degradada porque "não tem sido pensada no amor". Segundo sua visão, as pessoas têm agido de forma puramente egoísta, como se fossem eternas e voltadas apenas para si mesmas (olhando apenas para o próprio umbigo ou conta bancária). Para ele, o egoísmo cega o homem, impedindo-o de vivenciar a amizade verdadeira.

05 – Qual contraponto Filófilo faz à famosa frase de Jean-Paul Sartre de que "o inferno são os outros"?

      Embora reconheça a perspectiva existencialista de Sartre, Filófilo defende que, queiramos ou não, "o outro é a razão da existência". Ele argumenta que a vida perde totalmente o sentido no isolamento completo, pois todos os bens e experiências que tornam a vida plena dependem obrigatoriamente da participação e do compartilhamento com o outro.

06 – Como a visão de Aristóteles sobre a amizade é utilizada no texto para mediar o conflito entre os dois debatedores?

      Filófilo cita Aristóteles para dar razão parcial a Empédocles, explicando que as amizades que realmente acabam e se desfazem são aquelas fundadas exclusivamente na "utilidade" e no "prazer" (o jogo de interesses que Empédocles tanto critica). No entanto, Filófilo usa o filósofo grego para provar que existe outro tipo de amizade: aquela baseada no bem, na gratidão e na verdade, que é eterna.

07 – Qual é o argumento final de Filófilo que justifica o título da crônica "Meio Amigo"?

      Filófilo encerra o debate rejeitando categoricamente a expressão "meia amizade" usada por Empédocles. Ele argumenta através da lógica dos absolutos: assim como existem coisas que admitem metade (meio mamão, meio de campo), existem conceitos que são binários — ou existem plenamente ou não existem. Para ele, "amigo" entra na mesma regra de "grávida" ou "gol": não existe meio termo. Ou se é amigo por inteiro, ou não se é amigo de forma alguma.

 

 

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