Conto: História de Passarinho
Lygia Fagundes Telles
Um ano depois, os moradores do
bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que enlouqueceu e sumiu de
casa.
Ele
era um santo, disse a mulher abrindo os braços. E as pessoas em redor não
perguntaram nada e nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era
um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único,
tudo. E se mandou Deus sabe para onde.
Só
pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar
inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo
começou com aquele passarinho, começou com o passarinho.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLsS4xuxVHU4_NDepxiE1YBT_gdQJxdazGDM2AvH0zQzI_YUZdXAQ5ts0jYv2b_u3qsRekLenPkRRTeMOdPIpy9JVW6tlnf5zAVUGdHF_pDfb10lzqtG7JZ6ZAR5g_XBp5HNhdvIWy6_0dgqS_BNfPl0JqDgjwKygwZHGbD4UF_wjoEqliH7tTZm6X6GQ/s1600/download.jpg Que
o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô, Pai! caçoava o
filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!
O
homem ruivo introduzia o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a
cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa
a plumagem de um amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.
Não
sei, filho, deve ter caído de algum ninho, peguei ele na rua, não sei que
passarinho é esse.
O
menino mascava chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem
marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.
Em
verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele estava
certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas
em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho cresceu, o
homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e
ele.
Ai!
o canto desse passarinho, queixava-se a mulher. Você quer mesmo me atormentar,
Velho. O menino esticava os beiços, tentando fazer rodinhas com a fumaça do
cigarro que subia para o teto, Bicho mais chato, Pai, solta ele.
Antes
de sair para o trabalho, o homem ruivo costumava ficar algum tempo olhando o
passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora
pousando num pé ora noutro e cantando como se não pudesse parar nunca mais. O
homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era a despedida e o
passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para a
carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas
contra as grades, fugir, fugir. Algumas vezes, o homem assistiu a essas
tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico
ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá
fora é diferente e agora é tarde demais.
A
mulher punha-se então a falar, e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas
todas que quisera ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela
viagem para Pocinhos do Rio Verde e o trem prateado descendo pela noite até o
mar. Esse mar que, se não fosse o pai (que Deus o tenha!), ela jamais teria
conhecido, porque em negra hora se casara com um homem que não prestava para
nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.
Ele
continuava com o livro aberto no peito, gostava muito de ler. Quando a mulher
baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta
fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que
se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da
mão. Decorridos os cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia
mesmo, ela se calava, exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa, Vai, Velho,
o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade avançada eu fosse trabalhar
tanto assim. O homem ia tomar o café.
Numa
dessas vezes, esqueceu de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto
para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se no
degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão.
Quando
amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava
o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz.
Por entre o pelo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena
amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se
para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo
quando o menino, que presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho burro! Fugiu
e acabou aí, na boca do gato?
Calmamente,
sem a menor pressa, o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e
levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar
olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas, ele até que parecia contente, Mãe, juro
que o Pai parecia contente, juro!
A
mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.
Quando
formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a contar isso tudo, mas não achou
importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem
alto, nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou também que
estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito?
E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto
e não olhou para trás.
In: “Cadernos de Literatura Brasileira
nº. 5”, editados pelo Instituto Moreira Salles, 1998.
Entendendo o conto:
01 – O que aconteceu com o homem de cabelo
ruivo um ano antes do momento em que a história é contada?
Um ano antes, o homem ruivo abandonou de repente tudo o que tinha — sua casa, seu emprego no cartório e seu único filho — e sumiu sem deixar rastros. Os moradores do bairro comentavam que ele havia enlouquecido.
02 – Como era o passarinho quando o homem ruivo
o encontrou e o que o filho achava disso?
O passarinho foi achado na rua, tendo provavelmente caído de um ninho. Ele era um filhote todo arrepiado, com pouca plumagem de cor amarelo-pálido e algumas peninhas cinza-claro. O filho caçoava do pai por ele não saber dizer se o bicho era um canário ou um pintassilgo, criticando-o por "não saber nada".
03 – Como o passarinho se comportava quando o
homem ruivo se despedia dele para ir trabalhar?
O passarinho cantava intensamente com as asas trêmulas e vinha receber o carinho do homem na grade da gaiola. Porém, assim que o homem se afastava, o animal se atirava desesperadamente contra as grades tentando fugir, a ponto de ficar exausto, com o peito palpitante e o bico ferido.
04 – Sobre o que a esposa do homem ruivo
costumava reclamar durante "uns cinquenta minutos"?
Ela reclamava de todas as coisas que gostaria de ter tido e que ele não havia lhe dado. Ela mencionava com frustração uma viagem para Pocinhos do Rio Verde e dizia que tinha se casado em "negra hora" com um homem que não prestava para nada.
05 – Como o passarinho conseguiu escapar da
gaiola e qual foi o seu trágico destino?
O homem ruivo esqueceu a portinhola da gaiola aberta em uma noite. O passarinho fugiu, mas acabou sendo devorado pelo gato da vizinha. Na manhã seguinte, o gato apareceu sonolento e feliz, deixando escapar de seu pelo negro uma peninha amarelo-acinzentada.
06 – Qual foi a reação do filho e qual foi a
reação do homem ruivo ao descobrirem que o gato havia comido o passarinho?
O menino desatou a rir e chamou o pássaro de burro por ter fugido e acabado na boca do gato. Já o pai, calmamente e sem pressa, recolheu a peninha do chão, guardou-a no bolso do casaco e exibiu uma expressão tão estranha que parecia de contentamento, o que fez o menino parar de rir.
07 – Que detalhes físicos e de comportamento
sobre o pai o menino notou no momento da partida, mas decidiu esconder dos
vizinhos?
O menino percebeu, pela primeira vez, que o pai era um homem
alto. Ele também estranhou o andar do pai, que agora era firme e reto, bem
diferente de antes. Ao ir embora, o homem ruivo deixou o portão aberto e
simplesmente não olhou para trás.
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