Conto: A PRINCESA E O ANJO NEGRO
David Gonçalves
Eram
sete irmãs. Seis se casaram. Menos uma. E a mais bonita. Filhas de um pequeno
comerciante, que a todas reservou boa educação e dote considerável. Pouco
comum, naquele tempo, as mulheres frequentarem escolas. Mas elas frequentaram
ensino pago. O pai não poupou esforços. Trabalhava no velho armazém como
escravo. Ele sabia que não era fácil casar uma filha que não tivesse boa
educação e uma quantia razoável de moedas. Até à sua morte, durante mais de
quarenta anos, quem passasse pela rua, podia vê-lo trabalhando até altas horas.
Costumava-se dizer, que ele tinha calos na barriga de tanto esfregá-la no
balcão.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgHQ8DOq6JLT5l3kRUSa5VTuLzzWD5YZLvd0Vb5MShqUAH9j8_RfKFtxPBWm4B4VKMGas6GxRdZFBujHbg4zNhMZljr19Zzz1asBL1In84v0M1HXwshG36vf05UDZopSB7rSZ77X4VjWvORRchNDTRKPaUq6ome7u-hOURzv8M5kN2pqKUv1okQ_nYBRbA/s320/DESTAQUE.jpg A
todas elas, choveram pretendentes. Afinal, que moço de nossa região não
desejava uma oportunidade desta? Todas belas, nenhuma com defeitos
graves, a não ser umas pintas aqui e acolá, que ajudavam a deixá-las mais
bonitas. Maria, Judite, Lindalva, Rosa, Elisa, Joana e Francisca. Dos dezoito
anos aos vinte, uma a uma foi-se casando, deixando o ninho. Mas Lindalva,
talvez a mais bela, não deixou.
Todos
se perguntavam: o que havia de estranho? Por mais que indagassem, nada era
visível. E isto atiçava a curiosidade de nossa gente. Somos uma espécie de
seres aguçados pela magia que o desconhecido proporciona.
Desde
pequena, Lindalva destacava-se das outras. Conforme crescia, tornava-se mais
exigente. Enquanto as irmãs contentavam-se com a vida simples da pequena
cidade, ela criava ares de importância. Para ir à escola, vestia-se com esmero.
Penteava-se lentamente, colocava flores nos cabelos negros, como se fosse já
moça.
As
outras meninas brincavam no pátio da escola, sujavam-se, algumas até brigavam e
voltavam para casa com rasgões no uniforme. Lindalva não se misturava com as
meninas, muito menos com os meninos. As professoras a tratavam com mimos. Era o
exemplo na higiene, no comportamento e nas avaliações. Seus cadernos eram
diferentes, cheios de florzinhas e cores do arco-íris. Enquanto as meninas tagarelavam,
ela postava-se numa velada educação.
-- Por que não fazem como Lindalva? – esbravejava a professora de Arte.
– Olhem para ela: está sempre limpa, traz as tarefas em dia!
Por
isso era odiada. Qual criança gosta de ser comparada com outra? Em pouco tempo,
andava só. Ninguém queria fazer-lhe companhia. Sinceramente, andar com ela
seria como ficar no meio de fogo cruzado.
Mesmo
ainda uma criança – nem completara treze anos –, começou a encher-se de
perfumes, que ela sorrateiramente pegava das prateleiras do armazém. Tomava
longos banhos, como se fossem rituais. Desde esta idade, entregou-se a uma
verdadeira loucura por roupas. Todas as meninas apreciam roupas bonitas, mas
com ela era diferente. Procurava destacar-se pelo charme e a novidade. Devorava
as revistas de moda e procurava colocar-se na vanguarda. A moda nem tinha
chegado ao Rio de Janeiro ou São Paulo, ela já estava atormentando as
costureiras para copiar os modelos. Isto, sem dúvida, espantava a cidade.
Em
grupo, falavam coisas e coisas dela, mas, no íntimo, tinham certa inveja.
Chegava a ser até mesmo ridículo. Mas logo outras mocinhas começavam a
imitá-la. Todas as suas conversas giravam em torno das novidades da moda e de
seus caprichos. Tornava-se chata. Era amada escondidamente e também odiada.
Aquilo,
entretanto, logo se revelou uma verdadeira paixão. Seus olhos brilhavam. A
mesada que recebia dos pais era consumida nestas extravagâncias. De noite, por
diversas vezes, foi pilhada cortando metros de fazenda do armazém do pai, como
ladra. Até mesmo caçar borboletas, como se deu com o velho alemão Fritz Walden,
pode tomar conta do coração e se transformar numa paixão. Já não se trata de
algo domável, mas de uma obsessão, uma espécie de doença.
Dizia às irmãs:
-- Vocês são bobas! Se agarram, desesperadas, ao primeiro homem que
aparece. Até parece que o homem é uma tábua de salvação! Tolinhas...
As
irmãs riam. O fato é que elas, apesar de bobinhas e desesperadas, como Lindalva
apregoava, estavam casando. Não aguardavam o príncipe encantado. Queriam homens
trabalhadores e que as tratassem bem. Mas Lindalva, a cada dia, tornava-se mais
exigente.
As
mulheres, então, usavam as roupas por muitos anos. Não era só para uma estação.
O comerciante vendia peças inteiras, fechadas. Lindalva usava no máximo três
vezes, depois abandonava as peças e ia atrás de outras novidades. Para cada
ocasião, um traje. Batizados, casamentos, missas, visitas – tudo exigia um
traje diferente.
Conselhos
da mãe não lhe faltavam. Os pretendentes apareciam, logo sumiam. Desprezava-os,
tratava-os como chinelos gastos.
-- O que você quer, afinal? – perguntava a mãe, aborrecida. – Um
príncipe encantado? Isto só acontece nas histórias de fada, sua bobinha! Pelo
que sei você não é nenhuma fada, com a varinha mágica...
Ela
rebatia:
-- Não me casarei com um pé-rapado! Eu me valorizo. Não devo ter pressa,
posso esperar.
-- Beleza não se põe em mesa, filha! Olha suas irmãs: nenhuma está
aflita, estão bem casadas e muito contentes.
-- Elas não são finas. Sequer sabem usar roupas. Estão gordas e
deformadas. Eis o que o casamento com esses brutamontes lhes rendeu. Eu não
quero ficar assim, como tamborete.
-- Menina, olha o que diz! Elas trabalham com seus maridos. Estão indo
muito bem. Querem fazer o pé de meias. Nada mais justo.
-- Ora, mamãe, de que adianta bom pé de meia, cofre cheio, se o corpo se
parece com um sapo, uma mulher doente? Se é para envelhecer antes do tempo, a
pretexto de servir maridos e angariar fundos, prefiro continuar sozinha.
-- A juventude, filha, é uma flor delicada, logo se desfaz. Dela, só nos
restam as lembranças... Olhe para mim: pensa que sempre tive essas rugas, esses
cabelos brancos, essa barriga forrada de gordura? Sem falar das varizes que me
torturam... A juventude é uma ilusão...
-- Ah, mamãe, você ficou assim porque trabalhou demais, quase se matou
para nos criar. É justamente isto que eu não quero! A velhice é um fantasma que
me assusta, me persegue!
-- Crie juízo, menina: a beleza é uma espécie de promessa da felicidade.
De que adianta a alguém tanta formosura se não tem cérebro? Ela é passageira,
filha, e é um bem frágil.
-- Oh, mamãe, só não quero envelhecer antes do tempo, como acontece com
as minhas irmãs.
Desesperada,
a mãe desistia dos conselhos. Dava de ombros e pensava: “Com o rolar dos dias,
ela mudará de opinião. Não tem juízo. O amor ainda não tocou o seu coração.”
Mas
não foi isto que aconteceu.
Mulheres
precisam de maridos. Quem escolhe muito acaba sozinha. Os dias passavam e
Lindalva dedicava-se a certas extravagâncias. Sua beleza resplandecia e deixava
os moços apaixonados, e as moças com inveja.
Choviam
pretendentes. Muitos eram atraídos pelo dote. Nem todas as jovens tinham esta
vantagem. As pobres casavam-se ou se amancebavam por circunstâncias: nada
tinham que ofertar a não ser noites quentes de amor e trabalho escravo.
Precisavam ajudar os seus homens no sustento da casa. Podres de cansaço, elas
tinham por obrigação oferecer a mesa posta e bons momentos de cama. Com
Lindalva, o dote funcionava como visgo aos homens que vinham de longe, sempre
bem arrumados. Mas ela os refutava.
-- Parece um moço tão distinto! – observava a mãe.
Ela
dava de ombros.
-- Não gostei.
-- Do que não gostou? O que espera encontrar nos homens? São todos
iguais. São brutos e ignorantes. De noite, não querem saber de beleza alguma.
Querem ser satisfeitos!
-- Ele tem tufos de pelo no nariz. Isto, sinceramente, me dá nojo. Se
tem pelos no nariz, também tem nas costas. Não quero me casar com um lobisomem!
Deus me livre!
Para
outro pretendente observou:
-- Cheira igual a um bode.
-- Ora, qual homem que não exala suor? Só se for um maricão... E as
mulheres também fedem.
-- As vulgares, talvez. Eu não me incluo nesta gentinha.
-- Do que pensa que é feita? Por acaso, nas suas veias corre água de
colônia? Somos barro.
-- Seja o que for, não quero um bode velho na minha vida.
Quanto
mais desprezava, mais eles se apaixonavam. Os homens gostam das flores que não
conseguem colher. Muitos, sofrendo, desapareciam chapadão afora, tresloucados,
e nunca mais pisavam o chão da cidade. Havia o que cobiçava o dote e
aquele que se deixava dominar pela força daqueles olhos negros.
Por
esta ocasião, os habitantes começaram a chamá-la de Princesa. Não era elogio,
mas destrato. Talvez inveja, talvez despeito. Ou chacota. As más línguas não
cochilam.
-- O que a Princesa procura?
Respondiam
maldosamente:
-- A geada do ano passado.
Ora,
como se as geadas pudessem ser guardadas de um ano para outro! Quem sabe, ela
queria o impossível.
Choviam
ironias:
-- Está esperando um anjo cair do céu.
Mas
anjos não habitam o terreno dos mortais.
As
casadas, rodeadas de filhos, frequentadoras da igreja, já envelhecidas pelos
descuidos e intempéries, invejosas, destilavam veneno puro, cobras peçonhentas.
-- Toda princesa se transforma em bruxa. Deus nos livre!
Benziam-se.
-- Quem sabe, à noite, o seu rosto fica salpicado de verrugas...
Mas
não ficava. O problema é que os anos passavam e a Princesa não percebia. Quando
uma mulher não se casa, ela passa a criar horror pelos espelhos. Aparecem os
primeiros cabelos brancos e normalmente sobrevém o desespero. Com Lindalva,
nada disso acontecia. A cada dia, surpreendia a cidade com novas roupas e novos
perfumes, e parecia mais bonita. Por onde andava, um cheiro de colônia pairava
sobre as pessoas e as deixava inebriadas.
Suas
amigas estavam casadas e ela se sentia só. As moçoilas não gostam de passear com
alguém mais velha. A conversa não flui e também há o medo de que a companhia de
uma solteirona dê azar... E tinha o ar esnobe: ninguém a acompanhava nas
roupas, nos perfumes, nas peças de teatro que se apresentavam nas grandes
cidades. Ela estava muito acima das moças que desejavam arrumar um bom marido.
Completara
trinta anos. Estava pouco ligando para a idade. Embora fosse objeto de baixo
falatório, ela continuava bela. Quando todos pensavam que o seu destino era a
terrível solidão de solteirona, deu-se o inesperado: apareceu um raro
pretendente. Vestia-se de preto. Sua cabeça sustentava um chapéu preto de abas
largas. Veio do nada. Dava passadas altivas, como se desfilasse numa passarela,
com todas as pompas. Suas calças eram bem vincadas e as botas de tacos fortes
rebatiam no calçamento e produziam um barulho de aço.
-- Pelo sim, pelo não, aqui estou e só levarei o que vim buscar! – disse
numa fala empolada, cheio de altivez.
Era
um domingo à tarde e fazia muito calor. Os jovens tinham como hábito passear
pela rua central. Lá estava a princesa, sozinha, indo de um lado a outro, com
sua beleza insólita, como se esperasse por alguém, quando o cavalheiro negro se
aproximou e, fazendo esquisitas mesuras, com um sorriso largo e desproporcional
sob o bigode negro, foi dizendo:
-- Sou o teu anjo. Vim buscar-te.
Todos
esperavam o desprezo usual de Lindalva. Afinal, ela tinha repudiado centenas de
jovens. Algo estava para acontecer e todos previam o pior. Aquele pobre coitado
sairia do encontro com o rabo entre as pernas. Os cochichos e risos abafados já
soavam nos pequenos grupos de moças.
Perplexa,
a população domingueira viu a Princesa dar-lhe o braço e, sorridente,
acompanhar o estranho cavalheiro rua acima.
-- Ora, pois, finalmente o pé esquecido achou o seu chinelo – alguém
balbuciou no meio da rua.
-- Antes tarde do que nunca. Para nós, homens, há sempre uma armadilha
preparada – comentou outro, sem explicar o que havia dito.
Os
comentários correram soltos na rua central. Algumas moças diziam que ela o
apanhara por desespero. Que tipo de homem era aquele cavalheiro vestido de
preto? Ninguém sabia dizer de onde vinha e muito menos se tinha alguma posse.
Os moços que haviam sido desprezados por ela soltaram a língua de trapo; as
mulheres, casadas ou não, teceram fuxicos apimentados.
-- Será que ela, enfim, desceu do pedestal?
-- Por que desceria? Ela nunca teve necessidade alguma de se mostrar
humana. Deve ser fria como uma pedra.
-- Provavelmente, ela conheceu a verdade.
-- Que verdade?
-- De que é muito difícil uma mulher bonita se achar realmente bonita
quando a juventude declina.
Brotavam
hipóteses.
-- Quem é o jovem cavalheiro?
Ninguém
sabia.
Será
que ela tinha este caso há tempo, por isso, não mostrava interesse por ninguém?
Bem, ela sempre viajava para as cidades grandes. Com certeza, conhecera-o numa
dessas viagens. Por que não? Mas por que ela manteve aquele segredo durante
tanto tempo? Isso ninguém sabia.
-- Caprichos de mulher...
Todos
estavam boquiabertos. Alguns seguiram o casal rua afora. Mas, de repente, como
o vento, as silhuetas desapareceram, sob a leve poeira esparzida no ar abafado
daquela tarde de domingo. Esconderam-se num fundo de quintal, num beco
despovoado – foi a conclusão dos curiosos. Ninguém desaparece de um momento
para outro, assim-assado!
Fomos
à casa dela. Os pais, já envelhecidos, de nada sabiam. Disseram que ela saíra
para o passeio de domingo.
Ela
não apareceu naquela noite, muito menos nos dias seguintes. Uma intensa busca
se desenrolou pela região, mas ninguém a tinha visto. Foi um grande alvoroço.
Todos tinham as suas opiniões sobre o fato, mas não passavam de especulações.
Nunca a cidade presenciara algo parecido.
-- Pobre coitada! – diziam as mulheres. – Ela percebeu que só havia um
jeito de sair do buraco: cavando outro buraco...
Depois
daquele domingo, uma década se passou e ninguém ouviu notícias da Princesa.
Muito se falou dela e do estranho cavalheiro negro, que a raptou. Sim, é o que
se divulgava: ela fora raptada.
Outros
acontecimentos foram possuindo nossas cabeças e a vida seguia o seu curso. O
que há de se fazer? A vida segue em frente. Até sobre a família dela os
comentários cessaram. Pais e irmãs sabiam o seu paradeiro? Provavelmente, não.
Eles se fecharam em conchas. Sofriam, encolhiam-se resignados ao completo
silêncio. E todos compreenderam que a ferida sangrava, por isso evitavam fazer
comentários. Seis filhas viviam nas redondezas, casadas, um rol de filhos,
ajuizadas e benquistas na comunidade. Uma, talvez a mais bela, encabeçara
diverso rumo. O que fazer?
-- Os dedos da mão são iguais?
O
velho comerciante, após a partida dela, fechou as portas do armazém. Não tinha
mais vigor para tocar o negócio. Trabalhara tanto para dar boa educação às
filhas e, na velhice, o mundo ruíra aos seus pés. Sentia-se fraco, com dores
nas pernas e tropeçava facilmente, como se elas, sem comando, bambeassem. A
última vez que o, vi estava numa cadeira de rodas, babava, e dizia palavras
desconexas. Numa manhã de inverno, morreu. O enterro se deu sem alvoroço.
A
cidade também se transformara. Havia uma revolução de conhecimentos no campo.
Os costumes milenares no trato da terra foram substituídos de forma inesperada.
Já não se cortava o trigo com ancinhos. Mas com colheitadeiras potentes.
Abandonou-se a enxada. Os tratores reviravam a terra e, ao mesmo tempo,
semeavam, distribuindo o adubo na quantidade certa. Os pequenos agricultores –
proprietários e meeiros – foram expulsos de seus sítios. Nas cidades,
aglomerou-se um bando de gente que, antes, era dedicada ao trabalho, mas que,
diante das circunstâncias, não sabia fazer mais nada. Por isso, esse bando de
gente andava de um lado para outro, vagabundeando, muitos bebiam pelos botecos
e seus filhos iniciavam-se nas drogas.
-- O ócio destrói – afirmou um professor, revoltado, pois a escola, que
era até então um lugar sagrado, tornara-se, repentinamente, um lugar onde não
havia respeito e alunos ofendiam professores em público.
Essa
gente queria trabalhar, mas não havia o que fazer. Eram acostumados ao trabalho
duro no campo, de sol a sol. Mas os tempos haviam mudado: o campo ganhava
produtividade, porém eles conheciam a miséria, e seus filhos eram criados em
periferias das cidades junto com ratos e lixões.
Eis
que, do nada, desembargou na rodoviária a Princesa. Chovia muito naquele dia. Uma
névoa branca cobria a cidade e uma camada fina de lama vermelha tingia as ruas.
Junto dela, uma garota de treze anos. Do bagageiro, desceram na plataforma
pesadas malas. Ambas trajavam-se com requinte, com enormes brincos pendurados
nas orelhas e sapatos de tacos altos, impróprios para a ocasião.
-- Sabe quem é a fulana? – perguntou-me o dono do restaurante, onde eu
acabara de digerir saborosa refeição caseira.
Olhei-as.
Não acreditei no que via.
-- É a Princesa! – exclamei surpreso e tomado pela curiosidade. – O
fantasma volta ao seu chão!
-- Veja como elas andam! Eu diria que elas têm a rainha na barriga...
Nunca vi tanta vaidade...
-- Não mudou nada.
-- Você as conhece?
-- Uma, pelo menos.
Fiz
questão de ajudá-las a carregar as malas.
-- Para onde vão?
-- Ora, para casa – disse-me, enquanto se colocavam na minha frente e
caminhavam com altivez. – Vamos, filha!
-- Mamãe, o que viemos fazer aqui neste fim de mundo? Por acaso, essa
gente está ainda na pré-história?
Ela
ralhou entre dentes:
-- Vá em frente! Não estou disposta a dar explicações.
Estava
mais velha. Mas não perdera o brilho da formosura.
Uma
velha criada a recebeu. Vivia só. Logo que morrera o comerciante, também se
findara a esposa. E a criada ficou morando na casa, que era parede e meia com o
antigo armazém.
Deixei-as
na porta. Embora ardesse de curiosidade, nada descobri. Retornei ao restaurante
e já senti que a notícia se espalhara. Nossa cidade, embora tivesse hábitos
novos, despertou-se rapidamente diante do inesperado retorno da Princesa. O
assunto estivera adormecido durante uma década, como brasas sob cinza. De
repente, bastou um leve sopro e elas se avivaram.
-- O que a traz de volta? Sumiu sem levantar poeira e voltou como se
nunca tivesse pisado por aqui. Há coisas nesta história. Ninguém faz isto à
toa...
E
as especulações começaram. A língua espicha porque não tem ossos. Por onde
andara naqueles anos? Por que, enfim, voltara? Quem era o pai daquela menina?
Que fim tivera o cavalheiro negro que a raptara naquela tarde ensolarada de
domingo? Boatos circulavam.
Aguardávamos
impacientes o relato da sua longa ausência. Queríamos ouvir de sua boca e não
através de mexericos. Para surpresa geral, ela se enfiou naquela casa e não
saiu sequer na porta da rua. Víamos a criada arrastando as pesadas pernas
gordas saindo com um cesto para fazer as compras, mas nenhum sinal dela. De
nada valia perguntar à criada. Estava surda por causa da idade.
Restava-nos
a visita das irmãs. E, de fato, isto aconteceu. Quando indagadas, diziam:
-- Perguntem a ela! – e se fechavam.
A
filha, entretanto, surpreendeu-nos. Frequentando a escola, em poucos dias ficou
conhecida. Tinha os mesmos hábitos da mãe quando jovem. Roupas novas, joias,
perfumes, o ar esnobe, o culto à beleza. E falava com certa petulância,
colocando-se num pedestal. Uma cópia perfeita. Logo ficou odiada e comentada. Os
meninos a admiravam e se apaixonavam; as meninas destilavam veneno em suas
línguas afiadas. Quando falava sobre as viagens que fizera com a mãe,
tornava-se indigesta e criava ciúmes na plateia que nunca havia viajado.
-- Paris! Paris! Aquilo que é cidade! O berço do amor e da poesia...
Haveria
algum dote para ela? Princesa retornara com algum baú cheio de ouro? Suposições
e mais suposições.
Vi
a cidade voltar àqueles anos em que a Princesa desfilava altiva pelas ruas, desprezando
jovens apaixonados e causando furor nas amigas, à espera de seu anjo, o
cavalheiro negro.
Perguntaram,
certo dia, a Elizabeth por que não se casava. Respondeu com desprezo:
-- Com esses bodes velhos? Nem morta! Esses homens pré-históricos são
capazes de agarrar a mulher pelos cabelos e a arrastarem pelas ruas como
troféu. Espero por algo melhor...
As
moças de sua idade foram casando-se. Elizabeth, como a mãe, vivia sozinha, num
pedestal. As más línguas a chamavam de Elizabeth, a rainha, já que não podiam
chamá-la de princesa.
-- Se não gosta daqui, por que não vai embora?
Não
havia resposta.
-- O que está esperando?
-- Espero por um anjo.
Por
esta ninguém esperava. Um anjo! Mas que besteira! Anjos não habitam a terra.
-- O fruto não cai longe da árvore – diziam as mulheres que conheciam a
Princesa desde pequena.
-- Só se for o Anjo Negro!
Elizabeth
sacudia os ombros, desdenhando.
-- Seja o que for. Espero por ele.
Espalhou-se,
de forma abrupta, que ela era fruto de alguma bruxaria. Quando os capuchinhos
vieram à cidade para fazer uma lavagem dos pecados, apreensivos, eles foram à
casa da Princesa para administrar as bênçãos. Semana Santa, quarta-feira, três
deles bateram à porta, mas em vão. Não foram recebidos. Pacientes, esborrifaram
água benta nos oitões e a água benta ferveu, evaporando. Eles saíram
apressados, como se fugissem de uma legião de demônios, deixando as fiéis
beatas apavoradas.
Na
sexta-feira, quando caminhávamos para a celebração do calvário, depois de
jejuar até o meio-dia, Elizabeth – com roupas novas, coloridas, pulseiras
brilhantes – caminhava alegre na avenida. Parecia que ia para uma festa. Por
onde passava, um lastro de colônia pairava no ar, inebriando. Aquilo era um
verdadeiro sacrilégio. Mulheres se benziam e caminhavam sôfregas sem olhar para
trás.
Então,
para nosso espanto, no meio daquela pequena multidão que caminhava em direção
da igreja naquele dia santo, surgiu um cavalheiro negro com um esquisito
sorriso sob o bigode espesso, de chapéu de abas largas, e no meio de todos,
depois de fazer mesuras, disse com a voz empolada e em bom tom:
-- Aqui estou, minha rainha.
Estávamos
paralisados.
-- Sou o teu anjo. Vim buscá-la.
Elizabeth
agarrou-se ao seu braço e, numa conversa elegante, mas abafada, como antigos
amantes, caminharam rua afora. Depois, sem deixar vestígios, desapareceram.
Apavorados,
não tivemos dúvidas: era obra do demônio. Quem vira o cavalheiro negro, quando
viera buscar a Princesa, não se cansava de dizer:
-- É o Anjo Mau. Eu vi. Repuxava as orelhas como Belzebu. Aquele chapéu
é para esconder os chifres!
No
sábado santo, algumas pessoas picharam a casa da Princesa, com nomes feios,
excomungando-a. Mas ela não abriu a porta e muito menos apagou as ofensas das
paredes.
Passou-se
mais uma leva de anos. O esquecimento cobriu nossas cabeças. Tudo muda. O mundo
é móvel e a vida segue em frente.
Sempre
que passava por perto da casa da Princesa, eu parava, perscrutando. Estaria
viva ainda? A criada surda morrera. Urubus nunca pousavam naquele telhado. E
ela nunca abria as janelas.
E
um desses dias, em que dava minhas caminhadas, uma janela se abriu,
inesperadamente, e vi alguém chamando. Fiquei perturbado. O chamado era para
mim. Não havia mais ninguém por perto. Não esperava que alguma janela do velho
armazém se abrisse. Belisquei meu braço para ver se estava consciente. Um vulto
me chamava. Caminhei trôpego, com chumbo nas pernas. Fosse outro, teria fugido.
Ao me aproximar da janela, vi o que não via há anos: a Princesa.
-- Senhor, por favor, preciso de sua ajuda...
Abriu-me
a porta, que ringiu demoradamente. Mandou-me sentar. O sofá antigo e empoeirado
tinha até teias de aranha.
-- Oh, desculpe a desordem... Depois que a criada se foi...
Estava
curvada e enrugada. Rosto cheio de verrugas e cabelos brancos descuidados.
Deixara de pintá-los. Andava com dificuldade. Comunicou-me:
-- Quero vender tudo o que tenho. Não tenho a quem deixar os meus
pertences. Devem valer uma fortuna.
E
me mostrou os casacos de peles, os tapetes persas e chineses, as roupas
íntimas, as joias, uma coleção de sapatos, uma infinidade de lenços e vestidos,
todos bem dispostos como se estivessem em uma vitrine.
Fiquei
aturdido. Quem compraria aquelas roupas de quarenta anos? Eram vanguarda,
então, mas o que fazer com elas hoje? Ela tinha peças íntimas que nunca foram
usadas. Ao menor toque, com certeza se desintegrariam como poeira. O cheiro
nauseabundo de naftalina me provocava dor de cabeça. Assim mesmo, as traças
tinham feito grande estrago. Abriu-me pelo menos uma dúzia de baús. O que fazer
com tudo aquilo? Haveria algum maluco disposto a jogar dinheiro fora? Há algo
mais volátil do que a moda? Os gostos mudam conforme os ventos. Mesmo as joias
– correntes pesadas, longos brincos, pulseiras enormes, grandes broches
adornados, anéis de ouro maciço. Só se alguém os derretesse e transformasse em
barras.
-- Quero me desfazer desses objetos.
Tentei
explicar a evolução dos tempos. Minhas palavras soaram inúteis. Enfim,
concordei.
-- Verei o que posso fazer.
E
saí. Respirei fundo: para me desintoxicar, a plenos pulmões. Tinha entrado numa
enrascada. O que ela me pedia era absurdo. Bem, pelo menos, estivera frente a
frente com ela e, de certo modo, minha curiosidade fora saciada.
Uma
semana depois, quando resolvi visitá-la para dizer que não aceitava a proposta,
vi urubus sobrevoando a casa. Forcei a porta e ela se escancarou. Encontrei
tudo revirado, baús abertos, roupas jogadas pelo assoalho empoeirado. As joias
tinham sumido. No canto da sala, jazia a Princesa, putrefata, o pescoço
degolado. Moscas azuis pousavam sobre a pele em decomposição. Ratões remexiam
as vísceras e o mau cheiro era insuportável.
Foi
enterrada às pressas. Chovia muito e sua sepultura se encheu de água e lama.
Nem mesmo as irmãs compareceram. Ao sair do cemitério, tive a impressão de que
o cavalheiro negro também saía. Estava sem guarda-chuva, mas não se molhava, e
tinha o mesmo sorriso esquisito sob os espessos bigodes.
David Gonçalves.
Entendendo o conto:
01 – Como era a personalidade
de Lindalva na infância e de que forma ela se diferenciava de suas seis irmãs?
Ao contrário de
suas irmãs, que aceitavam a vida simples da pequena cidade, Lindalva era
extremamente exigente, vaidosa e esnobe desde criança. Na escola, ela não se
misturava com os outros alunos, mantinha seus cadernos impecáveis e era usada
pelas professoras como exemplo de higiene, o que a tornava odiada pelas outras
crianças. Enquanto suas irmãs viam o casamento com homens trabalhadores como
algo natural, Lindalva desenvolveu uma obsessão por roupas de vanguarda,
perfumes e luxo, recusando-se a envelhecer trabalhando como a mãe e as irmãs.
02 – Por que
Lindalva recebeu o apelido de "Princesa" pelos habitantes da cidade?
O apelido
"Princesa" não era um elogio sincero, mas sim uma forma de deboche,
chacota e expressão de inveja ou despeito dos moradores da cidade. O termo
surgiu porque Lindalva andava sempre isolada em seu "pedestal",
vestindo-se com luxo extravagante e rejeitando sistematicamente todos os
pretendentes da região, tratando-os com desdém sob a justificativa de que não
se casaria com nenhum "pé-rapado" ou homem vulgar.
03 – O que aconteceu
de inesperado quando Lindalva completou trinta anos e qual foi a reação da
população?
Em um domingo de
muito calor, surgiu na cidade um estranho e altivo cavalheiro inteiramente
vestido de preto, usando um chapéu de abas largas, que se aproximou de Lindalva
e disse: "Sou o teu anjo. Vim buscar-te". Para o espanto absoluto da
população — que esperava o tradicional desprezo da moça —, Lindalva sorriu,
deu-lhe o braço e caminhou com ele rua acima. Logo em seguida, os dois
desapareceram misteriosamente como o vento, iniciando um sumiço que duraria uma
década.
04 – Como a filha de
Lindalva, Elizabeth, comportava-se ao retornar à cidade e que paralelo os
moradores faziam entre ela e a mãe?
Elizabeth era uma
cópia perfeita da mãe na juventude: herdou o ar esnobe, o culto obsessivo à
beleza, o uso de perfumes caros, joias e roupas requintadas. Ela agia com
petulância e desprezava os rapazes locais, chamando-os de "bodes
velhos" e "homens pré-históricos". Os moradores diziam que
"o fruto não cai longe da árvore" e passaram a chamá-la de
"Elizabeth, a rainha", prevendo que ela teria o mesmo destino
misterioso da mãe.
05 – De que forma o
"Anjo Negro" reaparece na história e qual o impacto desse evento
sobre a população religiosa?
O cavalheiro
negro reaparece anos mais tarde, em plena Sexta-Feira Santa, no meio da
multidão que caminhava para a celebração do calvário. Ele faz mesuras para
Elizabeth e repete a frase: "Sou o teu anjo. Vim buscá-la". Elizabeth
agarra seu braço e os dois desaparecem sem deixar vestígios. A população,
apavorada e paralisada, conclui que o homem era o próprio demônio (Belzebu), e
o evento gera tanto pânico que os moradores chegam a pichar a casa da Princesa
com insultos e excomunhões no Sábado de Aleluia.
06 – Qual era o
estado físico e psicológico da Princesa quando ela abriu a janela e pediu a
ajuda do narrador após tantos anos?
O narrador
encontra a Princesa completamente decadente, velha, curvada, enrugada, cheia de
verrugas no rosto e com os cabelos brancos descuidados, vivendo sozinha em uma
casa abandonada e cheia de teias de aranha. Psiquicamente, ela continuava
apegada ao passado de vaidade: chamou o narrador porque queria vender sua
imensa coleção de roupas velhas, casacos de pele e joias acumuladas há quarenta
anos, sem perceber que a moda havia mudado e que aqueles tecidos estavam se
desintegrando com o tempo e cheios de traças.
07 – Como a Princesa
foi encontrada morta e qual aparição sinistra encerra o conto?
Uma semana após o
encontro com o narrador, atraído por urubus sobrevoando o local, ele entra na
casa e encontra a Princesa morta no canto da sala, putrefata e com o pescoço
degolado. Os baús estavam abertos, as roupas reviradas e todas as joias
valiosas haviam sido roubadas. No desfecho, ao sair do enterro sob uma forte
chuva, o narrador tem a nítida impressão de ver o cavalheiro negro saindo do
cemitério, completamente seco e exibindo o mesmo sorriso esquisito sob o bigode
espesso.
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