terça-feira, 23 de junho de 2026

POEMA: ERRANTE - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Errante

            Florbela Espanca

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwzQCf7iPP0k30_Z5FYfLsS_ulSJcTRLFqTG5q7pfm89zFG0DUYzzoBzY22jA_LHr5_ncnT7onlhhOSIMYAl8cElwtwnaTlU8WgwCtHXiqKusRH7R-nYyikIZPE-ICd8pkV-mp2D1AQRB5QXIQPH3nw89PrfVAHaj4MPlesprzFKN577ztBz56JFoGrEk/s320/png-transparent-heart-font-burgundy-heart-s-love-burgundy-heart-cliparts-organ-thumbnail.png



Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – Que imagem do "coração" é construída no primeiro quarteto e o que o título "Errante" sugere sobre ele?

      O coração é descrito como "a cor dos rubros vinhos", sugerindo paixão, intensidade e dor profunda. Ele "rasga a mortalha" do peito, o que indica um ímpeto violento de libertação de um corpo sufocado. O título "Errante" e os versos finais da estrofe revelam que esse coração se move sem rumo fixo, andando "tonto" e "a perder-se nas brumas", simbolizando uma busca cega e desorientada.

02 – No segundo quarteto, quais títulos ou identidades o eu lírico atribui ao seu próprio coração?

      O eu lírico personifica o coração atribuindo-lhe três identidades distintas e elevadas:

      "O místico profeta": Aquele que enxerga além, ligado à espiritualidade e ao destino.

      "O paladino audaz da desventura": Um guerreiro corajoso, mas cuja sina ou missão é o sofrimento (a desventura).

      Aquele que "sonha ser um santo e um poeta": Uma busca pela pureza espiritual máxima combinada com a expressão artística ideal.

03 – O que representa o "Paço da Ventura" que o coração do eu lírico decide procurar?

      O "Paço da Ventura" (sendo paço um palácio e ventura sinônimo de felicidade ou boa sorte) funciona como uma metáfora para a plenitude, a felicidade idealizada e a realização dos sonhos. É o destino utópico onde o coração acredita que encontrará o alívio para as suas dores e a coroação dos seus desejos.

04 – No primeiro terceto, qual é a constatação do eu lírico a respeito da busca empreendida pelo coração?

      O eu lírico assume uma postura de absoluto ceticismo e desilusão, decretando o fracasso da jornada: "Meu coração não chega lá decerto...". A justificativa para essa certeza é o total desconhecimento do caminho e a própria natureza intangível desse destino, classificado como um "sítio incerto" do qual não se tem memória real, restando apenas o isolamento.

05 – Como a imagem da mãe e do filho no último terceto coroa o sentimento de perda definitiva do poema?

      A comparação com "essa mãe que viu partir o filho" e com o "filho que não voltou mais" constrói uma das imagens mais dolorosas da poesia florbeliana. Ela simboliza a separação eterna e irreversível entre o desejo e a realidade. Assim como a mãe fica presa à dolorosa tarefa de tecer "sonhos irreais" sobre alguém que jamais retornará, o eu lírico conforma-se em viver de ilusões sobre uma felicidade que ele sabe que seu coração errante nunca alcançará.

 




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