Poema: NATUREZA VIVA COM PONTOS
José
Fernandes
O sangue do crepúsculo se deita no leito
do rio para amar os peixes na brancura das águas
e espalhar o viver pelas beiradas limosas
do encanto e do húmus burburinhando alevinos.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP2d_4MJS2xIpgzX3YjvyWPh9e46CwLYDDcte9wJlEB8OwOIGWlAMD5X9s1lX2ABhAvkysnWospvh8UQsahpHBrZEq6muvlV3z4BijRTXgNFmR7AMYxjemB6DzBhxviIqt7eBfik8uzwDKprbDLqkPxB78UagRW0dKrIFYme5-kftKWN44J4CYHraZppk/s320/NATUREZA.jpgA manhã arrasta o sol e se debruça sobre o verde
para o fervor da ventania nas folhas e nos ramos
que bebem água pelos barrancos emprumados
de sua altivez de pedras mergulhadas no tempo.
Nas escamas dos dourados o sol se enfeita de brilho
e aguarda o lusco-fusco para se despedir da lua
com as mãos estendidas pela abóbada celeste
a fim de saciar a sede do dragão de São Jorge.
Cada tuiuiú que pousa nas copas do vento
sabe de cor as normas de todas as folhas do verão
e viaja altaneiro nas estradas das chalanas
que vencem os remansos todos do outono.
Nas romãs, eu colho as sementes dos pássaros
e caminho para o vermelho da tarde: repouso
nos olhos dos sapos que intanham a noite
e seus mistérios de rio e água indovoltandoindo...
José Fernandes.
01 – Na primeira
estrofe, o autor utiliza uma metáfora marcante: "O sangue do crepúsculo se
deita no leito do rio". O que significa essa imagem poética e qual
processo biológico/natural ela introduz logo em seguida?
A metáfora do
"sangue do crepúsculo" representa a cor avermelhada ou alaranjada do
pôr do sol refletida nas águas do rio ao fim do dia. Essa imagem introduz uma
atmosfera de fertilidade e geração de vida, pois o eu lírico descreve esse
momento como um ato de amor ("para amar os peixes") que espalha a
vida pelas margens enriquecidas de matéria orgânica ("húmus"),
resultando no surgimento e agitação de filhotes de peixes ("burburinhando
alevinos").
02 – A fauna e a
flora do poema remetem a um ecossistema brasileiro muito específico.
Identifique dois elementos nativos presentes na quarta estrofe que ajudam a
situar geograficamente o cenário da obra.
Os dois elementos
são o tuiuiú e as chalanas. O tuiuiú é a ave-símbolo do Pantanal, conhecida por
sua imensa envergadura, e as chalanas são as embarcações típicas de fundo chato
que navegam pelos rios daquela região. A menção a esses dois termos fixa o
cenário do poema nas planícies inundáveis do Centro-Oeste brasileiro
(Pantanal/bacia do rio Paraguai ou Araguaia).
03 – No encerramento
da terceira estrofe, há uma transição lírica do entardecer para a noite através
da menção ao "dragão de São Jorge". Como essa referência mítica se
conecta com os elementos astronômicos citados no mesmo trecho?
A referência se
conecta através do imaginário popular e da astronomia. O texto descreve o sol
se despedindo da lua no "lusco-fusco" (o crepúsculo). Na cultura
popular brasileira, as manchas escuras da Lua Cheia são frequentemente
associadas à figura de São Jorge montado em seu cavalo combatendo o dragão. Ao
dizer que as mãos estendidas na abóbada celeste vão "saciar a sede do
dragão de São Jorge", o poeta funde o cenário real do anoitecer com a
mitologia lunar, poeticamente humanizando o céu noturno que surge.
04 – A quarta
estrofe constrói uma imagem de sabedoria instintiva e harmonia entre os animais
e as estações do ano. De que maneira o tuiuiú é integrado a esse ciclo natural?
O tuiuiú é
integrado como um ser perfeitamente sintonizado com a natureza. O eu lírico
afirma que a ave "sabe de cor as normas de todas as folhas do verão",
o que simboliza o conhecimento instintivo e ancestral que o animal possui sobre
o clima, as cheias e a vegetação. Além disso, ele navega pelo ar ("copas
do vento") acompanhando o ritmo das chalanas que vencem os remansos
"do outono", mostrando o trânsito harmônico da vida selvagem através
da mudança das estações.
05 – Na última
estrofe, o autor cria o neologismo (palavra inventada)
"indovoltandoindo". Analisando o contexto do poema, qual é o efeito
de sentido dessa palavra e como ela se relaciona com o movimento das águas de
um rio?
O neologismo
indovoltandoindo (a junção de "indo" + "voltando" +
"indo") traduz visual e ritmicamente o movimento contínuo, sinuoso e
cíclico da água do rio, que avança, esbarra nas margens gerando redemoinhos ou
remansos (volta) e continua o seu curso (vai novamente). A palavra expressa a
fluidez eterna da natureza e o mistério do tempo, que parece passar e
permanecer ao mesmo tempo no fluxo da correnteza.
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