sexta-feira, 19 de junho de 2026

POEMA: NATUREZA VIVA COM PONTOS - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Poema: NATUREZA VIVA COM PONTOS

           José Fernandes

O sangue do crepúsculo se deita no leito
do rio para amar os peixes na brancura das águas
e espalhar o viver pelas beiradas limosas
do encanto e do húmus burburinhando alevinos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP2d_4MJS2xIpgzX3YjvyWPh9e46CwLYDDcte9wJlEB8OwOIGWlAMD5X9s1lX2ABhAvkysnWospvh8UQsahpHBrZEq6muvlV3z4BijRTXgNFmR7AMYxjemB6DzBhxviIqt7eBfik8uzwDKprbDLqkPxB78UagRW0dKrIFYme5-kftKWN44J4CYHraZppk/s320/NATUREZA.jpg



A manhã arrasta o sol e se debruça sobre o verde
para o fervor da ventania nas folhas e nos ramos
que bebem água pelos barrancos emprumados
de sua altivez de pedras mergulhadas no tempo.

Nas escamas dos dourados o sol se enfeita de brilho
e aguarda o lusco-fusco para se despedir da lua
com as mãos estendidas pela abóbada celeste
a fim de saciar a sede do dragão de São Jorge.

Cada tuiuiú que pousa nas copas do vento
sabe de cor as normas de todas as folhas do verão
e viaja altaneiro nas estradas das chalanas
que vencem os remansos todos do outono.

Nas romãs, eu colho as sementes dos pássaros
e caminho para o vermelho da tarde: repouso
nos olhos dos sapos que intanham a noite
e seus mistérios de rio e água indovoltandoindo...

José Fernandes.

 Entendendo o poema:

01 – Na primeira estrofe, o autor utiliza uma metáfora marcante: "O sangue do crepúsculo se deita no leito do rio". O que significa essa imagem poética e qual processo biológico/natural ela introduz logo em seguida?

      A metáfora do "sangue do crepúsculo" representa a cor avermelhada ou alaranjada do pôr do sol refletida nas águas do rio ao fim do dia. Essa imagem introduz uma atmosfera de fertilidade e geração de vida, pois o eu lírico descreve esse momento como um ato de amor ("para amar os peixes") que espalha a vida pelas margens enriquecidas de matéria orgânica ("húmus"), resultando no surgimento e agitação de filhotes de peixes ("burburinhando alevinos").

 

02 – A fauna e a flora do poema remetem a um ecossistema brasileiro muito específico. Identifique dois elementos nativos presentes na quarta estrofe que ajudam a situar geograficamente o cenário da obra.

      Os dois elementos são o tuiuiú e as chalanas. O tuiuiú é a ave-símbolo do Pantanal, conhecida por sua imensa envergadura, e as chalanas são as embarcações típicas de fundo chato que navegam pelos rios daquela região. A menção a esses dois termos fixa o cenário do poema nas planícies inundáveis do Centro-Oeste brasileiro (Pantanal/bacia do rio Paraguai ou Araguaia).

 

03 – No encerramento da terceira estrofe, há uma transição lírica do entardecer para a noite através da menção ao "dragão de São Jorge". Como essa referência mítica se conecta com os elementos astronômicos citados no mesmo trecho?

      A referência se conecta através do imaginário popular e da astronomia. O texto descreve o sol se despedindo da lua no "lusco-fusco" (o crepúsculo). Na cultura popular brasileira, as manchas escuras da Lua Cheia são frequentemente associadas à figura de São Jorge montado em seu cavalo combatendo o dragão. Ao dizer que as mãos estendidas na abóbada celeste vão "saciar a sede do dragão de São Jorge", o poeta funde o cenário real do anoitecer com a mitologia lunar, poeticamente humanizando o céu noturno que surge.

 

04 – A quarta estrofe constrói uma imagem de sabedoria instintiva e harmonia entre os animais e as estações do ano. De que maneira o tuiuiú é integrado a esse ciclo natural?

      O tuiuiú é integrado como um ser perfeitamente sintonizado com a natureza. O eu lírico afirma que a ave "sabe de cor as normas de todas as folhas do verão", o que simboliza o conhecimento instintivo e ancestral que o animal possui sobre o clima, as cheias e a vegetação. Além disso, ele navega pelo ar ("copas do vento") acompanhando o ritmo das chalanas que vencem os remansos "do outono", mostrando o trânsito harmônico da vida selvagem através da mudança das estações.

 

05 – Na última estrofe, o autor cria o neologismo (palavra inventada) "indovoltandoindo". Analisando o contexto do poema, qual é o efeito de sentido dessa palavra e como ela se relaciona com o movimento das águas de um rio?

      O neologismo indovoltandoindo (a junção de "indo" + "voltando" + "indo") traduz visual e ritmicamente o movimento contínuo, sinuoso e cíclico da água do rio, que avança, esbarra nas margens gerando redemoinhos ou remansos (volta) e continua o seu curso (vai novamente). A palavra expressa a fluidez eterna da natureza e o mistério do tempo, que parece passar e permanecer ao mesmo tempo no fluxo da correnteza.

 

 

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