Crônica: Adolescência
Alcione Araujo
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUvEDBGqC1QzZP0KfpX_dipCbD_vjSBHMBeZzJOTI5t4UWLKLuqs0EWzOHgYpKnedbGY1DMXo4udhBN3B79kkpJLlDyTBelbaJXKlL0QxRqhAtQeOZMHjBf-i4_Oy6n2zqx-0k7e0TroPVEGdLQs2q1UlI6su6SNXSDK788_MyEW-HwtR2NNPtOqorgvU/s1600/adolescente.jpg Nós,
adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos
sepultados no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete
vezes sete vidas. E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade,
rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho.
E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James Dean, Pelé,
Napoleão, Bethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e
se apagavam tão depressa, que não deixavam nenhuma luz no mundo.
E
fui tantos e quantos, que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois três.
Qualquer filme, mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui
tantos! E fui me construindo com esses cacos que a minha adolescência juntava,
com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com o tempo. E fui me
fazendo com o que sobrava dos outros (…). Não é que eu viva no passado, é que o
passado está em mim.
Mesmo
sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia
mais resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no
caráter, mais incertezas quanto ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos
quanto ao amor. Que alegria, se eu conseguisse ser eu!
Certamente,
seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram
ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de
um ato de coragem, atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que
arranjava namorada, era invejado, copiava-se até o penteado do seu cabelo.
Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval,
com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear
cabelo, espremer cravo e pôr sobre o sapato enquanto as meninas passavam de
saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me encontrava em lugar algum.
Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre
seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.
As
garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra,
sem ninguém perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a
maneira de vestir e de conversar. E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando
se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou melhor, ninguém tem a
sua idade. Você é a única criatura no mundo que (…) ninguém confia, ninguém dá
dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça, você é suspeito de ser o
autor.
Que
fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em
obras, com andaimes, latas de tinta e pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida,
profissão, amor, família, tudo é futuro. Por isso, pode voar em sonhos e
mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se ninguém
entende e reclama de você fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele
lugar onde ninguém vai lhe achar, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para
lá no automático. E fica lá em silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo
se entende. Mas os que se queixam de você, não se entendem entre si também.
Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque deixou-se de ser uma coisa e ainda não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos, que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.
Entendendo o texto
01. No primeiro
parágrafo, o autor afirma que a "realidade" era uma inimiga dos
adolescentes. Por que ele pensava assim?
a) Porque na realidade eles eram obrigados a
trabalhar e ganhar o próprio dinheiro.
b) Porque a realidade reduzia os jovens a
"adolescentes espinhentos" e destruía a grandiosidade de seus sonhos.
c) Porque a realidade exigia que eles fossem
heróis, santos e gênios o tempo todo.
d) Porque os pais controlavam tudo o que eles
faziam no mundo real.
02. Para explicar a
capacidade do adolescente de se recuperar dos problemas e voltar a sonhar, o
autor faz uma comparação com:
a) Um fantasma de um cão adestrado.
b) Um edifício cheio de andaimes e latas de tinta.
c) Um escudo do seu time preferido de futebol.
d) As sete vidas de um gato.
03. O autor utiliza
uma metáfora marcante para descrever o processo de crescimento e
autoconhecimento na adolescência. Ele diz que o jovem é:
a) Um ser em obras, cheio de andaimes,
latas de tinta e pincéis.
b) Um livro antigo com páginas rasgadas.
c) Uma camisa-de-força difícil de desamarrar.
d) Um ator de cinema que esqueceu o roteiro do
filme.
04. De acordo com a
visão do narrador sobre as garotas da mesma idade, elas:
a) Passavam pela adolescência de forma muito mais
lenta e dolorosa que os meninos.
b) Sempre confiavam nos garotos e os ajudavam a
espremer cravos.
c) Não sabiam o que era a adolescência,
pois se transformavam em mulheres de repente.
d) Gostavam de usar roupas infantis para parecerem
mais novas.
05. Ao contrário do que
muitas pessoas dizem, qual é a opinião final do autor sobre a adolescência
quando ele olha para o passado?
a) Foi a fase mais difícil e triste de sua vida,
pois ele nunca se entendia.
b) Foi um período violento do qual ele prefere
esquecer e não voltar no tempo.
c) Foi o período mais alegre de sua vida,
onde ele precisava de muito pouco para ser feliz.
d) Foi uma época sem importância, já que ele vivia
imitando os outros garotos.
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