Conto: As águas do mundo
Clarice Lispector
Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVLj-1rp8pYRgQEjOkl9exeLMvFV3kZckRwzkKFvNcG-G22QDZr6J-Wmm2anHLut1QfC_eGS1s1Rv22IRGVRvSo3tQ-C0oiyRKRDCwCJEPas95u6NhE43iV00cDRKWE6ds9Vs18CtKT2TaOm4fsE0t04eA3Vy3jmOhv8RHt2Mi31KamvsWnQSMa5p1tNM/s1600/AGUAS.jpg Só
poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a
entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se
entregariam duas compreensões.
Ela
olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do
horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São
seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é
que um cão é tão livre? Porquê ele é o mistério vivo que não se indaga. A
mulher hesita porque vai entrar.
Seu
corpo se consola com sua própria exiguidade em relação a vastidão do
mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é
essa exiguidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade
de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no
silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma
coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não têm o exemplo de outros
humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela
está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é
uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua
coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se
conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai
entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas
uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe
ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia
tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela
está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta, mesmo sem pensar. A
mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez
que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a
oposição pode ser um pedido.
O
caminho lento aumenta as coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela
primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega,
toda escorrendo- espantada de pé, fertilizada.
Agora
o frio se transformou em frígido. Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não
precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do
brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos
salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase
imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que
sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles
mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.
E
era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de
um homem. Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe
com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe
batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
Mergulha
de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais.
Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a
ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda.
Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. Como
contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe
transmissões. Não precisa de comunicação.
Depois
caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas-
ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas
ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe
resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um
pouco mais dura e áspera.
E
agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o
esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum
modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe – sabe
que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.
Clarice Lispector. In: Felicidade
Clandestina: José Olympio, 1975.
Entendendo o conto:
01 – O que aproxima e o
que diferencia a mulher e o mar no início do conto?
O que os aproxima é o fato de ambos serem descritos como "ininteligíveis" — o mar como o mais ininteligível das existências não humanas, e a mulher como o mais ininteligível dos seres vivos. No entanto, o que os diferencia essencialmente é a consciência humana: a mulher tornou-se incompreensível a partir do momento em que "fez um dia uma pergunta sobre si mesmo". Enquanto o mar é um mistério pleno e realizado por sua vastidão e salinidade, a mulher carrega o mistério da autodescoberta e da indagação.
02 – Qual é o
significado da "coragem" mencionada pelo narrador quando a mulher
hesita antes de entrar no mar?
A coragem da mulher reside no ato de prosseguir e avançar em direção ao desconhecido, mesmo sem se autoconhecer ("Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir"). O texto destaca que ela cumpre esse ritual de forma solitária e autêntica às seis horas da manhã, desprovida do "exemplo de outros humanos" que reduzem o mar a um "simples jogo leviano de viver". Trata-se de uma coragem existencial: a de enfrentar a própria exiguidade diante da imensidão do mundo.
03 – Como a relação
da mulher com o mar se transforma após ela ser coberta pela primeira onda?
Inicialmente, a entrada exige esforço, vigilância (como a de um caçador) e uma "coragem secreta" diante da oposição da gelidez líquida. Porém, após ser coberta pela primeira onda — ficando temporariamente cega, escorrendo e sentindo-se "fertilizada" —, a dinâmica muda. O frio torna-se frígido, o medo desaparece e ela passa a se sentir "antiga no ritual". Ela deixa de ser uma intrusa e passa a agir com a intimidade e a segurança de uma "amante que sabe que terá tudo de novo".
04 – Qual é o
significado simbólico do ato de a mulher beber a água do mar com a concha das
mãos?
O ato de beber a água salgada simboliza a interiorização do absoluto e a fusão definitiva entre o seu mundo interno e o mundo externo ("E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro"). Ao ingerir o mar, a mulher preenche seu vazio existencial e atinge uma plenitude identitária, tornando-se "toda igual a si mesma". É um ato realizado com altivez, que dispensa comunicações, transmissões ou qualquer tipo de explicação racional.
05 – Por que, ao
retornar à praia, a mulher sente que realizou "um perigo antigo quanto o
ser humano"?
Ao caminhar de
volta, o mar tenta retê-la, exigindo que sua "proa" avance de forma
dura e áspera. Ao pisar na areia, ela se reconhece com "cabelos de
náufrago" porque vivenciou uma experiência limite de dissolução e
renascimento. O "perigo" não é meramente físico, mas espiritual: o
risco de se entregar completamente ao ilimitado, de perder as fronteiras do
próprio ego na vastidão do mundo e, ainda assim, conseguir retornar
transformada, brilhando de água, sal e sol.
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