quinta-feira, 11 de junho de 2026

CONTO: AQUELE ESTRANHO ANIMAL - MÁRIO QUINTANA - ALMANAQUE DO CORREIO - COM GABARITO

 Conto: AQUELE ESTRANHO ANIMAL

        Os de Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada: sou neutro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhCxNJy7cPVNKzeiD-1IqK8_56grMwTpHusAmV3OuCqdh8gWBAb3YNr_6-W_6YRulLxrKF6GZPdqHV6lSlPnTVoSFAHKOMESPaz9mEyUar21h3QZTS7oxX-Yteh_t2ExbRB2cNGLd96_P_SccvYqQTwZtGaF1f8LkOpTJKQCq662kuocYlP4ITJXZUfRes/s1600/CAVALO.jpg


        Mas, pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei, e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades... Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

        Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupubum! fufufupubum chiiipum!

        E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.

        “Minha Nossa Senhora!”

        O piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.

        É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.

        Chegado que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal-e-mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.

        Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima de!e, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos a pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.

        Até que enfim houve uma pausa para respiração.

        O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto, porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando de seu ex-automóvel.

        – A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

 Mário Quintana, Almanaque do Correio do Povo, Porto Alegre, 1971, p. 246.

 

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

Indiada – grupo de gaúchos

Às deveras – verdadeiramente

Filosofança – filosofia

Piazinho – menino pequeno

Petiço – cavalo pequeno

Capão – porção de mato isolado

Rilhar – ranger

Corcoveios – batimentos fortes – sobressaltado

Matungo – cavalo velho

Boleadeiras – aparelho usado pelos campeiros para laçar animais

A la pucha – expressão que denota surpresa

Guasca – caipira do Rio Grande do Sul

Refoligar – tomar fôlego

02 – A história narrada pelo Mario Quintana é realmente extraordinária. No primeiro parágrafo do texto ele:

A) Questiona a autoria do acontecimento.

B) Desmerece a importância da história.

C) Comprova a autenticidade dos fatos.

D) Sugere a insignificância da origem do “causo”.  

03 – O provérbio que se aplica ao primeiro parágrafo é:

A) “Quem conta um conto aumenta um ponto”

B) “Filho feio não tem pai”.

C) “Nos menores frascos estão os melhores perfumes”

D) “Nem tudo o que reluz é ouro”.                                        

 

04 – “E eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão”. A palavra “coisa” está relacionada a:

A) mistério

B) perigo

C) preocupação

D) vingança.

05 – Retire do texto a passagem que faz referência à velocidade do carro.

      “É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.”

06 – “Chegado que foi, o piazinho contou a história como pôde...”. A parte destacada expressa circunstância de:

A) causa

B) finalidade

C) consequência

D) tempo.                                          

07 – “Pois bem, minha gente: ... caiu aquele montão de povo em cima dele...”. Para o leitor de hoje, a cena de ataque ao “bicho” é:

A) Cruel

B) Humorística

C) Precipitada

D) Agressiva.

08 – “E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui”. O que leva o narrador a omitir o conteúdo dos gritos e das pragas?

      Por cortesia e ética com os leitores.

09 – A exclamação feita por um guasca, no final, é incoerente com os fatos narrados no texto. Essa é uma afirmativa. Justifique:

      Falsa. Os fatos narrados falam do carro como se fosse bicho. E

Bicho dá cria.

10 – Prosopopeia ou personificação é um recurso que consiste em atribuir vida, ação, voz e movimento a seres inanimados, irracionais ou mortos. Retire do texto uma passagem em que ocorreu uma prosopopeia.

      Sugestão: “bufando que nem touro brigão...” / “largando fumo pelas ventas...”

11 – De acordo com o texto, escreva V para as afirmativas verdadeiras e F para as afirmativas falsas.

(V) O desenvolvimento tecnológico pode gerar estranheza.

(V) A evolução científica e tecnológica pode explicar inúmeras situações misteriosas.

(F) O progresso chega a todos os lugares ao mesmo tempo.

 

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