Conto: AQUELE ESTRANHO ANIMAL
Os
de Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no
Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não
afirmo nada: sou neutro.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhCxNJy7cPVNKzeiD-1IqK8_56grMwTpHusAmV3OuCqdh8gWBAb3YNr_6-W_6YRulLxrKF6GZPdqHV6lSlPnTVoSFAHKOMESPaz9mEyUar21h3QZTS7oxX-Yteh_t2ExbRB2cNGLd96_P_SccvYqQTwZtGaF1f8LkOpTJKQCq662kuocYlP4ITJXZUfRes/s1600/CAVALO.jpg Mas,
pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava
indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi
assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei,
e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão
extraordinária mesmo que até tem três metades... Bem, deixemos de filosofança e
vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.
Ia
um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o
barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupubum! fufufupubum chiiipum!
E
eis que a “coisa”, até então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando
que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, chiando que nem chaleira
derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.
“Minha
Nossa Senhora!”
O
piazinho deu meia-volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os
olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o
coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.
É
claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles
perdiam para qualquer matungo.
Chegado
que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal-e-mal e depressa, que o
tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho
do bicho que se aproximava.
Pois
bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão
de povo em cima de!e, os homens uns com porretes, outros com garruchas que nem
tinham tido tempo de carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos a
pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando
as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe,
se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas
dos combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir
aqui.
Até
que enfim houve uma pausa para respiração.
O
povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu
o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto,
porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia.
E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente
salvo, saiu penosamente engatinhando de seu ex-automóvel.
–
A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal
deu cria!
Entendendo o conto:
01 – De acordo com o texto, qual o significado
das palavras abaixo:
Indiada – grupo de
gaúchos
Às deveras – verdadeiramente
Filosofança – filosofia
Piazinho – menino pequeno
Petiço – cavalo pequeno
Capão – porção de mato isolado
Rilhar – ranger
Corcoveios – batimentos
fortes – sobressaltado
Matungo – cavalo velho
Boleadeiras – aparelho usado
pelos campeiros para laçar animais
A la pucha – expressão que
denota surpresa
Guasca – caipira do Rio Grande
do Sul
Refoligar – tomar fôlego
02 – A história narrada pelo Mario Quintana é
realmente extraordinária. No primeiro parágrafo do texto ele:
A) Questiona a autoria do acontecimento.
B) Desmerece a importância da história.
C) Comprova a autenticidade dos fatos.
D) Sugere a insignificância da origem do “causo”.
03 – O provérbio que se aplica
ao primeiro parágrafo é:
A) “Quem conta um conto aumenta um ponto”
B) “Filho feio não tem pai”.
C) “Nos menores frascos estão os melhores
perfumes”
D) “Nem tudo o que reluz é
ouro”.
04 – “E eis que a “coisa”, até então invisível,
apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão”. A palavra “coisa”
está relacionada a:
A) mistério
B) perigo
C) preocupação
D) vingança.
05 – Retire do texto a passagem que faz
referência à velocidade do carro.
“É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos, eles perdiam para qualquer matungo.”
06 – “Chegado que foi, o piazinho contou a
história como pôde...”. A parte destacada expressa circunstância de:
A) causa
B) finalidade
C) consequência
D) tempo.
07 – “Pois bem, minha gente: ... caiu aquele
montão de povo em cima dele...”. Para o leitor de hoje, a cena de ataque ao
“bicho” é:
A) Cruel
B) Humorística
C) Precipitada
D) Agressiva.
08 – “E tudo abaixo de gritos e pragas que nem
lhes posso repetir aqui”. O que leva o narrador a omitir o conteúdo dos gritos
e das pragas?
Por cortesia e ética com os leitores.
09 – A exclamação feita por um guasca,
no final, é incoerente com os fatos narrados no texto. Essa é uma
afirmativa. Justifique:
Falsa. Os fatos narrados falam do carro como se fosse bicho.
E
Bicho dá cria.
10 – Prosopopeia ou personificação é um recurso
que consiste em atribuir vida, ação, voz e movimento a seres inanimados,
irracionais ou mortos. Retire do texto uma passagem em que ocorreu uma prosopopeia.
Sugestão: “bufando que nem touro brigão...” / “largando fumo pelas ventas...”
11 – De acordo com o texto, escreva V para as afirmativas verdadeiras e F
para as afirmativas falsas.
(V) O
desenvolvimento tecnológico pode gerar estranheza.
(V) A
evolução científica e tecnológica pode explicar inúmeras situações misteriosas.
(F) O
progresso chega a todos os lugares ao mesmo tempo.
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