Conto: A máscara da morte rubra
Edgar Allan Poe
A
“Morte Rubra” havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou
tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror
do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso
sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e
principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da
ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim
da doença não se passava mais de meia hora.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhkPeuFjyYH_2_XrQEz4uhCifAeZGI9m-Nj2PwaJvPy3PIyKUU6h0ybDZB2KROvlL1RndTYo9jRgysAQDUoQmCWMI780iRMPytdeV3CUdgMiPiiVUJRzf3Jm5a1MsiqsDPlFRvETOZyVAK0-vjo4irCYc8iS1p_Y9gDzSve939Kelh7pQx_dwc235ufxM/s320/81qiDTORgxL._UF1000,1000_QL80_.jpg Mas
o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus
domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos
sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles
retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma
construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do
próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de
ferro. Depois de entrarem, os cortesões trouxeram fornalhas e grandes
martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de
entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero dos que estavam fora ou aos furores
do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas
precauções, os cortesões podiam desafiar o contágio. O mundo externo
que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar
nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia
bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, beleza, vinho. Lá dentro, tudo
isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Rubra”.
Lá
pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais
furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um
magnífico baile de máscaras.
Que voluptuosa cena a daquela
mascarada! Mas antes descrevamos os salões em que ela se desenrolava. Era uma
série imperial de sete salões. Em muitos palácios, porém, esses salões formam
uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas
paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é
quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar
da paixão do príncipe pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira
tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez.
Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um
efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e
estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas
do salão. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade
dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste,
por exemplo, era azul – e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo
salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura.
O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O
quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada. O quinto era branco, e
o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo
negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um
tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das
janelas deixava de corresponder à das decorações. As vidraças, ali, eram rubras
– de uma violenta cor de sangue.
Ora,
em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à
profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados
do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da sequência de salões.
Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um
pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos
e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos
vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz
que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era
desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante
dos que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali
penetrar.
Era
também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco
relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater
surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do
mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som
claro, alto, grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar
que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a
interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os
dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve
instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os
carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais
velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso
devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente,
risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em
sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria
neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três
mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando o relógio dava novamente as
horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação
de antes.
Apesar
disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gostos do príncipe eram estranhos.
Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus
arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas ideias brilhavam com um
esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus
seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.
Para
essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação
cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias
dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia
e fantasia – muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras
fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos
delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza,
muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo
que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava
majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles – os sonhos –
giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa
música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio
de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza
e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão.
Mas os ecos das batidas extinguem-se – duraram apenas um instante – e risos
levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E
logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente
que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das
quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de
todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite
está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de
sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no
tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais
solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às
alegrias nos salões mais afastados.
Mas
nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim
continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio.
Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram,
e, como antes, tudo ficou intranquilamente imobilizado. Mas agora iriam ser
doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se
infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles
que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos
ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos
indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que
antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor
dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou
murmúrio que expressava a reprovação e surpresa – e, finalmente, terror, horror
e repulsa.
Numa
reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma
aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da
mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão
ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro
do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem
ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e
morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode
brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na
fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta
e esquálida, envolta dos pés à cabeça em vestes mortuárias. A máscara que
escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão
enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em
descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos
loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o
tipo da Morte Rubra. Seu vestuário estava borrifado de sangue, e sua alta
testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror rubro.
Quando
os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre
os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à
altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte
estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu
semblante tornou-se vermelho de raiva.
-- Quem ousa…? perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto –
quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua
máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!
O
príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas
ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem
ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.
O
príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado.
Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso,
que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos
decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de
um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em
toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma
que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão,
como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele
continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o
distinguira desde o início, passando do salão azul para o púrpura, do púrpura
para o verde, do verde para o alaranjado, e desse ainda para o branco, e daí
para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para detê-lo. Foi
então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea
covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse
por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um
punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do
vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de
veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito
agudo e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante
seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a
coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no
apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e
imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao
descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha
violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.
E
então reconheceu-se a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E
um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um
morreu na mesma posição de desespero em que tombou ao chão. E a vida do relógio
de ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas
dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e
da Morte Rubra estendeu-se sobre tudo.
Edgar Allan Poe. Histórias
Extraordinárias. A máscara da morte rubra. Dos cem melhores do mundo. revista
Bravo.
Entendendo o conto:
01 – Como a peste da
"Morte Rubra" se manifestava em suas vítimas e qual era o tempo
estimado entre o contágio e a morte?
A doença se
manifestava por meio de dores agudas, tontura súbita e um sangramento profuso
pelos poros. A marca característica (o estigma da peste) eram as manchas rubras
no corpo e, principalmente, no rosto da vítima. Todo o processo, desde o
aparecimento dos sintomas até a morte, durava no máximo meia hora.
02 – Qual foi a
estratégia do príncipe Próspero para escapar da epidemia que devastava seus
domínios?
O príncipe
escolheu um milhar de amigos sadios e divertidos entre os nobres da corte e
refugiou-se com eles em reclusão total em um de seus mosteiros encastelados.
Para garantir o isolamento absoluto, os cortesãos soldaram os ferrolhos das
portas de ferro, impedindo qualquer entrada ou saída. Lá dentro, ele
providenciou fartas provisões e diversos entretenimentos (músicos, bufões,
vinho) para ignorar o mundo exterior.
03 – Como estavam
dispostos os sete salões do palácio onde ocorreu o baile de máscaras e qual era
a peculiaridade do sétimo salão?
Diferente de
outros palácios, onde as salas formavam uma linha reta, os salões de Próspero
eram dispostos de forma irregular, com desvios abruptos a cada vinte ou trinta
metros, impedindo que se visse mais de um salão por vez. Cada sala tinha uma
cor temática (azul, púrpura, verde, alaranjado, branco, roxo). O sétimo salão
era decorado com tapeçarias de veludo negro, mas sua peculiaridade residia nas
janelas: ao contrário dos outros salões, cujos vitrais combinavam com a cor da
sala, os vitrais do salão negro eram de uma cor rubra, "cor de
sangue".
04 – De que forma os
salões eram iluminados, já que não havia lâmpadas ou candelabros em seu
interior?
A iluminação
provinha de corredores que circundavam os salões. Em frente a cada janela
gótica, do lado de fora, ficava um pesado tripé com um braseiro aceso. O fogo
projetava seus raios através dos vitrais coloridos, iluminando brilhantemente
as salas e criando efeitos visuais fantásticos e artísticos.
05 – Qual era o
efeito das badaladas do relógio de ébano sobre os participantes da festa e os
músicos?
A cada hora
cheia, o relógio emitia um som tão claro, grave e peculiar que os músicos eram
obrigados a interromper a orquestra e os dançarinos paravam suas coreografias.
Durante o soar das badaladas, os convidados ficavam perturbados, os mais
frívolos empalideciam e os mais velhos passavam a mão pela testa em devaneio.
Assim que as badaladas cessavam, todos riam do próprio nervosismo e tentavam
retomar a alegria.
06 – O que
caracterizava a fantasia do novo mascarado que surgiu à meia-noite e por que
ela causou tanta repulsa?
O intruso vestia
trajes mortuários (uma mortalha) e usava uma máscara que imitava perfeitamente
o rosto rígido de um cadáver. O que causou horror e repulsa extrema foi o fato
de a fantasia encarnar a própria "Morte Rubra": as vestes estavam
borrifadas de sangue e a testa e o rosto da máscara estavam salpicados com o
horror rubro da peste, quebrando as regras de diversão do príncipe.
07 – O que os
convivas descobriram quando finalmente agarraram o mascarado após a morte do
príncipe Próspero?
Ao reunirem
coragem e avançarem sobre o mascarado no salão negro, os convivas arrancaram a
violência a máscara e a mortalha, apenas para descobrir, tomados de pavor
indescritível, que não havia nenhuma forma palpável ou corpo físico por baixo
das roupas. Eles perceberam, então, que a própria Morte Rubra havia entrado no
local "como um ladrão na noite".
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