Romance: As horas nuas – Análise do romance
Lígia Fagundes Telles
O
romance ficcional “As horas nuas”, de Lígia Fagundes Telles, é uma narrativa
moderna que focaliza atitude e postura do homem comum. Apresenta um enredo fragmentado,
retratando ações, comportamentos e costumes dos indivíduos e da sociedade na
qual ele está inserido.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-j_c2Xl4Ogy1kdMa_ZUITFLIINE0K0bEG8InxE-NOuP7h3M4ndgUVlo5ztHk0CJCNlzv9_AfCU3-XpCos8IWDTHHDv_-8xz2UuWWzIts6xlWADoUGAKqyIt0G3cWEkbgU8y9JAwrn8cTBLGOY6PMf49wAX864a_TTDnCdIro9PBn0cJcGaiOVSC1CWb0/s320/Analise-comportamental.jpg A
autora da ênfase ao comportamento das personagens em interação com a sociedade,
retratando de forma subjetiva dilemas e contradições da alma humana, que se
move entre valores, apelos do mundo social materialista e massificante. Assim
ela vai projetando a realidade e enfatizando o seu reflexo na vida do
indivíduo.
No
romance em estudo, o narrador busca adequar a linguagem ao vai e vem das ações
avançando e retrocedendo, confirmando a vitalidade do tempo. Assim o leitor vai
sendo introduzido na trama, conhecendo e penetrando de forma sutil na
complexidade, que e calcada nos conflitos existenciais das personagens e que se
reflete nos problemas atuais da sociedade.
O
romance apresenta uma linguagem plurissignificativa fincada nos constantes uso
de estrangeirismos “Hasta siempre”, “illustration”. “Formes et couleurs”, nas
figuras de linguagem:
Metáforas, “fecho meus olhos e vejo minha filha
boiando no rio do supérfluo”;
Personificação
presente na figura do gato;
Eufemismo
“idade da madureza”;
E
na intertextualidade que aparece no saudosismo da infância de Rosa, onde esta
lembra do clássico “João e Maria”, nas cirandas “O cravo e a rosa”, nas
lembranças da “antiga Praça da República transformada pelo crescimento
desordenado da cidade”, em trechos retirados dos mandamentos bíblicos “não
julgueis e não sereis julgados” e na literatura de ficção policial “É elementar
meu caro wattson”.
A
narrativa traz como personagens redondas: Rosa Ambrósio, Rahul (o gato), Ananta
Medrado e Diogo.
ROSA
AMBRÓSIO: protagonista da narrativa, é uma atriz que vive remoendo lembranças
de uma infância e adolescência infeliz. Rememora o auge da decadente carreira
de atriz e na ânsia para fugir da realidade afoga-se no alcoolismo.
Oscila
entre momento de delírios, luxúria e lucidez. A atriz foi uma pessoa muito
machucada pela vida. Ferida e desconfiada, foi abandonada pelo pai logo cedo e
perde o primeiro e grande amor da sua vida, o primo Miguel. A partir de então,
busca consolo no ombro amigo de um até então desconhecido, Gregório, que logo
viria se tornar pai da sua única filha.
Mãe
relapsa, Rosa Ambósio mantém um relacionamento meio conturbado e preconceituoso
com a filha, da qual sente ciúmes. Ela inveja a juventude e o bom
relacionamento da filha com o pai.
Só
e infeliz procura consolo nos braços do secretário e amante, Diogo. Passa então
a arcar com as extravagâncias deste e aturar suas loucuras, assumindo assim uma
postura masoquista. Temendo a velhice que prefere chamar de “idade da
madureza”, ela procura refúgio também nas sessões de análise e na solidariedade
da governanta Dionísia.
A
atriz apresenta um comportamento ambíguo: apesar de viver de modo desregrado,
crítica as futilidades da humanidade, chegando a ponto de pôr em cheques
valores éticos e morais, os modismos imposto pela mídia e sua repercussão no
modo de vida da sociedade.
A
personagem não foi sempre rica; muda de vida quando recebe uma herança da
tia.
RAHUL
(o gato): também protagonista, é uma personagem personificada. Ele pensa, age,
e se comporta quase como humano contando reminiscências, fazendo reflexões
sobre o que acontece. Tem uma relação estranha com a atriz Rosa Medrado, a que
ele chama de Rosona. Demonstra verdadeira adoração por Gregório, falecido
marido de Rosa e desprezo por Diogo, o amante. Parece viver na esperança de que
o falecido volte. Tanto é que consegue vê-lo passeando pela casa. Raul vive
momentos de lembranças fugazes, nos quais ele acredita ter vivido outras
vidas.
ANTAGONISTA:
É a crise existencial vivida pela atriz Rosa Ambrósio.
ANANTA:
Personagem de comportamento estranho, demonstra obsessão por um “homem”
que ela diz morar no andar superior. É uma analista e dedica-se também ao
trabalho social numa Delegacia de Proteção a Mulher. Ananta demonstra tendência
para o mistério. Solitária, a analista mantém um círculo restrito de amizades
(a governanta, os moradores do prédio, e a amiga Flávia), Desaparece
misteriosamente sem deixar pistas.
DIOGO:
Era secretário de Rosa, e veio se tornar seu amante. Por ser jovem e
bonito age como um gigolô, aproveitando-se das fraquezas da atriz para
explorá-la, chantageando-a com suas idas e vindas. Viaja e não volta
mais.
Personagens
Planas
CORDÉLIA:
Filha de Rosa e de Gregório, a moça demonstra uma personalidade
independente e atrevida. Vive a manter relacionamentos amorosos com homens mais
velhos, o que choca a mãe. É adepta a modismos e indiferente a crise
existencial da mãe, pois se identificava mais com o pai.
GREGÓRIO:
Marido de Rosa e pai de Cordélia. Moço educado e professor. Conhece a esposa no
dia em que está perde seu grande amor. Gregório a amava a sua maneira, mesmo
assim foi traído por Rosa. Ele sabia o que se passava mais fingia ignorar.
Tinha um espírito calmo tanto é que morreu quieto para não incomodar ninguém.
Só demonstrava luta para defender os menos favorecidos. Foi exilado e
torturado. Antecipa a morte. Sofria de mal de Parkison.
DIONÍSIA:
É mais que uma simples empregada. É também confidente e amiga. É aquela que
busca conforto na fé, para aturar as insanidades de Rosa.
MIGUEL:
Primo de Rosa, foi o primeiro e grande amor da vida da atriz. Ela jamais
conseguiu esquecê-lo. Garoto mimado e acostumado à boa vida dos endinheirados,
entra no mundo das drogas e morre de overdose.
RENATO
MEDRADO: Aparece quase no final da trama como primo da analista. É uma
personagem suspeita no caso do desaparecimento de Ananta. É através da sua
visão que o leitor pode ter noção sobre a infância desta. Mostra-se bastante
interessado em resgatar a amizade da prima, a qual ele demonstrou indiferença
até então. Esse seu interesse levanta suspeita. Qual será o real interesse de
Renato? Será que ele deseja realmente encontrar a prima Ananta? Ou o seu
interesse é pelos bens que ela deixou?
DELEGADO:
Também quer saber o que aconteceu com Ananta Medrado.
FLÁVIA:
Parece ser a única amiga de Ananta, mas nem ela sabe o seu
paradeiro.
Outras
Personagens que Aparecem no Texto:
TIO
ANDRÉ – Marido da tia Lucinda.
TIA
LUCINDA – Era a mãe de Miguel. Gostava de prestar serviço à comunidade.
TIA
ANA – Deixou a herança para Rosa.
LILI
– de personalidade extrovertida, aparece de vez em quando na casa de
Rosa.
ENREDO
– O romance possui uma multiplicidade de narradores, que conta a trama de
forma não ordenada. A ação começa em um capítulo, é fragmentada e só após
outros capítulos ela vai ser retomada. Os desvios do enredo, embora pareçam
romper o ritmo da ação, pelo contrário fazem evoluir a trama, eles são
essenciais na trama.
A
autora usa uma adequação do elemento linguagem ao vai e vem da trama, avançando
e retrocedendo no entrecruzamento dos episódios, para firmar a realidade do
tempo.
O
enredo é voltado para a problemática da realidade moderna. Os conflitos são
vivenciados subjetivamente, mas aparecem objetivamente como indícios da
realidade caótica, atuando no desenvolvimento e equilíbrio do ser.
Expresso
por uma linguagem plurissignificativa ele revela profunda inquietação
existencial da espécie humana. As personagens vão se formando num processo
fluído e de metamorfose.
A
narrativa é centrada em momentos de vivência interior das personagens,
privilegiando a subjetividade. Estas vivem em constante dilema entre o EU e
aceitação da sociedade. A linguagem usada pela autora é de fundamental
importância para a constituição do enredo. Este se transforma na própria
vivência das personagens. É um reflexo dos seus dilemas interiores, onde se
encontra uma forte desconexão entre o indivíduo e a sociedade.
TEMPO
E ESPAÇO – O tempo e o espaço fundem-se na narrativa moderna. Em “As horas
nuas”, o tempo é psicológico e subjetivo acompanhando o viver das personagens,
por isso, “onde está o tempo está o drama”. São as vivências das personagens
que vão fornecendo ao leitor, um quadro verdadeiro do ser, retratando sua
fisionomia interior por meio de um fluxo constante e duradouro da consciência.
O tempo e o espaço são construídos de forma dissimulada na própria vivência dos
personagens
FOCO
NARRATIVO – No romance em estudo, a narrativa apresenta um discurso
polifônico.
Logo
no início há a presença de um narrador em 1ª pessoa, a personagem Rosa
Ambrósio. Num monólogo interior esta mergulha e descreve seu passado de dores e
glórias. Ela vive uma crise existencial em busca de sua identidade, negando
valores sociais vigentes e não aceitando a velhice e o fim da carreira como
atriz.
Entro
no quarto, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio e desabo em cima
dessa coisa ah! Meu Pai.
“Licença
Diu, não leve a mal, mas vou ficar um pouco por aqui mesmo...”.
Traz
também há a presença de um segundo narrador, o narrador personagem,
personificado na figura do gato (Rahul), Ele tece comentários a respeito das
personagens, mas seu foco é sobre a figura de Rosa Ambrósio e Gregório, o qual
ele demonstra verdadeira adoração ou fixação. A descrição que Rahul faz das
personagens é de forma quase doentia. Ele descreve minuciosamente atos
peculiares e até mesmo lê o íntimo delas. Ele chega às vezes a dar-lhes voz no
discurso indireto livre, revestindo-se assim em um narrador onisciente.
“Falsas,
pensei. Rosona veio com seu robe d’interieur e seu espelho de aumento que odiava
mas não podia ficar sem ele.”
Começavam
sempre mais ou menos assim as discussões entre os dois E que podiam evoluir
rapidamente para os palavrões entremeado a de empurrões. Tapas. Ou ter o
desfecho na cama.
Abriu
as pernas bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis.
Os
caminhos eram tortos, mas seguidos por eles Rosona acabou por acertar. Gregório
escolheu sua morte antes de ser escolhido. Anteviu o que podia vi, futurou e
essa futuração deve ter ido além do seu poder de suportar.
No
quinto capítulo surge um novo narrador em 3ª pessoa. Este de fora passa a
apresentar e descrever minuciosamente a personagem Ananta Medrado, uma analista
misteriosa, metódica e de personalidade calma e reservada.
“O
consultório de Ananta era de uma profissional sem vaidade”. Disciplinada... A
flanela estava dobrada no canto da gaveta. Passou-a nos poucos objetos e nenhum
supérfluo.
-- Tenho um Vizinho... Agora não quero pensar no professor com seus
teoremas. Era a vez do Vizinho.
Ananta
foi até a janela e afastou a cortina para ver o céu... Depois da sessão poderia
ir (andando) até a delegacia da mulher. Dessa mulher pela qual pode fazer tão
pouco. Tão especialmente pela mocinha com os seios furados.
No
decorrer da trama, outros capítulos são narrados em 3ª pessoa, há mais ações e
diálogos. É feita a descrição de ambientes enquanto as cenas se desenrolam. O
narrador conta o desaparecimento de Ananta Medrado, a viagem de Diogo, o
aparecimento do primo da analista e o internamento de Rosa em uma clínica de
recuperação.
Subo
na poltrona. O quarto esta escuro, mas vejo Rosa Ambrósia... no coração das
três mulheres.
Mãe
querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia.
Hoje
não acordei brilhante. A Diu leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros
que é um horror.
“O
delegado da delegacia de pessoas desaparecidas estava tomando café” Renato
Medrado parou...
-- Não usava joias, se tem alguma deve estar no cofre... Dólar? Não sei
dizer. O carro...
Bibliografia: LOBO, Luiza. A ficção
impressionista e o fluxo de Consciência (Joyce, V. Woolf, Proust). In: VASSALO,
Ligia (Org.). A narrativa ontem e hoje. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
Entendendo o romance:
01 – Como se
caracteriza a estrutura do enredo e a representação do tempo e do espaço na
obra?
O romance
apresenta um enredo fragmentado e não ordenado, que se desenvolve por meio de
múltiplos narradores. As ações começam em um capítulo, são interrompidas e retomadas
posteriormente. Na narrativa moderna da autora, o tempo é psicológico e
subjetivo, fundindo-se com o espaço através do fluxo de consciência das
personagens. As descontinuidades e os desvios temporais (avanços e retrocessos)
servem para refletir os dilemas e conflitos interiores das personagens em sua
relação caótica com a sociedade.
02 – Quem é Rosa
Ambrósio e quais são os principais conflitos existenciais que ela enfrenta?
Rosa Ambrósio é a
protagonista da obra, uma atriz decadente que vive atormentada pelas lembranças
de uma infância infeliz e marcada por perdas, como o abandono do pai e a morte
por overdose de seu primeiro amor, o primo Miguel. Seus principais conflitos
incluem a recusa em aceitar a velhice (que chama pelo eufemismo de "idade
da madureza"), o fim de sua carreira artística, o alcoolismo no qual se
afoga para fugir da realidade e um relacionamento amoroso masoquista e de
exploração com seu jovem secretário, Diogo.
03 – Qual é o papel
de Rahul na narrativa e como se justifica sua classificação como uma
"personagem personificada"?
Rahul é um gato e
um dos protagonistas do romance. Ele é uma personagem personificada porque
pensa, age, se comporta e reflete quase como um ser humano. Ele tece
comentários minuciosos sobre os moradores da casa, lê o íntimo das pessoas e
chega a manifestar uma onisciência por meio do discurso indireto livre. Rahul
idolatra o falecido marido de Rosa, Gregório (a ponto de ver seu fantasma
passeando pela casa), despreza o amante Diogo e acredita ter vivido outras
encarnações em vidas passadas.
04 – Como é descrita
a relação entre Rosa Ambrósio e sua filha Cordélia?
É um
relacionamento conturbado, relapso e marcado pelo preconceito e pelo ciúme.
Rosa inveja a juventude de Cordélia e o forte vínculo que a filha mantinha com
o pai, Gregório. Além disso, Cordélia possui uma personalidade independente e
atrevida que choca a mãe, especialmente por manter relacionamentos com homens
mais velhos e demonstrar total indiferença em relação à crise existencial e
emocional vivida por Rosa.
05 – Quem é Ananta
Medrado e qual mistério envolve sua trajetória no romance?
Ananta Medrado é
uma analista de comportamento estranho, metódica, disciplinada e solitária, que
também realiza trabalho social em uma Delegacia de Proteção à Mulher. Ela
demonstra uma tendência para o mistério e possui uma obsessão por um homem que
afirma morar no andar superior de seu edifício (o "Vizinho"). O
grande mistério em torno de sua trajetória é o seu desaparecimento repentino,
que ocorre sem deixar pistas, mobilizando um delegado e levantando suspeitas
sobre o real interesse de seu primo, Renato Medrado, em encontrá-la ou herdar
seus bens.
06 – De que forma o
discurso polifônico se manifesta através dos diferentes focos narrativos da
obra?
A polifonia se
constrói pela alternância de três tipos de focos narrativos ao longo do texto:
Narrador em 1ª pessoa (Rosa Ambrósio):
Expressa-se por meio de monólogos interiores no início do livro, revirando seu
passado de dores e glórias.
Narrador-personagem personificado (Rahul,
o gato): Narra de forma quase doentia e minuciosa a intimidade de Rosa e seu
amante, alternando momentos de testemunha com os de narrador onisciente.
Narrador em 3ª pessoa: Introduzido a
partir do quinto capítulo para descrever o consultório e a rotina de Ananta
Medrado, além de conduzir as investigações sobre o sumiço da analista, o
internamento de Rosa e a partida de Diogo.
07 – O texto
menciona que o romance possui uma linguagem "plurissignificativa".
Quais figuras de linguagem e elementos de intertextualidade exemplificam essa
característica?
A linguagem plurissignificativa
se manifesta através de:
Estrangeirismos: Termos como "Hasta
siempre", "illustration" e "Formes et couleurs".
Figuras de Linguagem: Metáforas (como
Rosa ver a filha "boiando no rio do supérfluo"), personificação
(atribuída às ações do gato Rahul) e eufemismo (a expressão "idade da
madureza" para evitar a palavra velhice).
Intertextualidade: Referências ao conto
infantil "João e Maria", às cantigas de roda ("O cravo e a
rosa"), a trechos bíblicos ("não julgueis e não sereis
julgados"), à transformação urbana da Praça da República e à clássica
frase da literatura policial "É elementar, meu caro Watson".
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