Crônica: AMOR PLATÔNICO
João Francisco P. Cabral
Em
um dos mais belos textos da literatura mundial, O Banquete, Platão expôs aquilo
que seria a sua doutrina sobre o amor.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfRx7vckWKfMMTP5vkV4W6CIxptjm56ctrtcRX6OZcJxT83C3dJ6A08D1pwsfikvE5BuKAIek2y6ep3SiOOZuvabbQ0JfyA5w8q1EckyB56Hc03fGdfsVyxdpcJzk2x-I3uGZzyUCDIWOd8SqCvcN06pd43X2bPl4zhRr2k7N9qMV8CiXih_SnAHymwXI/s320/4d5432c3-2afa-4e9f-98a5-8a9479dccd3cBANQUETE1_W.png A
narrativa que rememora uma festa acontecida na casa de um famoso poeta (Agatão)
vai desencadear uma série de elogios ao deus que, se acreditava, não havia
ainda recebido os louvores dos homens. Assim, o deus foi tido por diversos
caracteres, desde o deus mais antigo e por isso bom educador, passando por uma
força cósmica universal geradora dos seres, até uma dupla característica, uma
vulgar e outra ascética, bem como também o deus mais jovem, mais belo e por
isso irresponsável, criador, etc.
Chegada
a vez de Sócrates falar, surge o problema: Sócrates não sabe falar bem
(eloquência). Ele não sabe elogiar, mas gostaria, na forma dialogada, falar do
deus. E sua primeira questão é: o que é o amor? Ou seja, antes de falar se ele
é bom ou mau, belo ou feio, se ajuda ou se atrapalha na educação, deveríamos
saber o que ele é. Para desconcerto geral, Sócrates define o amor como sendo a
busca da beleza e do bem. E sendo assim, ele mesmo não pode ser belo nem bom.
Quem ama, deseja algo que não tem. Quando se tem, não se deseja mais, ou se se deseja,
deseja manter no futuro, o que significa que não o tem. E todos só desejam o
melhor, ninguém escolhe o mal voluntariamente. Logo, o amor é o desejo do belo
e do bom. Essa definição permite uma compreensão universal do objeto (o amor).
Mas não devemos também acreditar que por não ser bom, o amor é mau. Não é uma
conclusão necessária. Para isso, Sócrates vai contar o que Diotima contou-lhe
sobre o amor.
Para
combater o mito que acabara de escutar da boca de um comediógrafo (Aristófanes
- mito da alma gêmea), Sócrates mostra o que aprendeu com aquela que o iniciou
nos mistérios do amor. Diotima disse ao nosso filósofo que durante uma festa,
todos os deuses foram convidados, menos a deusa Penúria. Faminta e isolada, ela
procurou alimento nos restos da festa. Porém, ao ver o deus Astuto, deus
engenhoso, cheio de recursos e que estava embriagado, deitado num jardim, a
deusa resolveu ter um filho com ele. Nasce daí o deus Eros (ou amor), que
assume as características de seus pais. Como sua mãe, ele é pobre, carente,
faminto, desejante. Mas como seu pai, ele é nobre, cheio de recursos para
alcançar o que lhe aprouver, saciando suas necessidades.
Em
um nível cósmico, a função do deus é ligar os homens a Zeus, sendo um
intermediário entre eles. Aos deuses, o amor leva as súplicas dos homens, seus
anseios, suas dúvidas e necessidades através das preces e orações. Aos homens,
o deus do amor traz as recomendações aos sacrifícios e honra aos deuses. Por
isso, não sendo nem bom nem mal, mortal e também imortal, o amor é o que nos
leva a escolher sempre o melhor, a fazer o bem. Ele morre, como um desejo que
se acaba, mas logo nos inflama novamente, renascendo na alma dos homens.
Todavia, o que é o belo e o bem que o amor busca?
Para
Platão, no nível mais imediato, o amor refere-se à nossa sensibilidade e
apetites, principalmente o sexual. Vemos, a partir de um corpo, a beleza, e o
desejo de procriar nele. Isso significa, inconscientemente, que o desejo por um
corpo belo é a tentativa da matéria de se eternizar. Os filhos são uma forma
dos pais serem eternos. No entanto, o belo não é somente o corpo, tanto que
logo que esse desejo se esvai, percebemos que outros corpos também nos atraem.
Assim, passamos do singular (indivíduo) para o universal (todos os indivíduos).
Mas ainda nisso não consiste a beleza, apenas participa da ideia. Para Platão,
subimos degraus na compreensão da beleza, dos corpos até as ações nas ciências,
nas artes e na política, que expandem a ideia de beleza. Mas ela mesma é uma ideia,
norteadora das ações humanas, que dirige as almas para o bem absoluto que não
pode simplesmente ser conquistado pelo homem encarnado.
Portanto,
o homem, como duplo corpo-alma, jamais conhecerá a verdade de modo absoluto.
Isso cabe somente aos deuses. Mas nem por isso deve deixar de se desenvolver. É
moral dever agir procurando o melhor sempre. Ao homem, ser desejante
intermediário entre os deuses e os outros seres não conscientes, cabe buscar o
conhecimento que o aproxime dos deuses, não se deixando fascinar pelo sensível,
mas buscando compreender o inteligível, o reino das ideias, o que propriamente
é o saber. Assim, naturalmente, o homem é filósofo (ou deveria ser!) buscando a
sabedoria, entendendo por isso a melhor forma de usar a parte que lhe é
principal – a alma – para agir, ser dono dos desejos, compreendendo a função de
cada um e não se tornar escravos desses.
Por João Francisco
P. Cabral. Colaborador Brasil Escola.
Entendendo a crônica:
01 – Como Sócrates
desconstrói a ideia de que o Amor (Eros) é um deus belo e bom?
Sócrates propõe uma abordagem lógica ao questionar, antes de tudo, o que é o amor. Ele define o amor como a busca, o desejo pelo belo e pelo bem. A partir disso, surge a conclusão de que o amor não pode ser belo nem bom por si mesmo, pois quem ama deseja aquilo que não tem. Como o amor passa a vida inteira buscando e desejando a beleza e a bondade, significa que ele carece de ambas.
02 – Qual é a origem
mítica do deus Eros (o Amor) segundo o relato de Diotima e quais
características ele herdou de seus pais?
Diotima conta que Eros nasceu durante uma festa dos deuses, fruto da união entre a deusa Penúria (que estava faminta e isolada) e o deus Astuto (que estava embriagado em um jardim). Dessa união, Eros herdou características de ambos: de sua mãe, herdou a pobreza, a carência e a condição de estar sempre faminto e desejante; de seu pai, herdou a nobreza e a engenhosidade, sendo cheio de recursos e estratagemas para alcançar aquilo que deseja e saciar suas necessidades.
03 – No nível
cósmico, qual é a função atribuída ao amor e por que o texto afirma que ele
"morre e renasce"?
No nível cósmico, o amor funciona como um intermediário e um elo de ligação entre os homens e os deuses (Zeus). Ele leva aos deuses as preces, súplicas e dúvidas dos mortais e traz aos homens as recomendações divinas. O texto afirma que ele "morre e renasce" porque atua como o próprio desejo humano: ele morre temporariamente quando um desejo específico é saciado, mas logo se inflama e renasce na alma quando surge uma nova busca pelo melhor.
04 – Como Platão
explica a transição do amor físico (sensível) para o amor ideal (inteligível)?
Para Platão, o amor começa no nível mais imediato da sensibilidade e do apetite sexual, onde o ser humano é atraído por um corpo belo para procriar — uma tentativa inconsciente da matéria de se eternizar através dos filhos. Contudo, o homem percebe que a beleza não está presa a um único corpo e expande esse sentimento para o plano universal. A partir daí, o indivíduo "sobe degraus", passando a enxergar a beleza nas ações humanas, nas ciências, nas artes e na política, até atingir a compreensão da Beleza como uma Ideia pura e norteadora, que direciona a alma ao bem absoluto.
05 – Diante da condição
humana de "duplo corpo-alma", qual deve ser o papel do homem e a sua
relação com a filosofia de acordo com a crônica?
Como um ser duplo
(composto de corpo e alma), o homem jamais conhecerá a verdade de modo
absoluto, algo que cabe apenas aos deuses. No entanto, seu dever moral é buscar
o conhecimento que o aproxime do divino, sem se deixar escravizar pelo mundo
sensível (dos desejos físicos). O homem deve usar a sua parte principal — a
alma — para ser dono de suas paixões e compreender o mundo inteligível. É essa
busca constante pela sabedoria e pelo aperfeiçoamento que torna o ser humano,
naturalmente, um filósofo.
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