Conto: O espelho
Machado de Assis
Quatro
ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta
transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos
espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada
a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre
a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas
pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos
quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente
os mais árduos problemas do universo.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3wJU_GhPWbvg_QEdPljA8jbpS_hRiV3zoVfWkdzwhArbQ8FeTgNdZTGOXXgvVW0Mmxpfu-O83dvP6OkLJ2wGAaMvR0cIzJQ0YLi3V53auyqLV9Dc8prOxyVnkugRyh96vnYf-WcHQYES2n3Nm-hB2u_Awt4-swe2Sv3c45s89BxrqqFYhyphenhypheno6b-O_ZJiA/s320/71zQ+0s3oBL._UF1000,1000_QL80_.jpg Por
que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles,
havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja
espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse
homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos,
era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece,
astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um
paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que
jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os
querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e
eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos
presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim
se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
-- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai
senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e
não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros,
veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro
amigos.
Cada
cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se
difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do
tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, – uma conjetura, ao menos.
-- Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar
lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me
calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara
demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma
só alma, há duas...
-- Duas?
-- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas
consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro...
Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não
admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior
pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma
operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma
exterior de uma pessoa; – e assim também
a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um
tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida,
como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma
laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e
casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência
inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus
ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz
ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta
frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é
preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
-- Não?
-- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas
absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder,
que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e
exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há
cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um
chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade,
suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, – na verdade, gentilíssima, –
que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é
a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um
concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...
-- Perdão; essa senhora quem é?
-- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se
Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas
trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes
falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
Os
quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a
controvérsia.
Santa
curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia,
fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há
pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos
estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis
aqui como ele começou a narração:
-- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes
da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa.
Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e
tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns
despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi
outro senão que o posto tinha muitos candidatos e
que esses perderam. Suponho também que uma
parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção.
Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de
revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas
que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a
prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das
minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas
da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter
com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou
à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe
dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me!
Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto
patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha
mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé
adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda
a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a
cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado
dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira.
Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos
escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor
lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo
da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho,
obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta
e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe,
que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não
sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente
muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns
delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de
madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...
-- Espelho grande?
-- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava
na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do
propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e
finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que
todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma
transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou.
Imaginam, creio eu?
-- Não.
-- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas
equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma
parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes
o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a
cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me
falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que
entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.
Custa-lhes acreditar, não?
-- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
-- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são
tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem
me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos.
Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do
alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se
eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor.
No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente
alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas
filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à
morte. “Adeus, sobrinho! Adeus, alferes!” Era mãe extremosa, armou logo uma
viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio.
Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e
iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa.
Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante
ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de
mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos
boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa,
e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas
cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a
intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles
redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a
minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes
há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e
profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a
intenção secreta dos malvados.
-- Matá-lo?
-- Antes assim fosse.
-- Coisa pior?
-- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por
outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e
assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do
terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda,
a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente,
um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os
mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que
isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não
tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as
primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina;
fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe
dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre,
para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu
ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o
irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído
havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde
comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação
nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não
voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou
proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a
terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no
velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior,
como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma
poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho:
Never, for ever! – For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio:
recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da
tia Marcolina: – Never, for ever! – For ever, never! Não eram golpes de
pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não
que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a
noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais
larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos
corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
-- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
-- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico
daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente
entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um
sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me
alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que
posso explicar assim esse fenômeno: – o sono, eliminando a necessidade de uma
alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me
orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que
me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente,
outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava,
dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único – porque a
alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que
teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se
descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien
venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a
poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso,
desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac,
tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas,
assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo
político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e
tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo.
Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne...
Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
-- Mas não comia?
-- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao
fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em
que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga,
oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia
ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação
física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto,
enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac,
tic-tac... Na verdade, era de enlouquecer. Vão ouvir coisa pior. Convém
dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não
era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um
receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal
explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim
de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de
achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do
universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada,
difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o
espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim
devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o
fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e
enlouquecer. – Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau
humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava,
mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo,
tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os
botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para
o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de
contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração
inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de
adivinhar qual foi a minha ideia...
-- Diga.
-- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado,
contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas
soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de
adivinhar.
-- Mas, diga, diga.
-- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo;
e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada;
o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum
contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.
Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la
recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um
letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos
objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é
Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que
era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para
outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um
autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa
hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando,
meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime
pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando
os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
Fonte: ASSIS, Machado de. O ESPELHO.
Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Entendendo o conto:
01 – Qual é a tese
principal defendida pelo personagem Jacobina a respeito da natureza humana?
Jacobina defende
que o ser humano não possui apenas uma alma, mas sim duas. A primeira é a
"alma interior", que olha de dentro para fora. A segunda é a
"alma exterior", que olha de fora para dentro. Segundo ele, as duas
metades se completam para formar o indivíduo e a perda da alma exterior pode
esvaziar ou até extinguir a própria existência do homem.
02 – O que pode
constituir a "alma exterior" de uma pessoa, de acordo com a teoria de
Jacobina?
A alma exterior é
extremamente variável e moldável. Ela pode ser um espírito, um fluido, um
homem, muitos homens, um objeto ou até uma operação. Como exemplos, Jacobina
cita que a alma exterior de um judeu Shylock eram seus ducados, a de Camões era
a pátria, a de César era o poder, e que para outras pessoas pode ser um botão
de camisa, a ópera, um jogo de cartas ou um par de botas.
03 – Qual
acontecimento na juventude de Jacobina mudou radicalmente a percepção que ele e
os outros tinham de sua identidade?
Aos 25 anos,
sendo jovem e pobre, Jacobina foi nomeado alferes da Guarda Nacional. Esse
posto gerou enorme orgulho e alegria em sua mãe e parentes, além de despeito em
alguns rapazes da vila. A partir de então, todos passaram a tratá-lo
exclusivamente pelo título de "senhor alferes", fazendo com que a
vaidade do posto (a nova alma exterior) eliminasse progressivamente a sua
antiga natureza humana original.
04 – Por que a tia Marcolina
decidiu colocar um espelho grande e luxuoso no quarto de Jacobina?
Foi uma
demonstração de grande agrado, respeito e entusiasmo pela nomeação do sobrinho.
O espelho era a melhor peça da casa, uma obra rica e magnífica com moldura de
ouro e detalhes em madrepérola que destoava do restante da mobília simples. A
tradição dizia que o objeto fora comprado de uma fidalga que viera de Portugal
com a corte de Dom João VI em 1808.
05 – Como Jacobina
acabou ficando completamente isolado no sítio de sua tia?
Cerca de três
semanas após sua chegada, tia Marcolina recebeu a notícia de que uma de suas
filhas estava à beira da morte. Ela partiu às pressas levando o cunhado e
deixando Jacobina encarregado de tomar conta do sítio. Na noite seguinte à partida
dos tios, os escravos da propriedade decidiram fugir juntos, levando inclusive
os cães e deixando Jacobina totalmente sozinho, sem nenhum outro ser humano por
perto.
06 – O que Jacobina
enxergava quando olhou pela primeira vez no espelho após passar uma semana em
completa solidão?
Ele não viu sua
figura de forma nítida e inteira. A imagem projetada pelo vidro aparecia vaga,
esfumada, difusa — o que ele descreve como uma "sombra de sombra" ou
uma "nuvem de linhas soltas". Embora as leis físicas reproduzissem
seus contornos reais, a sensação de esvaziamento de sua alma exterior fez com
que ele se sentisse incapaz de enxergar a própria identidade humana,
gerando-lhe medo de enlouquecer.
07 – Como Jacobina
conseguiu resolver o problema da imagem difusa no espelho e sobreviver ao
restante dos dias de solidão?
Por um impulso
inexplicável, ele teve a ideia de vestir a sua farda de alferes completa. Ao
olhar novamente para o espelho fardado, o vidro reproduziu instantaneamente sua
figura integral, sem nenhuma linha borrada. Ele percebeu que sua alma exterior,
que havia sumido com as pessoas do sítio, estava recolhida na farda. A partir
daí, ele passou a vestir-se de alferes por duas ou três horas todos os dias
diante do espelho para recuperar a própria existência e suportar o isolamento.
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