Conto: OS MORTOS IV – parte 4
JAMES JOYCE
Seu
rosto vermelho aproximara-se com excessiva intimidade e a voz descambara para o
rude sotaque de Dublin, de forma que as moças, instintivamente, receberam em
silêncio suas palavras. Senhorita Furlong, aluna de Mary Jane, perguntou à
senhorita Daly qual o nome da linda valsa que ela tocara e Browne, vendo-se
ignorado, voltou-se para os rapazes que se mostravam mais atenciosos.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBRthbHmn9nMhHoNaFSpCaxgHUsv4YdvLusgBMpG5ezLq79CfVCW41EwPJDgQeo89UGGa_7-LSQ6I0_BFjXKzaQ2NOG8AAMLxb2ic2i1R4oXjyc7qqZgCsZOZ2cDglogRJEnTFoD0VzPf08ASd5JQI5mQJ0VerrI2On84GUp0209TQVFMWufKOqcGc5ms/s320/MORTOS.jpg Uma
jovem muito corada, de vestido lilás, entrou na sala batendo freneticamente as
mãos e gritando:
-- Quadrilha! Quadrilha!
Logo
atrás, apareceu tia Kate:
-- Dois cavalheiros e três damas, Mary Jane!
-- Oh! Aqui estão o senhor Bergin e o senhor Kerrigan – disse Mary Jane.
– Senhor Kerrigan, quer acompanhar a senhorita Power? Senhorita Furlong, posso
arranjar-lhe um par? Senhor Bergin. Pronto, agora está completo.
-- Três damas, Mary Jane - insistiu tia Kate.
Os
dois rapazes perguntaram às moças se podiam ter a honra e Mary Jane voltou-se
para a senhorita Daly.
-- Senhorita Daly! Você está sendo muito gentil. Depois de tocar duas
valsas! Mas há tão poucas mulheres esta noite.
-- Não estou cansada, senhorita Morkan. Não se preocupe.
-- Mas tenho um par encantador para você. Senhor Bartell D'Arcy, o
tenor. Mais tarde, eu o farei cantar para nós. Toda Dublin está delirando por
ele.
-- Uma voz maravilhosa, maravilhosa – disse tia Kate.
O
piano começara duas vezes o prelúdio para a primeira figura e Mary Jane
apressou-se em levar os pares. Mal haviam saído e tia Júlia entrou preocupada
na sala, olhando para trás.
-- Que aconteceu? – perguntou tia Kate preocupada – Quem está aí?
Júlia,
que carregava uma pilha de guardanapos, voltou-se para a irmã e disse, como se
a pergunta a tivesse surpreendido:
-- É Freddy Gabriel está com ele.
Com
efeito, logo atrás dela vinha Gabriel dirigindo Freddy Malins. Este último, um
jovem de quase quarenta anos, da mesma altura e tamanho de Gabriel, tinha
ombros bastante largos. Seu rosto era gordo e pálido, corado apenas nos lobos
carnudos da orelha e nas largas narinas. Tinha feições grosseiras: nariz chato,
testa curva e luzidia lábios grossos e úmidos. Seu olhar pesado e os
cabelos em desordem davam-lhe um ar sonolento. Ria alto e francamente da
história que acabara de contar na escada a Gabriel, esfregando o olho esquerdo
com o punho.
-- Boa noite, Freddy – disse tia Kate.
Freddy
respondeu ao cumprimento de um modo que pareceu pouco cerimonioso devido sua
crônica rouquidão e, vendo que Browne lhe arreganhava os dentes lá no canto,
atravessou a sala com passos incertos e começou a repetir em voz baixa a
história que contara a Gabriel.
-- Ele não está muito ruim, está? – perguntou tia Kate.
Gabriel
tinha o semblante carregado, mas recompôs-se imediatamente e respondeu:
-- Oh, não! Quase nem se nota.
-- Ele não é mesmo terrível? – disse ela. – Pensar que a mãe o fez jurar
que não iria beber na passagem de ano. Venha, Gabriel. Vamos para o salão.
Antes
de deixar a sala em companhia de Gabriel, fez um sinal com o dedo para Browne,
que balançou a cabeça em resposta e disse para Freddy, quando a viu sair:
-- Agora, Freddy, vou preparar-lhe um bom copo de limonada, para reanimá-lo.
Freddy,
que chegava ao clímax da história, recusou o oferecimento com certa irritação.
Browne, porém, distraindo-lhe a atenção para um desarranjo na roupa, encheu o
copo de limonada e entregou-o a Freddy. Sua mão esquerda aceitou-o mecanicamente,
enquanto a direita, também mecanicamente, ocupava-se em ajustar a roupa.
Browne, cujo rosto mais uma vez se contraíra numa expressão divertida, preparou
para si um copo de uísque, enquanto Freddy, antes mesmo de atingir o desfecho
da história, explodia num acesso de riso e, colocando o copo de limonada,
intacto e transbordante, sobre o bufê, começou a esfregar o olho esquerdo,
repetindo a última frase, tanto quanto a tosse e o riso lhe permitiam.
Gabriel
não conseguia prestar atenção à peça clássica que Mary Jane executava, cheia de
escalas e passagens difíceis para a sala silenciosa. Gostava de
música, mas a peça não tinha melodia para ele e duvidava que tivesse para os
outros, embora todos houvessem implorado a Mary Jane que tocasse alguma coisa.
Quatro rapazes, que ao som do piano tinham vindo do bufê até a porta,
afastaram-se silenciosamente, dois de cada vez, após alguns minutos. As únicas
que pareciam interessadas eram a própria Mary Jane, cujas mãos corriam pelo
teclado ou erguiam-se dele num gesto de sacerdotisa em súbita imprecação, e tia
Kate, sentada a seu lado para virar as páginas.
Os
olhos de Gabriel, feridos pelo reflexo do lustre no assoalho encerado,
desviaram-se para a parede atrás do piano. Havia ali uma gravura da cena do
balcão de Romeu e Julieta e, ao lado dela, um quadro com os dois principezinhos
assassinados na Torre, que tia Júlia bordara com lã vermelha, azul e marrom, em
seu tempo de menina. Elas certamente haviam aprendido esse gênero de trabalho
durante um ano inteiro, na escola que frequentaram. Sua mãe também bordara,
como presente de aniversário pequenas cabeças de raposa, num colete de moire
púrpura, forrado de cetim marrom e com botões em forma de amor. Era estranho
que ela não tivesse talento para música, embora tia Kate costumasse chamá-la o
cérebro da família Morkan.
Tanto
Kate quanto Júlia haviam sempre deixado transparecer certo orgulho pela irmã
grave e imponente. Havia um retrato dela diante do espelho do aparador. Estava
com um livro aberto sobre os joelhos e mostrava alguma coisa a Constantine que,
vestido à marinheira, sentara-se aos seus pés. Ela mesma escolhera os nomes dos
filhos, pois era muito ciosa do decoro da vida familiar. Graças a ela,
Constantine era hoje pároco de Balbriggan e Gabriel diplomara-se na
Universidade Real. Uma sombra percorreu-lhe o rosto ao lembra-se da obstinada
oposição que a mãe fizera ao seu casamento. Certas frases ferinas machucavam-no
ainda na memória. Ela afirmara, certa vez, ser Gretta uma provinciana
interesseira e isso não era verdade. Gretta é quem cuidara dela durante a longa
e fatal enfermidade, em Monkstown.
Tradução de Hamilton Trevisan. OS MORTOS – JAMES JOYCE – PARTE 4 / DA LISTA DOS CEM MELHORES CONTOS DO
MUNDO / REVISTA BRAVO – 2009.
Entendendo o conto:
01 – Por que as moças receberam as palavras do
Senhor Browne em silêncio no início do texto?
Porque o rosto vermelho dele havia se aproximado com excessiva intimidade e sua voz tinha descambado para um rude sotaque de Dublin.
02 – Quem é Bartell D'Arcy e o que Mary Jane e
tia Kate dizem sobre ele?
Bartell D’Arcy é um tenor por quem toda Dublin está delirando. Mary Jane e tia Kate elogiam sua voz, chamando-a de “maravilhosa”.
03 – Qual era a preocupação de tia Kate em
relação a Freddy Malins e o que a mãe dele o fizera prometer?
A preocupação era se Freddy estava muito bêbado ("muito ruim"). Tia Kate lembra que a mãe dele o fizera jurar que não iria beber na passagem de ano.
04 – Como o Senhor Browne tenta intervir no
comportamento de Freddy Malins em relação à bebida e qual é o resultado?
Browne prepara e entrega a Freddy um copo de limonada para reanima-lo. Freddy aceita o copo mecanicamente, mas acaba deixando-o intacto e transbordante sobre o bufê enquanto ri e tosse.
05 – Qual é a opinião de Gabriel sobre a peça
clássica que Mary Jane executa ao piano?
Gabriel não conseguia prestar atenção e achava que a peça não tinha melodia para ele, duvidando que tivesse melodia para qualquer outra pessoa ali presente.
06 – Quais são as imagens/quadros que Gabriel
observa na parede atrás do piano enquanto Mary Jane toca?
Ele observa uma gravura da cena do balcão de Romeu e Julieta e, ao lado dela, um quadro com os dois principezinhos assassinados na Torre (que tia Júlia havia bordado com lã na infância).
07 – Que lembrança amarga e sombra percorrem o
rosto de Gabriel ao pensar em sua falecida mãe?
Gabriel lembra-se da obstinada oposição que sua mãe fizera ao
seu casamento, recordando-se de frases ferinas em que ela acusava Gretta (sua
esposa) de ser uma "provinciana interesseira" — o que ele ressalta
ser mentira, pois foi Gretta quem cuidou da mãe dele durante sua longa e fatal
enfermidade.
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