Crônica: A igreja do diabo – Resenha
Certo
dia o Diabo teve a grande ideia de fundar uma igreja pois estava cansado de ter
tantos súditos e não ter organização, um ritual, enfim estava cansado de não
ter regras. O Diabo pensava que ao abrir uma igreja, estaria destruindo de vez
todas as outras religiões, enquanto as outras se combatiam e dividiam, a igreja
do Diabo seria única. Decidido isso ele foi aos céus avisar a Deus e
desafiá-lo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgl6ZoQb6u3vzDyrbS3C5ylkGLnvlX2AAthaIkiG9EDwlmUBP5vAe4PPCeGIILVXPNKnviJvNiT4TVQjKLfMSB0FYnU1MxZPuUqiihJiM7CRXvELfpUpDNPxjV-bCgUwOd5Il_dqLEu24X3tMt30k5GMbKDJ5RJLkmJtCFcKFlyhMYuigGtp0-Dfu7Yy3M/s320/IGREJA.png Chegando ao infinito azul, o Diabo
encontrou Deus e o comunicou sobre a Igreja dizendo que faria todos os humanos
negares suas virtudes e desceu a terra para colocar seu plano em prática.
Uma
vez na Terra o Diabo não perdeu um minuto, entrou para espalhar uma doutrina
nova e extraordinária. Prometeu a seus discípulos e fiéis as delícias da terra,
todas as glórias. Confessava que era o Diabo para provar para os seres humanos
que ele não era tudo que Deus falava e que também era um pai e podia dar tudo
que fosse pedido. A multidão veio mesmo aos seus pés.
Ele
clamava que as virtudes aceitas deveriam ser substituídas pelas naturais e
legítimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram reabilitadas e assim também a
avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia. A ira e a gula
agora eram muito bem vistas. Quanto a inveja, pregou friamente que era a
virtude principal, preciosa, que chegava a suprir todas as outras.
Ele
chamava a fraude de braço esquerdo do homem, o direito era a força. A
demonstração mais rigorosa e profunda foi à venalidade, dizia ele que era o
exercício de um direito superior a todos os direitos. Se você pode vender a sua
casa, o seu boi, porque não pode vender sua opinião? o teu voto, tua fé? Coisas
que são mais do que sua, porque são sua própria consciência, isto é, tu mesmo?
E
assim o Diabo descia e subia, examinava tudo. Todas as formas de respeito foram
condenadas por eles, a única exceção do interesse. Para arrematar a obra
entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Não se
devia dar ao próximo nada, a não ser a indiferença e em alguns casos, ódio ou
desprezo. A única hipótese que lhe permitia amar ao próximo era quando se
tratasse de amar a mulher alheia.
As
pessoas foram chegando e a igreja fundara-se, a doutrina propagara-se, não
havia ninguém que a não conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça
que não a amasse.
O
Diabo alcançou brados de triunfo. Muitos anos depois o Diabo notou que muitos
dos seus fies, às escondidas praticavam as antigas virtudes, não todas nem
integralmente, mas principalmente ligação a dias católicos e esmolas.
A
descoberta assombrou o Diabo pois haviam casos em todos os lugares. Não se
deteve um instante, voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ansioso para
conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus o ouviu calmamente, não
o interrompeu, não o surpreendeu, não triunfou, sequer daquela agonia satânica.
Pôs
os olhos nele e disse-lhe:
-- Que queres tu? É a eterna contradição
humana.
É
interessante observar nesse conto a natureza contraditória do ser humano,
parece que tudo aquilo que é proibido é o que queremos e se essa mesma coisa se
torna permitida, já perde a graça e logo já queremos outro desafio e acabamos
sempre insatisfeitos. Os homens, como seres imperfeitos, não conseguem viver
com nada que for extremo, ainda mais com o que a religião diz que seus fiéis
devem supostamente obedecer, sendo assim contraditórios a todo instante.
Nossas
atitudes se encaixam perfeitamente nessa “igreja do Diabo”, temos o sério
hábito de cometer pecados capitais, trapacear, fazer adultério e mentir. O
texto apresenta o Diabo com características essencialmente humanas, ele quer a
todo o instante o poder e a dominação.
Um
detalhe muito importante de se perceber nessa obra é que Deus é apresentado
assim como nós vemos ELE mesmo, com paciência, convivência com o livre arbítrio
e muita sabedoria, pois em nenhum momento ele se opunha nas atitudes do Diabo e
das pessoas.
No
entanto o que ocorre é que, assim como não somos capazes de seguir todas as
virtudes exigidas por Deus, também não seriamos capazes de exercer todos os
“ensinamentos” da igreja do Diabo, é a incapacidade do ser humano de seguir um
extremo. A todo instante o homem esta entre o ‘bem’ e o ‘mal’ e não consegue
aceitar apenas um destes.
Machado de Assis. A igreja do diabo –
Resenha.
Entendendo a crônica:
01 – Qual foi o principal motivo que levou o
Diabo a fundar a sua própria igreja na Terra?
O Diabo estava cansado de ter muitos súditos, mas nenhuma
organização, regras ou rituais formais. Além disso, ele acreditava que,
enquanto as outras religiões se dividiam e combatiam entre si, a sua igreja
seria única e destruiria todas as outras de uma vez por todas.
02 – Como o Diabo reabilitou os antigos pecados
capitais e a fraude em sua nova doutrina?
Ele pregou que as virtudes tradicionais deveriam ser
substituídas pelas "naturais". Assim, a soberba, a luxúria e a
preguiça viraram qualidades; a avareza foi declarada a "mãe da
economia"; a inveja virou a virtude principal; e a fraude foi definida
como o "braço esquerdo do homem" (sendo a força o direito).
03 – Qual foi o argumento do Diabo para
justificar a "venalidade" (o ato de se vender/aceitar suborno) como
um direito superior?
Ele argumentou que, se o ser humano tem o direito de vender
seus bens materiais — como uma casa ou um boi —, seria perfeitamente legítimo
vender coisas que lhe pertencem ainda mais profundamente, como sua opinião, seu
voto, sua fé e sua própria consciência.
04 – Que descoberta surpreendente e assombrosa
o Diabo fez muitos anos após o sucesso de sua igreja?
Ele notou que muitos de seus fiéis estavam, às escondidas,
praticando as antigas virtudes cristãs que ele havia proibido, recorrendo
especialmente à prática de dar esmolas e ao apego a datas católicas.
05 – Qual é a grande conclusão filosófica do
texto sobre a "eterna contradição humana" dita por Deus?
A conclusão é que o ser humano é incapaz de viver nos
extremos. Assim como a humanidade não consegue seguir perfeitamente todas as
virtudes exigidas por Deus, ela também falha em cumprir a maldade absoluta da
igreja do Diabo. O homem é imperfeito e vive em uma constante oscilação entre o
bem e o mal.
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