Conto: O CAPOTE IV – ÚLTIMA PARTE
Nicolai Gogól
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxk04DOJ0ab53ARVIDOcUiOyXxdw2GytIXIVEalti3kduqhbH_a4ZGUeCe5OXy7109MMT0hTqfQPu3jE8kILc1hhZHjNxjXUrjpw1nsNqwOCcSFiR_cG38kMdOVa0yZS3n9jm4Vzvtk3R6jOObZlPEP7uoh9eaMqnkQEdpwoQxe56BlH6t3RI4RSBhyd4/s320/capote.jpg Poucos
dias depois da sua morte compareceu na sua residência um contínuo,
enviado pela repartição, com ordem para se apresentar imediatamente;
exigia-o o chefe; mas o homem teve de voltar sozinho, levando a informação
de que o funcionário não podia apresentar-se. Tendo-lhe sido perguntado:
"Por que não pode?", respondeu estas palavras: "Não pode:
morreu; há quatro dias que o enterraram."
Desta
maneira se conheceu na repartição a morte de Acaqui Acaquievich, e no dia
seguinte já estava sentado no seu lugar um novo funcionário, muito mais
alto, que não desenhava as letras em linhas tão retas, mas, pelo
contrário, em linhas muito mais inclinadas e contrafeitas.
Mas
quem poderia imaginar que ainda não dissemos tudo acerca de Acaqui Acaquievich,
condenado a tornar-se famoso alguns tempos depois da morte, como
recompensa de uma vida que passou ignorada? Sucedeu efetivamente isso, e a
nossa pobre história tem uma abrupta conclusão.
Começou
a difundir-se por Sampetersburgo o rumor de que na ponte de Kaliuquine,
nas ruas vizinhas e nos bairros a que ela conduzia aparecia de noite um
fantasma, com aspecto de funcionário público, que procurava um capote
roubado e tirava capotes de todos os ombros, sem diferençar classes ou
profissões: os de gola de pele de gato, de castor, de coelho, de raposa
ou de qualquer outra espécie de pele.
Um
dos funcionários da repartição viu com os seus próprios olhos o fantasma e
reconheceu imediatamente o defunto Acaqui Acaquievich; mas produziu-lhe este
tal terror que se pôs a correr quanto podia, sem se atrever a voltar a
olhar para o fantasma, que o ameaçava com o dedo espetado.
De
todos os lados surgiam queixas de indivíduos a quem tinham desaparecido os
capotes, e isso acontecia a titulares e também às altas gentes do Paço;
muitos tinham-se até constipado em consequência do roubo.
A
polícia fez investigações para se apoderar do defunto, vivo ou morto, e
castigá-lo severamente, para exemplo de outros, mas a diligência não
resultou.
Assim, por exemplo, um polícia
de vigilância a uma das pequenas ruas de Kiriuquine, tendo agarrado o
defunto pela gola (no momento em que este ia a roubar o capote de certo
músico, que então tocava flauta), chamou em seu auxílio outros guardas de
ronda, enquanto tirava do bolso a caixa de rapé para encher o nariz, que
já lhe gelara seis vezes; mas o rapé devia ser de tal qualidade que nem
sequer o morto pôde suportá-lo.
Mal
o polícia, fechando com o dedo a narina direita, meteu o rapé na esquerda,
o defunto espirrou tão fortemente que lançou salpicos pelos olhos. E
enquanto o polícia esfregava os olhos com as mãos, o defunto desaparecia.
Chegaram a duvidar se, na verdade, o tinham tido na mão.
Desde
aí, os polícias amedrontaram-se tanto com as almas do outro mundo que não se
atreviam a apanhá-las nem sequer vivas, e só de longe gritavam: "Olá,
segue o teu caminho!"
E
o funcionário defunto começou a aparecer também na ponte
Kaliuquine, suscitando terror às pessoas tímidas.
Mas abandonamos por completo a "alta
personalidade", verdadeira responsável por que a nossa história tenha tido
um fim fantástico. Para honra da verdade, devemos dizer, antes de mais
nada, que a "alta personalidade", depois da morte do pobre
Acaqui Acaquievich, sentiu alguma compaixão. A piedade não lhe era
completamente estranha; o seu coração sentia impulsos de muito boas ações;
simplesmente a sua categoria não lhe permitia segui-los.
Mal
o amigo que o visitara saiu do seu gabinete, começou a pensar no pobre
Acaqui Acaquievich. E desde então, muitas vezes, quase
diariamente, evocava Acaqui Acaquievich, pálido, humilde, incapaz de
reagir à sua repreensão.
Aquela
recordação causava-lhe tão grande intranquilidade que, decorrida uma semana,
resolveu enviar um funcionário a casa de Acaqui Acaquievich para se
informar do que havia, como estava e se nalguma coisa podia ajudá-lo.
Ao
saber que morrera de febre, de um dia para o outro, comoveu-se
profundamente, escutou as censuras da sua consciência e esteve um dia
inteiro de mau humor.
Desejando
distrair-se e esquecer aquela desagradável impressão, foi, à noite, a casa
de um amigo, o que se refletiu de um modo admirável no seu estado de
espírito.
Esteve
animada a conversa, que decorreu agradável e amistosa; numa palavra,
passou a noite muito satisfeito. Ao cear, bebeu duas taças de champanhe,
que, como se sabe, é um excelente meio de aumentar a alegria.
O
champanhe, modificando-lhe o humor, decidiu-o a ir visitar certa senhora
sua conhecida, Catarina Ivanovna, uma alemã, segundo parece, com quem
mantinha afetuosas e excessivamente íntimas relações. Devemos acrescentar
que a "alta personalidade" não era já um homem novo e solteiro;
era casado e todos o consideravam um honrado pai de família. Tinha um
filho funcionário na Chancelaria e uma filha, bonita rapariga de 16 anos,
com o nariz um pouco adunco, que vinha todos os dias beijar-lhe a mão,
dizendo: "Bonjour, papa!" A esposa, que não se pode dizer que
fosse velha ou feia, estendia-lhe a mão para que ele lha beijasse; depois,
voltando-se para o outro lado, beijava-lhe ela, por seu turno, a mão.
Mas
a "alta personalidade", que se encontrava, aliás, plenamente
satisfeito com as ternuras domésticas, achou, no entanto, muito
importante, para se impor aos amigos, ter uma amante num bairro da cidade
afastado daquele onde vivia.
A
amante não era nem mais nova nem mais fresca do que a esposa, mas estes
enigmas existem no mundo, e não é nosso propósito esmiúça-los. Assim,
pois, a "alta personalidade" saiu de casa do seu amigo e,
sentando-se na carruagem, disse ao cocheiro: "Para casa de
Catarina Ivanovna"; e, embrulhando-se no seu quente capote,
permaneceu nesse estado agradável, como não é possível imaginar melhor
para um russo, em que nada se pensa e em que, entretanto, as ideias se
agitam na cabeça, cada qual mais lisonjeira, sem haver o penoso encargo de
as seguir ou coordenar.
Toda
a sua alegria consistia em recordar o sítio onde passara a noite e todos
os ditos com que fizera rir às gargalhadas o restrito e amável círculo dos
seus amigos; repetia a meia voz muitos desses ditos espirituosos e
observava que conservavam toda a graça dos antigos tempos, não podendo
assim deixar de rir-se sozinho com vontade.
Incomodou-o
subitamente a ventania que se levantara, Deus sabe donde e por quê,
fustigando-o fortemente no rosto, atirando-lhe flocos de neve aos olhos,
bufando-lhe na gola do capote como na vela de um navio, ou,
pelo contrário, colando-lha inesperadamente à cara com força sobrenatural,
de tal modo que se agitava constantemente de uma maneira e de outra,
sem poder libertar-se.
De
repente sentiu a "alta personalidade" que alguém o agarrava
muito fortemente pela gola do capote. Ao voltar-se, notou que era um
indivíduo de pequena estatura, com um fato velho e coçado, e reconheceu
com terror Acaqui Acaquievich.
O
rosto do funcionário estava pálido e o olhar era bem o de um defunto.
Mas o terror da "alta personalidade" não teve limites quando viu
que a boca do morto se abria e, exalando um odor de sepultura, lhe dirigia
estas palavras: "Sempre te apanhei! Agarrei-te finalmente pela gola!
Preciso do teu capote! Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me insultaste!
Dá-me agora o teu!"
A
pobre "alta personalidade" por pouco não morreu de susto.
Era
bem conhecida a sua severidade para com os inferiores e, considerando o
seu aspecto enérgico, todos diziam: "Está ali uma personalidade!"
No entanto, aqui, como muitos outros que posam de heróis, sentia tal
pavor que, não sem razão, começou a recear cair doente. Ele próprio despiu
o capote e disse para o cocheiro, com voz alterada: "Segue para casa!
Sem demora!" Mal o cocheiro ouviu aquele tom de voz, que o amo só
empregava nos momentos decisivos e que era acompanhado muitas vezes de
alguma coisa de mais efetivo, ocultando a cabeça entre os ombros, brandiu
o chicote e a carruagem despediu como um raio.
Seis
minutos depois achava-se a "alta personalidade" à porta da cocheira.
Pálido, amedrontado e sem capote, em vez de visitar Catarina Ivanovna,
entrou em casa, ocultou-se num quarto interior e passou a noite muito
inquieto.
No
dia seguinte de manhã, à hora do pequeno-almoço, a filha, ao vê-lo, disse
imediatamente: "Como estás pálido, papá!"; mas o papa calou-se e
a ninguém confessou palavra do sucedido, nem acerca do lugar onde
estivera, nem onde se dirigira depois. Aquele sucedido impressionara-o
fortemente.
E
muito poucas vezes mais lhe ouviram dizer: "Como se atreve o senhor?
Sabe quem tem diante de si?"; e, se tal acontecia, nunca era sem se
informar antes do que se tratava.
E
o mais notável foi, todavia, que a partir daquele dia não voltou a
aparecer o funcionário defunto: talvez porque o capote do general lhe
ficava perfeitamente. O certo é que nunca mais se ouviu falar de um roubo
de capote do mesmo gênero.
Muitos,
já se vê, não queriam ainda tranquilizar-se e contavam que em certos sítios da
cidade mais afastados aparecia o funcionário defunto.
Um
polícia viu, com os seus próprios olhos, sair o fantasma de uma casa; mas,
achando-se um tanto debilitado e falto de forças, não se atreveu a detê-lo
e limitou-se a segui-lo de longe.
O fantasma,
em determinado sítio, deu uma volta, olhou o polícia e perguntou-lhe: "Que
desejas?", mostrando um punho que não é possível observar nos seres
vivos.
O
polícia replicou: "Nada", e voltou para trás. O fantasma,
que era, no entanto, muito mais alto e tinha uns imensos bigodes,
dirigiu-se com grandes passadas para a ponte de Obujo, desaparecendo nas
trevas da noite.
Nicolai Gogól. Parte 4. Da lista
dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que
com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo
dia...
Entendendo o conto:
01 – De que maneira a repartição pública tomou
conhecimento da morte de Acaqui Acaquievich e como ele foi substituído no
trabalho?
A repartição só soube da morte porque um contínuo foi enviado
à casa do funcionário com ordens do chefe para que ele se apresentasse
imediatamente. O contínuo retornou sozinho informando que Acaqui não podia ir
porque havia morrido e sido enterrado quatro dias antes. No dia seguinte, um
novo funcionário, muito mais alto, já ocupava o seu lugar, desenhando as letras
com linhas bem mais inclinadas e contrafeitas.
02 – Que acontecimento fantástico passou a
assombrar a cidade de Sampetersburgo algum tempo após a morte de Acaqui
Acaquievich?
Começou a difundir-se o rumor de que um fantasma com aspecto
de funcionário público aparecia à noite na ponte de Kaliuquine e nas
redondezas. O espectro buscava um capote roubado e arrancava violentamente os
agaloados de qualquer pessoa que passasse, sem distinguir classe ou profissão,
fossem golas de pele de gato, castor, raposa ou coelho.
03 – Como um guarda de rua quase conseguiu
capturar o fantasma e por que a tentativa falhou de forma cômica?
O guarda conseguiu agarrar o defunto pela gola no momento em
que ele roubava o capote de um músico que tocava flauta. Enquanto chamava
reforços, o guarda decidiu tirar sua caixa de rapé para aquecer o nariz
congelado. Porém, ao aspirar o tabaco, o defunto espirrou tão fortemente que
salpicou os olhos do guarda. Enquanto o policial esfregava os olhos, o fantasma
desapareceu, deixando os guardas com medo de tentar capturar até almas vivas.
04 – Como a "alta personalidade" reagiu
intimamente ao saber que Acaqui Acaquievich havia morrido de febre?
A "alta personalidade" sentiu uma profunda
compaixão e os remorsos de sua consciência, pois já vinha se lembrando
diariamente da figura humilde do funcionário que ele havia repreendido. Ao
receber a notícia do falecimento através de um emissário que enviara para
ajudar o pobre homem, o general comoveu-se e passou o dia inteiro de mau humor.
05 – O que a "alta personalidade"
pretendia fazer na noite em que foi atacada pelo fantasma e qual era o seu
estado de espírito antes do susto?
Após beber champanhe na casa de um amigo, ele pegou sua carruagem para
visitar sua amante, Catarina Ivanovna, com o objetivo de se exibir para os
amigos (embora fosse um honrado pai de família). Antes do ataque, ele estava em
um estado extremamente agradável e tipicamente russo: relaxado, embrulhado em
seu capote quente, rindo sozinho ao recordar as piadas espirituosas que fizera
horas antes.
06 – Como foi o confronto direto entre o
fantasma de Acaqui Acaquievich e a "alta personalidade" no meio da
tempestade?
Uma ventania sobrenatural atingiu o rosto do general e, de
repente, alguém o agarrou fortemente pela gola. Ao olhar, ele reconheceu com
pavor o pálido Acaqui Acaquievich. Exalando um odor de sepultura, o morto abriu
a boca e exigiu o casaco do general dizendo: "Sempre te apanhei! (...)
Preciso do teu capote! Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me
insultaste! Dá-me agora o teu!". Apavorado, o próprio general despiu o
capote e fugiu desesperadamente na carruagem.
07 – Quais foram as consequências do ataque do
fantasma na conduta e nos hábitos da "alta personalidade" a partir
daquele dia?
O general mudou drasticamente o seu comportamento
autoritário. Ele quase adoeceu de susto, voltou para casa pálido, cancelou o
encontro com a amante e não contou a ninguém o que houvera. A partir dali, ele
raramente voltou a gritar com seus subordinados as frases "Como se atreve
o senhor? Sabe quem tem diante de si?" e, se o fazia, buscava se informar
detalhadamente sobre o caso antes.
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