Poema: A Minha Piedade
A Bourbon e Meneses
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjyu9sOG2BozqFKKKoGQC39U-Nphm4sDIHN5MQhkMZ1LVycvfoD9eKvFfieyZ011WH6zAlA5p9n8L2NFPTKSk4BIvdkTsdhPjaGueJEH6_ulY77Uy29Jd1JjtBlHo91ZfxDK6-U1TowRGGwqu_efGN9ffaSQu73yiGxa3u35VKecik4lLV97sjSSwa-3zU/s320/pena.jpgDa rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!
Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...
De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...
Florbela
Espanca, in "Charneca em Flor".
Entendendo o poema:
01 – Nos dois
primeiros quartetos, o eu lírico manifesta um sentimento de "piedade"
que parece abranger toda a existência. Como essa empatia é construída e quais
grupos ou elementos são destacados?
A empatia é
construída de forma universalista e inclusiva. Florbela Espanca utiliza a
repetição da preposição "de" e do pronome "tudo" para
demonstrar que sua piedade não seleciona apenas os "bons". Ela sente
pena tanto de quem foi enganado ("daquele a quem mentiram") quanto do
culpado ("de quem mente"). O eu lírico destaca os marginalizados
socialmente ("pés descalços"), os marginalizados por sua natureza ou
comportamento ("os que não são iguais à outra gente") e até elementos
da natureza personificados ("rocha altiva"), unindo o sofrimento
humano ao esforço da própria existência.
02 – No segundo
quarteto, a autora personifica a "rocha altiva". Qual é o significado
simbólico dessa imagem e como ela se relaciona com os versos seguintes?
A "rocha
altiva" simboliza a solidão e a soberba de quem tenta enfrentar o destino
ou o desconhecido ("céus ignotos") com altivez. Ao personificá-la, o
eu lírico estabelece um paralelo com "os que não são iguais" e os que
"se ensanguentam na subida". A rocha representa o isolamento daqueles
que buscam o transcendente ou o superior, sugerindo que mesmo a força e a
elevação carregam um fardo de sofrimento que merece piedade.
03 – Há uma mudança
de foco sensível entre os quartetos e os tercetos do soneto. Explique essa
transição.
O poema transita
de uma "piedade" externa e coletiva para uma angústia interna e
existencial. Enquanto nos quartetos o eu lírico observa o mundo (a mentira, a
pobreza, a diferença), nos tercetos a dor volta-se para o "eu" e para
o "ti" (o outro próximo). A perspectiva deixa de ser a observação
social ou metafísica do mundo para se tornar um lamento sobre a própria vida, a
impossibilidade de realizar desejos ideais e a insatisfação com a própria
identidade.
04 – Interprete os
versos "De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela... / De ter vivido
e não ter sido Eu...". O que eles revelam sobre a crise de identidade
de Florbela Espanca?
Esses versos revelam uma profunda fragmentação do eu e uma
sensação de inautenticidade existencial. O desejo de ser "Esta, a Outra e
mais Aquela" reflete a vontade de experienciar múltiplas vidas ou
personalidades, indicando que a identidade atual é insuficiente ou limitadora.
O verso final coroa essa crise com a constatação trágica de que a vida foi
gasta em uma existência que não correspondia à essência verdadeira do eu lírico
("não ter sido Eu"), sugerindo um desencontro entre a alma e a realidade
vivida.
05 – Como o tema da
transcendência e da impossibilidade é abordado no poema? Cite elementos do
texto que comprovem sua resposta.
A transcendência
é abordada como um desejo frustrado e uma limitação física e espiritual. O eu
lírico anseia pelo que está além da condição humana, como "beijar o riso
duma estrela" ou "ter asas para ir ver o céu". A impossibilidade
reside no fato de que esses desejos são metafóricos e inalcançáveis, resultando
na "pena dessa má hora em que nasci". O conflito entre o desejo de
infinito (o céu, as estrelas) e a finitude humana é a causa central da
melancolia que permeia o soneto.
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