Crônica: Imagens da escravidão urbana – Fragmento
Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci
Carneiro
O vaivém dos negros, no Rio de Janeiro
– capital do Império –, foi captado em diferentes tempos, locais e situações
pelos artistas e cronistas. Na condição de escravos ou libertos, contribuíram
para o burburinho das cenas urbanas, tomando conta do cais do porto, das ruas,
chafarizes, feiras, vendas e mercados. [...]
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihAKd5xK6EXVDWb6qCgx7UMsYpmok5xab4wlW4xJXEih6FYCbl4qmGJgSpOnax4U-u_Ome9gyBcd9UbwmXThRGg5sum8kW-XFYytjiwG2PZ-_6-_JdMs447rZFqwKS1Sdv0rtIQR6jh-5-iItkOXlKvAou3tfj1abK44C28Lp_Me8ZOmUSPVrdWxdMbC0/s1600/COTIDIANO.jpg Já a vida cotidiana do branco
desenrola-se no isolamento, para dentro das casas. Isso é notório,
principalmente com relação às mulheres, que levavam uma vida social limitada,
contida pelos valores morais e tradições herdadas da Península Ibérica. Vez ou
outra foram flagradas à janela ou sacada pelo olhar aguçado do viajante.
Seus raros passeios se restringiam às
idas à missa, às visitas de cerimônia e às eventuais festas, sempre, é claro,
acompanhadas do chefe da família. mulher honrada se resguardava dos olhares
curiosos, escondendo-se por trás das cortinas das cadeirinhas, hábito que
serviu de tema para as imagens e crônicas dos visitantes estrangeiros.
O uso da cadeirinha persistiu ao longo
do século; e, nesta sua trajetória, era comum a mulher ser carregada por negros
uniformizados de libré e casaca enfeitada com galões dourados. Mas sempre
descalços, como manda a tradição para os escravos. [...]
Referindo-se à cidade de Salvador,
Avé-Lallemant comenta: “[...] tudo parece negro: negros na praia, negros na
cidade, negros na parte baixa, negros nos bairros altos. Tudo que corre, grita,
trabalha, tudo que transporta e carrega é negro”.
Kossoy, Boris &
Carneiro, Maria L. Tucci. O olhar europeu – O negro na iconografia brasileira
do século XIX. São Paulo, Edusp, 1994. p. 109-110. (Adaptado).
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 38-39.
Entendendo a crônica:
01
– Como os autores descrevem a presença e o papel da população negra
(escravizada ou liberta) no espaço público do Rio de Janeiro durante o Império?
A população negra
é descrita como o elemento central que movimentava e dava vida ao cenário
urbano. Eles protagonizavam o "vaivém" e o "burburinho" das
cenas da capital, ocupando intensamente os espaços públicos e de trabalho, tais
como o cais do porto, as ruas, os chafarizes, as feiras, as vendas e os
mercados.
02
– Em contrapartida à intensa circulação dos negros nas ruas, como funcionava a
rotina social da população branca, especialmente a das mulheres?
A vida cotidiana
da população branca desenrolava-se no isolamento, voltada para o interior das
casas. Isso era ainda mais rígido para as mulheres, que tinham uma vida social
altamente limitada e contida pelos valores morais e pelas tradições herdadas da
Península Ibérica.
03
– Quais eram as raras ocasiões em que as mulheres brancas saíam de casa e que
condição era obrigatória para que esses passeios acontecessem?
Os raros passeios
das mulheres brancas restringiam-se a idas à missa, visitas de cerimônia e
eventuais festas. Para que pudessem sair, era obrigatório que estivessem sempre
acompanhadas pelo chefe da família.
04
– O uso da cadeirinha de arruar é citado como um hábito marcante da época. De
que maneira esse transporte reforçava, ao mesmo tempo, o isolamento da mulher
rica e a condição de submissão do escravizado?
O uso da
cadeirinha reforçava o isolamento da mulher porque ela se resguardava dos
olhares curiosos escondendo-se atrás das cortinas do transporte. Por outro
lado, evidenciava a submissão dos escravizados que a carregavam: embora
vestissem uniformes de libré e casacas enfeitadas com galões dourados para
demonstrar o status de seus senhores, eles eram rigidamente mantidos descalços,
símbolo máximo da condição de escravidão.
05
– O fragmento termina com uma citação do viajante Avé-Lallemant sobre a cidade
de Salvador. Qual é a principal impressão que ele relata e que termo ele repete
para enfatizar a realidade demográfica e laboral daquela cidade?
Avé-Lallemant
relata a impressão de que "tudo parece negro" em Salvador. Ele repete
exaustivamente a palavra "negros" para enfatizar que a população
negra estava em todos os lugares (praia, cidade, parte baixa, bairros altos) e
que eles eram os únicos responsáveis por toda a força de trabalho e
movimentação da cidade ("tudo que corre, grita, trabalha, tudo que
transporta e carrega é negro").
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