Crônica: Amores grisalhos – Fragmento
Walcyr Carrasco
Quando cheguei em casa, minha mãe
colocou o tricô de lado, ajeitou os óculos e disse, com voz trêmula:
-- Preciso falar com você.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMBQYR_Oexk27pQWeEQRl4p5h4f8Gi3H41Tb_0HwmmxYGRv1Qe0tfVKFxKCEsuuKe3wBLXSlMgWNF7DBL7Q5kqasVqfUpaAPGm7JJwkLev6dt4YpTS9htwpV7Mc23jze9XE-AyzP_nlD6j2TFh3Dev8RLyQ78IKhl9_nJtE2qXh3ikgUnuh66YslLRk44/s320/46518006-costas-visao-velho-casado-casal-romantico-momento-homem-abracando-mulher-em-banco-dentro-parque-feliz-familia-grisalho-inteligente-masculino-femea-amor-abracando-abraco-relaxar-juntos-feriados-ao-ar-livr.jpg
“Lá vem problema”, refleti, com a
lógica dos filhos. Quando alguém com 65 anos, vem visitar o rebento [filho] e
pede conversa séria, já se imagina algum achaque [doença sem gravidade/queixa]
da velhice. Porém, quem quase teve um enfarte [ataque do coração] fui eu, ao
ouvir a verdade dos fatos.
-- Estou namorando.
-- O quê, mamãe?
-- Por que esse espanto, sou viúva, não
tenho o direito?
Suspirei, surpreso com as voltas que o
mundo dá. Tivemos a mesma conversa, com os papéis trocados, quando eu tinha uns
12 anos. Na época, ela se revoltou com a minha escolha:
-- Justo aquela? Uma menina sem sal e
sem açúcar!
Agora cabia a mim opinar. Quis saber
quem era.
-- Um senhor do prédio vizinho. Foi
ferroviário, como seu pai. Ele me tata bem: todo dia me traz um agrado. Ontem
me deu três mamões papaia.
“Pelo menos, esperto ele é”, pensei
intimamente. “Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores”. Resolvi.
-- Você gosta dele, mãe?
-- Adoro.
-- Então vá em frente. Muitas amigas
minhas de 30 têm menos sorte.
Ela retomou o tricô com um sorriso no
rosto enrugado. Mais tarde, encontrei com uma amiga. Narrei o episódio. Ela
espantou-se.
-- Você não ficou preocupado?
-- Se fosse um surfista de 25, talvez
eu estivesse, e muito. Mas ele tem 63.
Nos dias que se seguiram, surpreendi-me
com o choque das pessoas.
-- Mas como, namorando com 65 anos? Não
faz mal? – gritou uma conhecida.
Um amigo cortara relações com a mãe
viúva quando ela se casou de novo.
-- Não piso mais na casa dela. Não suporto
aquele homem.
-- Quem tem de suportar é ela, não você
– retruquei.
Outro me confessou que, quando a mãe
quis casar-se, há dez anos, foi tal o escândalo provocado por ele e pelos
irmãos que a pobre senhora desistiu. Atualmente, ela não se aguenta de solidão,
porque os filhos jamais podem visita-la. O rapaz gemeu:
-- A gente devia ter permitido. Teria
sido melhor.
Também ouvi falar de vários casais que
se apaixonam depois dos 70. [...]. É algo que ocorre apenas nas grandes
cidades, como São Paulo, onde ninguém tem tempo para ninguém, e os velhos
acabam sozinhos. Não é à toa que gente de cabelo branco anda em busca de novas
emoções.
O grande problema são os filhos. Gente
séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll,
agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem.
[...]
Revolta pelas repressões do passado ou
inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a
própria? Por que não, afinal?
O melhor de tudo é que as histórias de
amor provectas [avançadas (no tempo)] tendem a ser mais duradouras. Nessa fase,
ninguém tem disposição para ficar namorando e separando, e um tende a relevar
[não dar importância às] as manias do outro. Quem criou filhos como eu e meus
amigos deve ter mesmo uma paciência inesgotável.
Por falar nisso, e minha mãe?
A história que contei tem cinco anos.
Tirou a roupa escura, pintou as unhas e
continua apaixonada.
Sempre, muito feliz.
Walcyr Carrasco. O
golpe do aniversariante e outras crônicas. São Paulo, Ática, 2000.
Fonte: Língua portuguesa.
Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo –
1ª edição. 2002. p. 43-44. Unidade 9. Orientações específicas.
Entendendo a crônica:
01 – No início da crônica, o narrador relata que
esperava ouvir de sua mãe de 65 anos um desabafo sobre algum "achaque da
velhice", mas é surpreendido pela notícia de que ela está namorando.
Explique qual preconceito social em relação à terceira idade essa reação
inicial do filho (e da sociedade) revela.
A reação revela o
preconceito de que pessoas idosas devem se limitar a papéis passivos, doenças e
solidão, como se o desejo afetuoso, o romance e a busca pela felicidade
cessassem com o envelhecimento. Ao associar a conversa séria automaticamente a
uma doença, o narrador demonstra que a sociedade tende a enxergar o idoso
através da fragilidade, ignorando sua vida emocional, afetiva e o direito de
recomeçar.
02
– O narrador menciona que teve a mesma conversa sobre namoro com a mãe quando
ele tinha 12 anos, mas com os "papéis trocados". Como o texto
constrói essa ironia da inversão de papéis e como o filho reage de forma
diferente da mãe no passado?
A ironia reside
no fato de que, na infância do narrador, era a mãe quem julgava e opinava sobre
as namoradas dele (reclamando que a menina era "sem sal e sem
açúcar"). Agora, adulto, o filho se vê na posição de "autorizar"
ou avaliar o relacionamento da mãe. No entanto, ele reage com maturidade e
apoio, deixando o preconceito de lado ao perguntar se ela gosta do senhor e
incentivando-a a ir em frente, mostrando-se mais compreensivo do que ela fora
no passado.
03
– Ao descobrir quem era o namorado de sua mãe, o narrador descobre que ele a
conquistou oferecendo "três mamões papaia", e conclui: "Pelo
menos, esperto ele é. Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores". O
que esse detalhe revela sobre a natureza do amor na maturidade em comparação
aos romances da juventude?
Esse detalhe
revela que o amor na maturidade tende a ser mais pragmático, maduro e focado
nas pequenas atenções do cotidiano, em vez de idealizações românticas
tradicionais (como dar flores). O pretendente demonstrou conhecer a
personalidade prática da namorada e agradou-a com algo útil e concreto,
mostrando que o afeto nessa fase se manifesta no cuidado mútuo, na cumplicidade
e na simplicidade das ações diárias.
04
– O cronista aponta uma forte contradição no comportamento dos filhos que hoje
criticam os pais idosos, escrevendo: "Gente séria que, na adolescência,
andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais
entram num grupo da terceira idade e renascem". Explique que contradição é
essa apontada pelo autor.
A contradição
está no fato de que os filhos pertencem a uma geração que, na juventude, lutou
por liberdade, quebrou tabus sociais e contestou regras rígidas (simbolizado
pelo "queimar sutiã" e "ouvir rock"). Contudo, ao se
tornarem adultos e lidarem com seus próprios pais idosos, essas mesmas pessoas
adotam uma postura conservadora, moralista e controladora, reprimindo o desejo de
liberdade e o renascimento afetivo de seus pais.
05
– Perto do final, o narrador levanta duas hipóteses para explicar a resistência
dos filhos em aceitar os namoros dos pais: "Revolta pelas repressões do
passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante
do que a própria?". Com base no texto, explique como o egoísmo dos filhos
pode prejudicar a velhice dos pais.
O egoísmo dos
filhos se manifesta no desejo de controlar a vida dos pais ou de mantê-los
disponíveis apenas para os interesses familiares. O texto exemplifica isso de
forma trágica ao contar a história da mãe de um amigo que desistiu de casar
devido ao escândalo provocado pelos filhos e, anos depois, vivia em profunda
solidão porque os próprios filhos não a visitavam. Assim, a interferência
egoísta dos filhos sabota a felicidade dos pais, condenando-os ao isolamento.
06
– De acordo com o texto, por que as histórias de amor na terceira idade
(chamadas pelo autor de "provectas") tendem a ser mais duradouras e
estáveis do que os relacionamentos de pessoas mais jovens?
O autor explica
que, nessa fase da vida, as pessoas não têm mais paciência ou disposição para o
ciclo instável de "namorar e separar". Além disso, os idosos possuem
maior maturidade para relevar as manias e imperfeições do outro. O narrador
acrescenta, de forma bem-humorada, que quem já passou pela experiência
exaustiva de criar filhos desenvolveu uma "paciência inesgotável", o
que ajuda a manter a harmonia e a estabilidade na relação.
07
– No último parágrafo, o cronista revela que a conversa inicial aconteceu há
cinco anos e descreve o estado atual de sua mãe: "Tirou a roupa escura,
pintou as unhas e continua apaixonada. Sempre, muito feliz". Interprete o
significado simbólico das ações de tirar a "roupa escura" e
"pintar as unhas" dentro do contexto da crônica.
As ações têm um
forte valor simbólico de renascimento e resgate da autoestima. A "roupa
escura" representa o luto, o recolhimento e a resignação associados à
viuvez e à velhice tradicional, que dita que o idoso deve ser invisível. Ao
tirar o vestuário sombrio e pintar as unhas (um ato de vaidade e autocuidado),
ela reconecta-se com sua feminilidade, com a cor e com a vivacidade. O desfecho
mostra que o amor e o namoro devolveram a ela o entusiasmo e a alegria de
viver.

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