terça-feira, 2 de junho de 2026

CRÔNICA: AMORES GRISALHOS - FRAGMENTO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Amores grisalhos – Fragmento

            Walcyr Carrasco

        Quando cheguei em casa, minha mãe colocou o tricô de lado, ajeitou os óculos e disse, com voz trêmula:

        -- Preciso falar com você.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMBQYR_Oexk27pQWeEQRl4p5h4f8Gi3H41Tb_0HwmmxYGRv1Qe0tfVKFxKCEsuuKe3wBLXSlMgWNF7DBL7Q5kqasVqfUpaAPGm7JJwkLev6dt4YpTS9htwpV7Mc23jze9XE-AyzP_nlD6j2TFh3Dev8RLyQ78IKhl9_nJtE2qXh3ikgUnuh66YslLRk44/s320/46518006-costas-visao-velho-casado-casal-romantico-momento-homem-abracando-mulher-em-banco-dentro-parque-feliz-familia-grisalho-inteligente-masculino-femea-amor-abracando-abraco-relaxar-juntos-feriados-ao-ar-livr.jpg

        “Lá vem problema”, refleti, com a lógica dos filhos. Quando alguém com 65 anos, vem visitar o rebento [filho] e pede conversa séria, já se imagina algum achaque [doença sem gravidade/queixa] da velhice. Porém, quem quase teve um enfarte [ataque do coração] fui eu, ao ouvir a verdade dos fatos.

        -- Estou namorando.

        -- O quê, mamãe?

        -- Por que esse espanto, sou viúva, não tenho o direito?

        Suspirei, surpreso com as voltas que o mundo dá. Tivemos a mesma conversa, com os papéis trocados, quando eu tinha uns 12 anos. Na época, ela se revoltou com a minha escolha:

        -- Justo aquela? Uma menina sem sal e sem açúcar!

        Agora cabia a mim opinar. Quis saber quem era.

        -- Um senhor do prédio vizinho. Foi ferroviário, como seu pai. Ele me tata bem: todo dia me traz um agrado. Ontem me deu três mamões papaia.

        “Pelo menos, esperto ele é”, pensei intimamente. “Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores”. Resolvi.

        -- Você gosta dele, mãe?

        -- Adoro.

        -- Então vá em frente. Muitas amigas minhas de 30 têm menos sorte.

        Ela retomou o tricô com um sorriso no rosto enrugado. Mais tarde, encontrei com uma amiga. Narrei o episódio. Ela espantou-se.

        -- Você não ficou preocupado?

        -- Se fosse um surfista de 25, talvez eu estivesse, e muito. Mas ele tem 63.

        Nos dias que se seguiram, surpreendi-me com o choque das pessoas.

        -- Mas como, namorando com 65 anos? Não faz mal? – gritou uma conhecida.

        Um amigo cortara relações com a mãe viúva quando ela se casou de novo.

        -- Não piso mais na casa dela. Não suporto aquele homem.

        -- Quem tem de suportar é ela, não você – retruquei.

        Outro me confessou que, quando a mãe quis casar-se, há dez anos, foi tal o escândalo provocado por ele e pelos irmãos que a pobre senhora desistiu. Atualmente, ela não se aguenta de solidão, porque os filhos jamais podem visita-la. O rapaz gemeu:

        -- A gente devia ter permitido. Teria sido melhor.

        Também ouvi falar de vários casais que se apaixonam depois dos 70. [...]. É algo que ocorre apenas nas grandes cidades, como São Paulo, onde ninguém tem tempo para ninguém, e os velhos acabam sozinhos. Não é à toa que gente de cabelo branco anda em busca de novas emoções.

        O grande problema são os filhos. Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem. [...]

        Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria? Por que não, afinal?

        O melhor de tudo é que as histórias de amor provectas [avançadas (no tempo)] tendem a ser mais duradouras. Nessa fase, ninguém tem disposição para ficar namorando e separando, e um tende a relevar [não dar importância às] as manias do outro. Quem criou filhos como eu e meus amigos deve ter mesmo uma paciência inesgotável.

        Por falar nisso, e minha mãe?

        A história que contei tem cinco anos.

        Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada.

        Sempre, muito feliz.

Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante e outras crônicas. São Paulo, Ática, 2000.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 43-44. Unidade 9. Orientações específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, o narrador relata que esperava ouvir de sua mãe de 65 anos um desabafo sobre algum "achaque da velhice", mas é surpreendido pela notícia de que ela está namorando. Explique qual preconceito social em relação à terceira idade essa reação inicial do filho (e da sociedade) revela.

      A reação revela o preconceito de que pessoas idosas devem se limitar a papéis passivos, doenças e solidão, como se o desejo afetuoso, o romance e a busca pela felicidade cessassem com o envelhecimento. Ao associar a conversa séria automaticamente a uma doença, o narrador demonstra que a sociedade tende a enxergar o idoso através da fragilidade, ignorando sua vida emocional, afetiva e o direito de recomeçar.

02 – O narrador menciona que teve a mesma conversa sobre namoro com a mãe quando ele tinha 12 anos, mas com os "papéis trocados". Como o texto constrói essa ironia da inversão de papéis e como o filho reage de forma diferente da mãe no passado?

      A ironia reside no fato de que, na infância do narrador, era a mãe quem julgava e opinava sobre as namoradas dele (reclamando que a menina era "sem sal e sem açúcar"). Agora, adulto, o filho se vê na posição de "autorizar" ou avaliar o relacionamento da mãe. No entanto, ele reage com maturidade e apoio, deixando o preconceito de lado ao perguntar se ela gosta do senhor e incentivando-a a ir em frente, mostrando-se mais compreensivo do que ela fora no passado.

03 – Ao descobrir quem era o namorado de sua mãe, o narrador descobre que ele a conquistou oferecendo "três mamões papaia", e conclui: "Pelo menos, esperto ele é. Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores". O que esse detalhe revela sobre a natureza do amor na maturidade em comparação aos romances da juventude?

      Esse detalhe revela que o amor na maturidade tende a ser mais pragmático, maduro e focado nas pequenas atenções do cotidiano, em vez de idealizações românticas tradicionais (como dar flores). O pretendente demonstrou conhecer a personalidade prática da namorada e agradou-a com algo útil e concreto, mostrando que o afeto nessa fase se manifesta no cuidado mútuo, na cumplicidade e na simplicidade das ações diárias.

04 – O cronista aponta uma forte contradição no comportamento dos filhos que hoje criticam os pais idosos, escrevendo: "Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem". Explique que contradição é essa apontada pelo autor.

      A contradição está no fato de que os filhos pertencem a uma geração que, na juventude, lutou por liberdade, quebrou tabus sociais e contestou regras rígidas (simbolizado pelo "queimar sutiã" e "ouvir rock"). Contudo, ao se tornarem adultos e lidarem com seus próprios pais idosos, essas mesmas pessoas adotam uma postura conservadora, moralista e controladora, reprimindo o desejo de liberdade e o renascimento afetivo de seus pais.

05 – Perto do final, o narrador levanta duas hipóteses para explicar a resistência dos filhos em aceitar os namoros dos pais: "Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria?". Com base no texto, explique como o egoísmo dos filhos pode prejudicar a velhice dos pais.

      O egoísmo dos filhos se manifesta no desejo de controlar a vida dos pais ou de mantê-los disponíveis apenas para os interesses familiares. O texto exemplifica isso de forma trágica ao contar a história da mãe de um amigo que desistiu de casar devido ao escândalo provocado pelos filhos e, anos depois, vivia em profunda solidão porque os próprios filhos não a visitavam. Assim, a interferência egoísta dos filhos sabota a felicidade dos pais, condenando-os ao isolamento.

06 – De acordo com o texto, por que as histórias de amor na terceira idade (chamadas pelo autor de "provectas") tendem a ser mais duradouras e estáveis do que os relacionamentos de pessoas mais jovens?

      O autor explica que, nessa fase da vida, as pessoas não têm mais paciência ou disposição para o ciclo instável de "namorar e separar". Além disso, os idosos possuem maior maturidade para relevar as manias e imperfeições do outro. O narrador acrescenta, de forma bem-humorada, que quem já passou pela experiência exaustiva de criar filhos desenvolveu uma "paciência inesgotável", o que ajuda a manter a harmonia e a estabilidade na relação.

07 – No último parágrafo, o cronista revela que a conversa inicial aconteceu há cinco anos e descreve o estado atual de sua mãe: "Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada. Sempre, muito feliz". Interprete o significado simbólico das ações de tirar a "roupa escura" e "pintar as unhas" dentro do contexto da crônica.

      As ações têm um forte valor simbólico de renascimento e resgate da autoestima. A "roupa escura" representa o luto, o recolhimento e a resignação associados à viuvez e à velhice tradicional, que dita que o idoso deve ser invisível. Ao tirar o vestuário sombrio e pintar as unhas (um ato de vaidade e autocuidado), ela reconecta-se com sua feminilidade, com a cor e com a vivacidade. O desfecho mostra que o amor e o namoro devolveram a ela o entusiasmo e a alegria de viver.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário