Conto: O Homem que teve que cuidar da casa
Era uma vez um homem muito rabugento e
mal-humorado, que nunca achava certo nada que a mulher fizesse em casa. Uma
tarde, na época de secar o feno, ele chegou em casa reclamando que o jantar não
estava pronto, o bebê estava chorando e a vaca não tinha sido recolhida ao
estábulo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzFwP_POqRJ_pIAgo74yOMMmOLhu-WpBNazIz02pg0MXe2VZf3nRM9Ftq2U02b4cAS7vnoyobcpn5ZuXzxUxBiDrtwas87L24uO6AlY8CZD5wwGypbur2h_VKgzCoOHuUtH2jlfUcG2pS0eFT6MjGpDNrpd7VJctKchFZEyrTW6c3jhFeeNZ5k6RrEq20/s1600/HOMEM.jpg -- "Eu trabalho o dia
inteiro", ele resmungou. "Você fica só aqui cuidando da casa. Bem que
eu queria essa moleza para mim. Eu ia aprontar o jantar na hora, palavra."
-- "Amorzinho querido, não fique
zangado", disse a mulher. "Amanhã vamos trocar nossos trabalhos. Eu
saio com os ceifeiros, corto feno, e você fica aqui, cuidado da casa".
O marido achou que daria certíssimo.
-- "É, eu ganho um dia
livre", ele disse, "faço todos os seus afazeres em uma hora ou duas e
durmo o resto da tarde inteira".
Assim, na manhã seguinte, bem cedo, a
mulher pendurou a foice no ombro e partiu com os ceifeiros. O marido ficou
incumbido de fazer todo o trabalho doméstico.
Em primeiro lugar, lavou umas roupas e
começou a bater a manteiga. Mas depois de bater um pouquinho, lembrou que tinha
que pendurar as roupas para secar. Saiu para o quintal e mal tinha acabado de
estender suas camisas quando viu o porco correndo para dentro da cozinha.
Voou para a cozinha para tratar do
porco, temendo que estragasse a manteiga. Mas logo que entrou, viu o porco
derrubando a batedeira. Lá estava ele, grunhindo e chafurdando o creme, que
escorria pelo chão da cozinha inteira. O homem ficou tão louco da vida que
esqueceu das camisas no varal e partiu para cima do porco.
Conseguiu agarra-lo, mas o porco estava
tão lambuzado de manteiga, que lhe escapuliu dos braços e saiu porta afora. O
homem correu para o quintal, decidido a pegar o porco de qualquer jeito, mas
estacou apavorado quando viu o bode, parado bem debaixo do varal e mascando as
camisas. Então o homem espantou o bode, trancou o porco e tirou do varal o que
sobrara das camisas.
Em seguida foi à leiteira, pegou creme
bastante para encher de novo a batedeira e recomeçou a bater, pois tinham que
ter manteiga para o jantar. Quando já tinha batido um pouco, lembrou que a vaca
ainda estava fechada no estábulo sem ter comido nem bebido nada a manhã toda; e
o sol já estava alto.
Matutando que o pasto ficava muito
longe para levar a vaca até lá, decidiu coloca-la em cima da casa, pois o
telhado, como se sabe, era coberto de capim. A casa ficava perto de um morro
íngreme e ele achou que, estendendo uma tábua larga da lateral do morro até o
telhado, levaria facilmente a vaca para cima.
Mas não podia abandonar a batedeira,
pois lá vinha o bebê engatinhando pela casa. – "Se eu deixar a
batedeira", ele pensou, "a criança com certeza vai estragar
tudo".
Assim, ajeitou a batedeira às costas e
saiu carregando-a. Aí, pensou que era melhor dar água à vaca antes de leva-la
para o telhado e pegou um balde para tirar água do poço. Porém, quando se
debruçou na borda do poço, o creme escorreu para fora da batedeira, por cima
dos ombros, pelas costas e caiu todo no poço.
Agora já estava quase na hora do jantar
e ele nem ao menos tinha feito a manteiga! Então, logo que colocou a vaca no
telhado, achou melhor ferver o mingau. Encheu o caldeirão de água e pendurou-o
sobre o fogo.
Quando acabou, imaginou que a vaca pudesse
cair do telhado e quebrar o pescoço. Então subiu na casa para prende-la.
Amarrou uma ponta da corda no pescoço da vaca e a outra ele passou pelo buraco
da chaminé. Voltou para dentro da casa e amarrou a ponta da corda na cintura.
Tinha que se apressar, pois a água começava a ferver no caldeirão e ele ainda
tinha que moer a aveia.
Começou a moer bem rápido! Mas quando
estava bem empenhado., a vaca acabou caindo do telhado e na queda arrastou o
homem pela chaminé, suspenso pela corda! Ele ficou entalado, bem apertado. E a
vaca ficou balançando ao lado da casa, entre o céu e a terra, sem conseguir nem
subir nem descer.
Enquanto isso a mulher lá no campo,
estava esperando o marido chamá-la para jantar. Por fim, achou que já tinha
esperado demais e foi para casa.
Quando chegou e viu a vaca pendurada
tão insolitamente, correu para cima e cortou a corda com a foice. Mas logo que
cortou, o marido despencou da chaminé! Quando ela entrou na cozinha,
encontrou-o de cabeça para baixo, enterrado no caldeirão de mingau.
-- "Que bom que você voltou",
ele disse, depois que ela o pescou. "Preciso lhe dizer uma coisa".
Então ele pediu desculpas, beijou-a e
nunca mais reclamou de nada.
BENNETT, William J. (Org.). O Livro das Virtudes. Rio de Janeiro, Nova
Fronteira, 1995. p. 245-247.
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 80-82.
Entendendo o conto:
01
– No início do conto, qual é a principal reclamação do marido em relação ao
trabalho de sua esposa e que proposta ela faz para resolver o desentendimento?
O marido, que era
muito rabugento e mal-humorado, reclamava que o trabalho doméstico da esposa
era uma "moleza" e que ela passava o dia "só cuidando da
casa", enquanto ele trabalhava duro no campo. Para acabar com as
reclamações, a esposa propõe, de forma gentil, que eles troquem de papéis no
dia seguinte: ela iria para o campo cortar o feno com os ceifeiros e ele
assumiria os afazeres domésticos.
02
– O que o marido imaginava que aconteceria no seu dia cuidando da casa e qual
foi a primeira sequência de acidentes que desmistificou essa ideia?
O marido
acreditava piamente que terminaria todo o serviço doméstico em apenas uma ou
duas horas e que passaria o restante da tarde inteira dormindo. No entanto, a
realidade foi bem diferente: enquanto tentava lavar as roupas e bater a
manteiga, um porco invadiu a cozinha e derrubou o creme no chão; ao tentar
perseguir o porco, ele acabou deixando o bode mastigar as camisas que estavam
no varal.
03
– Por que o homem decidiu colocar a vaca em cima do telhado da casa e qual foi
a solução arquitetônica que ele idealizou para fazer isso?
O sol já estava
alto e o homem percebeu que a vaca continuava trancada no estábulo sem comer
nem beber. Como ele achava que o pasto ficava longe demais para levá-la,
decidiu colocá-la no telhado porque, na época, as casas tinham o teto coberto
de capim. Para subir o animal, ele aproveitou que a casa ficava perto de um morro
íngreme e estendeu uma tábua larga ligando a lateral desse morro diretamente ao
telhado.
04
– A batedeira de manteiga causou dois grandes prejuízos ao homem. Explique o
que aconteceu com o creme de manteiga na cozinha e, posteriormente, no poço.
O primeiro
prejuízo ocorreu quando o porco entrou na cozinha e derrubou a batedeira,
chafurdando e espalhando o creme por todo o chão. Depois de limpar a sujeira e
pegar mais creme na leiteira, o homem amarrou a batedeira nas costas para
protegê-la do bebê que engatinhava. Porém, ao se debruçar na borda do poço para
tirar água para a vaca, a batedeira virou e todo o creme novo escorreu por seus
ombros diretamente para dentro do poço.
05
– Para evitar que a vaca caísse do telhado, o marido elaborou um sistema de
segurança peculiar utilizando uma corda. Como funcionava esse sistema e o que
aconteceu quando a vaca de fato caiu?
O homem amarrou
uma ponta da corda no pescoço da vaca, passou a outra ponta pelo buraco da
chaminé para o lado de dentro da casa e amarrou essa extremidade na sua própria
cintura. Quando a vaca escorregou e caiu do telhado, o peso do animal arrastou
o homem para cima através da chaminé. Ele ficou rigidamente entalado na
estrutura, enquanto a vaca ficou balançando do lado de fora da casa, suspensa
entre o céu e a terra.
06
– Como a esposa resolveu a situação caótica do lado de fora da casa ao retornar
do campo e qual foi a consequência imediata dessa ação para o marido que estava
no interior da residência?
Ao chegar do
campo e ver a vaca pendurada de forma tão bizarra, a esposa correu
instantaneamente e cortou a corda usando a sua foice de ceifeira para salvar o
animal. A consequência imediata para o marido foi desastrosa: sem o contrapeso
da vaca, ele despencou chaminé abaixo e caiu direto, de cabeça para baixo,
enterrado dentro do caldeirão de mingau que estava fervendo no fogo.
07
– Apesar de todas as trapalhadas e acidentes, o desfecho da história traz uma
mudança profunda no comportamento do marido. Qual foi a lição que ele aprendeu
com essa experiência?
O marido
aprendeu, da pior maneira possível, a valorizar o trabalho doméstico e a
dedicação de sua esposa. Ele percebeu que cuidar de uma casa e de uma criança
exige muito esforço, atenção mútua e agilidade, não tendo nada de
"moleza". Após ser "pescado" do caldeirão, ele reconheceu
seus erros, pediu desculpas, beijou a esposa e nunca mais reclamou das tarefas
dela.
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