Crônica: A hora certa – Fragmento
Olavo Romano
Maria Joana saiu da banda de fora da
casa, olhou o céu, reparou na altura do Sol e disse pra filha:
-- Já passa das três. Larga isso aí e
refoga o arroz, senão vai atrasar a janta.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg1EGEb8ffYC92_3k5_-a5cpbXmG2GGBrzbTqklV0DP2rMRdHhU_DDHnhOqHFqiPT4dGL3_ktKT1WvKID65OFQ_k8XPX5A9vnm7JFoQMILnLMWaeTEfSQuNAASyZtt4d4IufYHOD6pJkJ-2-U7YXklmxzPW1CfQt6c03u-w9h5G-jNSxjKspBkiGJY5ZdY/s1600/SOL.jpg Nico brincava no terreiro-da-horta.
Parou de tocar o carrinho de boi de sabugo e perguntou: – Mãe, comé que a gente vê as hora pelo Sol?
-- É fácil, uai. Questão de prática.
O menino cresceu vendo a mãe medir o
tamanho do dia pelo comprimento de uma sombra, pela altura do Sol nos dias mais
claros ou só pelo jeitão quando o tempo ficava brusco [escuro, fechado].
Rapazinho, Nico Pereira desistiu de
aprender aquela arte da mãe. Virou foi catireiro. Excomungado de esperto, a
fama correu mundo [...] O povo usava comentar: – “Deus é porque não dá asa a
cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever. Aí
ninguém ia poder com ele”.
No começo, Nico cismou com animal. Cada
hora montado num, trocava aquele por outro mais bonito, ficava todo intimado,
com pose de fazendeiro forte, boiadeiro rico. Depois, parece coisa que enfarou,
principiou lembrar do tempo de menino, recordar o velho Tertuliano, dono da
fazenda onde foi criado.
Aa coisa mais bonita que sempre achou
no velho não era a barba branca, compridona. [...] Era o relógio de bolso, que
ele puxava dum jeito todo especial, destampava, olhava assim meio de banda, via
as horas, depois tornava a tampar. [...]
O Nico não queria saber de outra coisa.
Vivia especulando, indaga daqui, indaga dali, não sossegou enquanto não apanhou
[comprou] um relógio de bolso. Não era um patacão dourado, igual do velho
Tertuliano, aquilo não era pro seu bico. Achou um Omega prateado, de duas
tampas, bem conservado. Antes de fechar negócio, pegou o relógio com pose de entendido,
abriu a primeira tampa, reparou no mostrador, um ponteiro maior e um menor,
achou uma beleza o ponteirinho de segundo correndo disparado, os outros dois a
gente nem via mexer. Depois abriu a segunda tampa, lá dentro o maquinismo
movimentava parecendo fervura.
Não demorou muito, todo mundo sabia
daquele novo capricho do Nico Pereira. E o povo, sabe como é, tem lá sua
maldade: logo descobriram que o Nico, aquela farrona toda [aquele contador de
vantagens], nem olhar as horas sabia.
Foi a conta. No primeiro domingo de
missa, o arraial assim de gente, cada hora chegava um:
-- Nico, vi falar que ocê tá de relógio
novo?
-- É devera. Uma beleza de relógio.
Aí um outro, já combinado, perguntava:
-- Falar nisso, quantas horas?
Nico virava pro sujeito e devolvia a
pergunta:
-- Calcula?
O interessado media a altura do Sol,
pensava um pouco e respondia:
-- Pode ser umas duas e meia, mais ou
menos?
Só então Nico abria o relógio, olhava
sério e informava:
-- Acertou. É duas e meia, exatinho.
Aquilo funcionou bem com o primeiro, o
segundo, o terceiro. Mas de repente o tempo começou a fechar, o céu escureceu,
o Sol sumiu. Nico preocupou, resolveu escafeder, exalar do meio do povo. Não
conseguiu. Foi pego pelo braço, mais um sujeito querendo saber as horas. Tentou
sair correndo, disse que tinha pressa, ia fechar um negócio, depois informava
as horas. O moço bateu o pé, insistiu. Apertando, Nico falou:
-- Adivinha!
Fazendo de nervoso, o rapaz disse:
-- Adivinhar como? Deitei tarde, no
maior pileque, acordei agora mesmo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.
Ainda por cima, esse dia feio, eu nem sei se é de manhã ou de tarde... Falam
que ocê anda de relógio novo, pra que serve esse troço, afinal? Quem sabe ocê
não sabe é olhar as hora?
No mesmo instante Nico meteu a mão no
bolso, tirou o relógio, destampou e ficou olhando o ponteirinho de segundo.
Depois levou o relógio ao ouvido e, então, informou:
-- As hora, mesmo, não tá dando pra ver
não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!
Olavo Romano. Minas e
seus casos. São Paulo, Ática, 1984.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 32-33. Unidade 4 – Orientações Específicas.
Entendendo a crônica:
01
– No início da crônica, vemos Maria Joana determinando as horas pela observação
do céu e do Sol, uma habilidade que o texto chama de "arte". Como
essa forma tradicional de medir o tempo se contrasta com o desejo posterior de
Nico Pereira de possuir um relógio de bolso? O que esse relógio representava
para ele?
O contraste se dá
entre o saber tradicional/rural — baseado na observação direta da natureza e na
experiência prática ("questão de prática") — e a modernidade urbana,
representada pelo relógio mecânico. Para Nico, o relógio de bolso não era um instrumento
utilitário para saber as horas (já que ele sequer sabia lê-las), mas sim um
símbolo de status, poder e prestígio. O objeto remetia à figura do velho
Tertuliano, o rico dono da fazenda de sua infância, funcionando como um sinal
de ascensão social e vaidade.
02
– O povo comentava sobre Nico: “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é
danado assim, imagina se soubesse ler e escrever.” Explique a ironia contida
nessa fala e como o comportamento de Nico ao comprar o relógio confirma ou
contradiz essa fama de "esperto".
A ironia reside
no fato de Nico ser extremamente astuto nos negócios ("excomungado de
esperto" como catireiro) mesmo sendo analfabeto. No entanto, o episódio do
relógio contradiz parcialmente sua fama de esperteza absoluta, pois sua vaidade
o faz cair em uma armadilha óbvia criada pelo povo. Ao comprar um objeto que
não sabe usar apenas para ostentar, Nico deixa sua vulnerabilidade e
ingenuidade social expostas, permitindo que a comunidade brinque com seu
orgulho.
03
– Quando as pessoas no arraial começam a lhe perguntar as horas, Nico utiliza
uma estratégia específica para não ser desmascarado. Explique como funcionava
esse "truque" de Nico e por que a mudança nas condições climáticas (o
tempo fechar) arruinou o seu plano.
O truque de Nico
consistia em devolver a pergunta ao interlocutor dizendo "Calcula?".
A pessoa, então, olhava para o Sol, estimava a hora e respondia. Nico apenas
abria o relógio e fingia confirmar a estimativa, dizendo que estava
"exatinho". Essa estratégia dependia totalmente da natureza: quando o
céu escureceu e o Sol sumiu, as pessoas perderam a referência visual para
estimar o tempo. Sem o palpite dos outros, Nico ficou sem ter como inventar ou
confirmar a hora, sendo desarmado pelo próprio clima.
04
– A crônica de Olavo Romano é rica em marcas de oralidade e expressões
regionalistas. Identifique pelo menos três exemplos dessas marcas no texto
(palavras ou expressões) e explique qual é o efeito que esse tipo de linguagem
causa na narrativa.
Exemplos de marcas de
oralidade e regionalismo no texto incluem: "uai", "comé
que", "devera", "exalar do meio do povo" (fugir),
"pileque" e "tá freveno" (está fervendo). O efeito desse
tipo de linguagem é conferir autenticidade e proximidade à narrativa,
ambientando o leitor diretamente no universo caipira/interiorano de Minas
Gerais. Isso humaniza as personagens e aproxima o leitor do ritmo e do tom de
uma história contada "boca a boca".
05
– No clímax da crônica, pressionado por um rapaz em um dia nublado, Nico
Pereira dá uma resposta surpreendente: "As hora, mesmo, não tá dando pra
ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!". Analise como essa
resposta constrói o humor da crônica e salve o orgulho do personagem.
O humor é
construído pela resposta absurda e espirituosa de Nico, que subverte a lógica
do uso de um relógio. Ao invés de admitir que é analfabeto e não sabe ler os
ponteiros, ele usa uma metáfora visual baseada no movimento rápido do ponteiro
dos segundos e no barulho do mecanismo interno (que ele já achava parecido com
"fervura"). Com essa saída cômica e rápida, Nico tenta "sair por
cima" e desviar o foco de sua ignorância, mostrando que, embora não saiba
as horas, sua malícia e rapidez verbal continuam afiadas.
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