Cordel: A Mulher Que Mais Amei – Fragmento
Patativa do Assaré
Era um modelo perfeito
A mulher que mais amei,
Linda e simpática de um jeito
Que eu mesmo dizer não sei.
Era bela, muito bela;
Para comparar com ela,
Outra coisa eu não arranjo
E por isso tenho dito
Que se anjo é mesmo bonito,
Era o retrato dum anjo.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGU6ezcijxL5acd4s2uGVQysE_kIkpOXxBGBplDyjdEFJ498tmhiGrBfa398m_gBreBZZ988mk8R__k3i3R20VFN2dJtUNtLZVBIUAEPHhx9aBhbaWXXEGQGNMEjxUyRI0_APsDKqrfq-aedLl0dRakOMuOZH5FD1wRtnIn1YCXxDkVECeTwtOgTkTCX8/s1600/PATATIVA.jpgSei que alguém não me
acredita,
Mas eu digo com razão,
Foi a mulher mais bonita
De cima de nosso chão;
Era mesmo de encomenda
E do amor daquela prenda
Eu fui o merecedor,
Eu era mesmo sozinho
Dono de todo carinho
Daquele anjo encantador.
Era bem firme a donzela,
Só em mim vivia pensando.
Quando eu olhava ela,
Ela já estava me olhando.
Para a gente conversar
Quando eu não ia, ela vinha,
Um do outro sempre bem perto
Nosso amor dava tão certo
Quem nem faca na bainha.
E por sorte ou por
capricho,
Eu tinha prata, ouro e
cobre.
Dinheiro em mim era lixo
Em casa de gente pobre.
Nós nunca perdíamos ato
De cinema e de teatro
De drama e mais diversão,
Não faltava coisa alguma,
As notas eu tinha de ruma
Para nós andar de avião.
Meu grande contentamento,
Não havia mais maior
E nossos dois pensamentos
Pensava uma coisa só.
Para desfrutar a minha vida
Perto de minha queria
Eu não poupava dinheiro.
Tanta sorte nós tivemos
Que muitas viagens fizemos
Nas terras do estrangeiro.
[...]
Era boa a nossa sorte
E n]ao mudava um segundo
Ninguém pensava na morte
E o céu era aqui no mundo.
Na refeição nós comia
Das melhores iguarias
Sem falar de carne e arroz
E por isso muita gente
Ficava rangendo os dentes
Com ciúmes de nós dois.
Foi uma coisa badeja
A vida que eu desfrutei,
Mas para quem tiver inveja
Dessa vida que levei
Com tanta felicidade,
Eu vou dizer a verdade,
Pois não engano ninguém.
Aquele anjinho risonho
Eu vi foi durante um sonho;
Mulher nunca me quis bem!
A história não foi
verdade,
Todo sonho é mentiroso
Aquela felicidade
De tanto luxo e de gozo
Sem o menor sacrifício,
Foi negócio fictício,
Não foi coisa verdadeira.
Eu fiquei dando o cavaco:
“Este alimento fraco
Só dá para sonhar besteira.”
De noite eu tinha jantado
Um mucunzá sem tempero
E acordei alvoroçado
Sem mulher e sem dinheiro;
Ainda reparei bem
Para vê se via alguém
De junto de minha rede
Mas, em vez de tudo aquilo
Só ouvi cantando o grilo
Nos buracos da parede.
Quando acordei estava só
Sem ter ninguém do meu lado,
Era muito mais melhor
Que eu não tivesse sonhado.
Quem já vai no fim da estrada
Levando a carga pesada
De sofrimento sem fim,
Doente, cansado e fraco
Vem um sonho enchendo o saco
Piorar quem já está ruim.”
Patativa do Assaré. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel
na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 185-187.
Entendendo o cordel:
01
– Nos dois primeiros estrofes, o eu lírico faz uma descrição detalhada da
aparência da mulher amada. Que recurso comparativo ele utiliza para expressar
essa beleza e como ele define a reciprocidade desse amor?
O eu lírico
compara a mulher a um anjo, afirmando que ela era o "retrato dum
anjo" e a criatura mais bonita "de cima de nosso chão". Quanto à
reciprocidade, ele deixa claro que o sentimento era mútuo e exclusivo, pois
afirma ter sido o único merecedor e "dono de todo carinho daquele anjo
encantador".
02
– No terceiro estrofe, o poeta recorre a uma metáfora popular e a descrições
cotidianas para explicar a sintonia do casal. Explique a metáfora utilizada e
como era a dinâmica de comunicação entre eles.
A sintonia do
casal é coroada com a metáfora "Nem faca na bainha", que expressa um
encaixe perfeito, ou seja, que eles combinavam perfeitamente. A dinâmica de
comunicação era marcada pela busca mútua e atenção constante: quando se
olhavam, já havia reciprocidade no olhar e, se um não podia ir conversar, o
outro tomava a iniciativa de ir ao seu encontro.
03
– O eu lírico descreve uma vida de extrema riqueza e ostentação. Quais são os
luxos e prazeres mencionados por ele que contrastam drasticamente com a
realidade da maioria das pessoas?
Ele menciona
possuir "prata, ouro e cobre" em abundância, afirmando que o dinheiro
em suas mãos era tanto que parecia "lixo em casa de gente pobre" e
que tinha notas "de ruma". Entre os luxos usufruídos pelo casal,
destacam-se as idas frequentes ao cinema, teatro e dramas, viagens de avião e
viagens internacionais para "terras do estrangeiro", além do consumo
de refeições com as "melhores iguarias".
04
– Qual é a grande reviravolta (clímax) que ocorre no poema e como ela altera o
sentido de tudo o que foi narrado até então?
A reviravolta
ocorre quando o eu lírico revela que toda aquela vida de riqueza, viagens e
felicidade ao lado da mulher perfeita não passou de um sonho. Ele confessa que
"mulher nunca me quis bem" e que a história era mentira,
transformando o tom do poema de um relato romântico e triunfante para uma
realidade de solidão e desilusão.
05
– O que o eu lírico aponta, no plano real, como a causa física e biológica para
ter tido um sonho tão fantasioso e cheio de luxos?
O poeta atribui o
sonho fantasioso à sua alimentação precária daquela noite. Ele revela ter
jantado apenas "um mucunzá sem tempero" e conclui, de forma
bem-humorada e irônica, que aquele "alimento fraco só dá para sonhar
besteira".
06
– Ao acordar do sonho, qual é o cenário real que o eu lírico encontra ao seu
redor e como esse ambiente é descrito?
Ao acordar
alvoroçado, ele se depara com a mais completa solidão e pobreza. Ele percebe
que está deitado em uma rede, sem mulher e sem dinheiro. Em vez do luxo
sonhado, o ambiente é silencioso e precário, restando-lhe apenas ouvir o canto
de um grilo saindo "nos buracos da parede".
07
– No último estrofe, o eu lírico reflete sobre o impacto de sonhar acordado
para quem já vive uma realidade difícil. Qual é a conclusão dele sobre os
efeitos desse sonho em sua vida atual?
O eu lírico
conclui que o sonho, em vez de trazer alento, acabou por piorar o seu estado.
Para quem já está no "fim da estrada" carregando uma "carga
pesada de sofrimento sem fim", estar doente, cansado e fraco e ter um
vislumbre de falsa felicidade só serve para "encher o saco" e trazer
mais frustração ao acordar e encarar a dura realidade.
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