terça-feira, 2 de junho de 2026

CORDEL: A MULHER QUE MAIS AMEI - FRAGMENTO - PATATIVA DO ASSARÉ - COM GABARITO

 Cordel: A Mulher Que Mais Amei – Fragmento

           Patativa do Assaré

Era um modelo perfeito 
A mulher que mais amei, 
Linda e simpática de um jeito 
Que eu mesmo dizer não sei. 
Era bela, muito bela; 
Para comparar com ela, 
Outra coisa eu não arranjo 
E por isso tenho dito 
Que se anjo é mesmo bonito, 
Era o retrato dum anjo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGU6ezcijxL5acd4s2uGVQysE_kIkpOXxBGBplDyjdEFJ498tmhiGrBfa398m_gBreBZZ988mk8R__k3i3R20VFN2dJtUNtLZVBIUAEPHhx9aBhbaWXXEGQGNMEjxUyRI0_APsDKqrfq-aedLl0dRakOMuOZH5FD1wRtnIn1YCXxDkVECeTwtOgTkTCX8/s1600/PATATIVA.jpg


Sei que alguém não me acredita, 
Mas eu digo com razão, 
Foi a mulher mais bonita 
De cima de nosso chão; 
Era mesmo de encomenda 
E do amor daquela prenda 
Eu fui o merecedor, 
Eu era mesmo sozinho 
Dono de todo carinho 

Daquele anjo encantador.

Era bem firme a donzela, 

Só em mim vivia pensando. 
Quando eu olhava ela, 
Ela já estava me olhando. 
Para a gente conversar 
Quando eu não ia, ela vinha, 
Um do outro sempre bem perto 
Nosso amor dava tão certo 
Quem nem faca na bainha.

E por sorte ou por capricho, 

Eu tinha prata, ouro e cobre. 
Dinheiro em mim era lixo 
Em casa de gente pobre. 
Nós nunca perdíamos ato 
De cinema e de teatro 
De drama e mais diversão, 
Não faltava coisa alguma, 
As notas eu tinha de ruma 
Para nós andar de avião.

Meu grande contentamento, 
Não havia mais maior 
E nossos dois pensamentos 
Pensava uma coisa só. 
Para desfrutar a minha vida 
Perto de minha queria 
Eu não poupava dinheiro. 
Tanta sorte nós tivemos 
Que muitas viagens fizemos 
Nas terras do estrangeiro.

[...]

Era boa a nossa sorte 
E n]ao mudava um segundo 
Ninguém pensava na morte 
E o céu era aqui no mundo. 
Na refeição nós comia 
Das melhores iguarias 
Sem falar de carne e arroz 
E por isso muita gente 
Ficava rangendo os dentes 
Com ciúmes de nós dois.

Foi uma coisa badeja 
A vida que eu desfrutei, 
Mas para quem tiver inveja 
Dessa vida que levei 
Com tanta felicidade, 
Eu vou dizer a verdade, 
Pois não engano ninguém. 
Aquele anjinho risonho 
Eu vi foi durante um sonho; 
Mulher nunca me quis bem!

A história não foi verdade, 
Todo sonho é mentiroso 
Aquela felicidade 
De tanto luxo e de gozo 
Sem o menor sacrifício, 
Foi negócio fictício, 
Não foi coisa verdadeira. 
Eu fiquei dando o cavaco: 
“Este alimento fraco 
Só dá para sonhar besteira.”

De noite eu tinha jantado 
Um mucunzá sem tempero 
E acordei alvoroçado 
Sem mulher e sem dinheiro; 
Ainda reparei bem 
Para vê se via alguém 
De junto de minha rede 
Mas, em vez de tudo aquilo 
Só ouvi cantando o grilo 
Nos buracos da parede.

Quando acordei estava só 
Sem ter ninguém do meu lado, 
Era muito mais melhor 
Que eu não tivesse sonhado. 
Quem já vai no fim da estrada 
Levando a carga pesada 
De sofrimento sem fim, 
Doente, cansado e fraco 
Vem um sonho enchendo o saco 
Piorar quem já está ruim.”

Patativa do Assaré. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 185-187.

Entendendo o cordel:

01 – Nos dois primeiros estrofes, o eu lírico faz uma descrição detalhada da aparência da mulher amada. Que recurso comparativo ele utiliza para expressar essa beleza e como ele define a reciprocidade desse amor?

      O eu lírico compara a mulher a um anjo, afirmando que ela era o "retrato dum anjo" e a criatura mais bonita "de cima de nosso chão". Quanto à reciprocidade, ele deixa claro que o sentimento era mútuo e exclusivo, pois afirma ter sido o único merecedor e "dono de todo carinho daquele anjo encantador".

02 – No terceiro estrofe, o poeta recorre a uma metáfora popular e a descrições cotidianas para explicar a sintonia do casal. Explique a metáfora utilizada e como era a dinâmica de comunicação entre eles.

      A sintonia do casal é coroada com a metáfora "Nem faca na bainha", que expressa um encaixe perfeito, ou seja, que eles combinavam perfeitamente. A dinâmica de comunicação era marcada pela busca mútua e atenção constante: quando se olhavam, já havia reciprocidade no olhar e, se um não podia ir conversar, o outro tomava a iniciativa de ir ao seu encontro.

03 – O eu lírico descreve uma vida de extrema riqueza e ostentação. Quais são os luxos e prazeres mencionados por ele que contrastam drasticamente com a realidade da maioria das pessoas?

      Ele menciona possuir "prata, ouro e cobre" em abundância, afirmando que o dinheiro em suas mãos era tanto que parecia "lixo em casa de gente pobre" e que tinha notas "de ruma". Entre os luxos usufruídos pelo casal, destacam-se as idas frequentes ao cinema, teatro e dramas, viagens de avião e viagens internacionais para "terras do estrangeiro", além do consumo de refeições com as "melhores iguarias".

04 – Qual é a grande reviravolta (clímax) que ocorre no poema e como ela altera o sentido de tudo o que foi narrado até então?

      A reviravolta ocorre quando o eu lírico revela que toda aquela vida de riqueza, viagens e felicidade ao lado da mulher perfeita não passou de um sonho. Ele confessa que "mulher nunca me quis bem" e que a história era mentira, transformando o tom do poema de um relato romântico e triunfante para uma realidade de solidão e desilusão.

05 – O que o eu lírico aponta, no plano real, como a causa física e biológica para ter tido um sonho tão fantasioso e cheio de luxos?

      O poeta atribui o sonho fantasioso à sua alimentação precária daquela noite. Ele revela ter jantado apenas "um mucunzá sem tempero" e conclui, de forma bem-humorada e irônica, que aquele "alimento fraco só dá para sonhar besteira".

06 – Ao acordar do sonho, qual é o cenário real que o eu lírico encontra ao seu redor e como esse ambiente é descrito?

      Ao acordar alvoroçado, ele se depara com a mais completa solidão e pobreza. Ele percebe que está deitado em uma rede, sem mulher e sem dinheiro. Em vez do luxo sonhado, o ambiente é silencioso e precário, restando-lhe apenas ouvir o canto de um grilo saindo "nos buracos da parede".

07 – No último estrofe, o eu lírico reflete sobre o impacto de sonhar acordado para quem já vive uma realidade difícil. Qual é a conclusão dele sobre os efeitos desse sonho em sua vida atual?

      O eu lírico conclui que o sonho, em vez de trazer alento, acabou por piorar o seu estado. Para quem já está no "fim da estrada" carregando uma "carga pesada de sofrimento sem fim", estar doente, cansado e fraco e ter um vislumbre de falsa felicidade só serve para "encher o saco" e trazer mais frustração ao acordar e encarar a dura realidade.

 

 

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