Cordel: Cartilha do Povo – Fragmento
Raimundo Santa Helena
Ninguém nasceu neste mundo
Pra sofrer e virar Santo
Deus nos fez para gozar
Mais do que derramar pranto
Mas na panela do povo
Só tem farofa de ovo
Quando almoço não janto.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5jp_FHL-G11_XttepX_dxQyScecWx5IHwTDM4NKV_injnWYN_uzjQfFfHpMRmbH5JUV6leob0tpBh4cg064TyqPKqpIyCTsd8LhQff7-SXsDtf5vIqkG7mZRe8dXZzFvo_7jAxbrGNyuH_1M1jcUHLyOSl1UP7ctghB_Fy9h_fVxKo4VC9-VUDB1FWo8/s1600/images.jpgE todo trabalhador
Ao teto vai ter direito
Um salário compatível
Pelo que faz ou foi feito
Quem lavrar terra é dono
Não haverá abandono
Para quem tiver defeito.
[...]
Do progresso brasileiro
O povão não usufrui
Embora com seu suor
É o que mais contribui
Mas num regime que suga
O honesto que madruga
Nada que preste possui.
Ninguém aguenta mais
Abrangentes privações
Estrangeiros controlando
No Brasil nossas ações
Vamos revirar as normas
Decretar nossas reformas
A partir das eleições.
[...]
Queremos Democracia
Plena e Constituinte.
Não queremos o menor
Vivendo como pedinte
O BNH dos nobres
Deve se virar pros pobres
Queremos mais o seguinte:
[...]
Nosso povo apoiado
Na vida de mutirão
E queremos a mulher
Com mais valorização
Nosso meio ambiente
Puro como lá se sente
Nas florestas do sertão.
[...]
Que haja maior respeito
Pelos grupos raciais
Também pelas minorias
Porque nós somos iguais
Um ensino democrático
Humano moderno prático
Justiça nos tribunais.
[...]
Nenhum Governo respeita
Povão que é desunido
O Lobo vira Senhor
Do cordeiro encolhido
Quem não se junta perece
Mas quem se une merece
Um viver evoluído.
[...]
Raimundo Santa Helena. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio.
Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 203.
Entendendo o cordel:
01
– Na primeira estrofe, o autor faz um contraste entre o plano divino para a
humanidade e a realidade material do povo trabalhador. Como esse contraste é
construído e qual expressão popular ilustra a escassez vivida por eles?
O contraste é
construído ao afirmar que Deus criou o ser humano para gozar da vida e não para
sofrer ou derramar pranto. No entanto, a realidade material contraria esse
plano divino devido à pobreza. A expressão que ilustra essa escassez é
"Quando almoço não janto", que, somada à "farofa de ovo" na
panela, sintetiza a situação de insegurança alimentar e a falta de recursos
básicos.
02
– Na terceira estrofe, o eu lírico aborda a contradição entre a força de
trabalho e a divisão das riquezas no país. Segundo o texto, por que o
trabalhador honesto "nada que preste possui"?
O trabalhador não
possui bens de qualidade porque o país vive sob um "regime que suga"
o cidadão. O texto aponta a injustiça social de que, embora o "povão"
seja quem mais contribui para o progresso brasileiro por meio do seu suor e de
madrugar para trabalhar, ele é excluído dos benefícios desse desenvolvimento,
não conseguindo usufruir daquilo que produz.
03
– O cordelista manifesta um forte desejo de soberania nacional e mudança
política. De acordo com a quarta estrofe, quem está controlando as ações no
Brasil e qual é o mecanismo proposto pelo autor para alterar essa situação?
De acordo com o
texto, são os "estrangeiros" que estão controlando as ações dentro do
Brasil, gerando privações que a população não aguenta mais. O mecanismo
proposto pelo autor para mudar essa realidade, revirar as normas e decretar as
reformas necessárias é a via democrática e institucional, especificamente
através do voto nas "eleições".
04
– Nas estrofes centrais, o autor lista uma série de bandeiras e direitos
sociais necessários para uma "Democracia Plena". Quais são as
demandas apresentadas pelo eu lírico no que diz respeito à moradia, ecologia e
igualdade social?
No âmbito da
moradia, ele exige que o BNH (Banco Nacional da Habitação, historicamente
voltado aos nobres) seja direcionado para os pobres e que o menor não viva como
pedinte. Na ecologia, demanda a preservação do meio ambiente puro, como as
florestas do sertão. Já na igualdade social, defende a valorização da mulher, o
respeito aos grupos raciais, às minorias e a garantia de que todos sejam
tratados como iguais.
05
– Na última estrofe, o poeta utiliza a metáfora do "Lobo" e do
"cordeiro". Qual é a lição moral que essa comparação transmite sobre
a importância da organização popular frente aos governantes?
A metáfora do
"Lobo" (que representa os governantes opressores ou o poder
instituído) e do "cordeiro encolhido" (que representa o povo acuado)
serve para alertar que nenhum governo respeita uma população desunida. A lição
moral é a de que a passividade e o isolamento levam à opressão ("quem não
se junta perece"), enquanto a união do povo é a única ferramenta capaz de
conquistar o respeito e um "viver evoluído".
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