terça-feira, 2 de junho de 2026

CORDEL: CARTILHA DO POVO - FRAGMENTO - RAIMUNDO SANTA HELENA - COM GABARITO

 Cordel: Cartilha do Povo – Fragmento

           Raimundo Santa Helena

Ninguém nasceu neste mundo

Pra sofrer e virar Santo

Deus nos fez para gozar

Mais do que derramar pranto

Mas na panela do povo

Só tem farofa de ovo

Quando almoço não janto.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5jp_FHL-G11_XttepX_dxQyScecWx5IHwTDM4NKV_injnWYN_uzjQfFfHpMRmbH5JUV6leob0tpBh4cg064TyqPKqpIyCTsd8LhQff7-SXsDtf5vIqkG7mZRe8dXZzFvo_7jAxbrGNyuH_1M1jcUHLyOSl1UP7ctghB_Fy9h_fVxKo4VC9-VUDB1FWo8/s1600/images.jpg


E todo trabalhador

Ao teto vai ter direito

Um salário compatível

Pelo que faz ou foi feito

Quem lavrar terra é dono

Não haverá abandono

Para quem tiver defeito.

[...] 

Do progresso brasileiro

O povão não usufrui

Embora com seu suor

É o que mais contribui

Mas num regime que suga

O honesto que madruga

Nada que preste possui.

 

Ninguém aguenta mais

Abrangentes privações

Estrangeiros controlando

No Brasil nossas ações

Vamos revirar as normas

Decretar nossas reformas

A partir das eleições.

[...] 

Queremos Democracia

Plena e Constituinte.

Não queremos o menor

Vivendo como pedinte

O BNH dos nobres

Deve se virar pros pobres

Queremos mais o seguinte:

[...] 

Nosso povo apoiado

Na vida de mutirão

E queremos a mulher

Com mais valorização

Nosso meio ambiente

Puro como lá se sente

Nas florestas do sertão.

[...] 

Que haja maior respeito

Pelos grupos raciais

Também pelas minorias

Porque nós somos iguais

Um ensino democrático

Humano moderno prático

Justiça nos tribunais.

[...]

Nenhum Governo respeita

Povão que é desunido

O Lobo vira Senhor

Do cordeiro encolhido

Quem não se junta perece

Mas quem se une merece

Um viver evoluído.

[...]

Raimundo Santa Helena. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 203.

Entendendo o cordel:

01 – Na primeira estrofe, o autor faz um contraste entre o plano divino para a humanidade e a realidade material do povo trabalhador. Como esse contraste é construído e qual expressão popular ilustra a escassez vivida por eles?

      O contraste é construído ao afirmar que Deus criou o ser humano para gozar da vida e não para sofrer ou derramar pranto. No entanto, a realidade material contraria esse plano divino devido à pobreza. A expressão que ilustra essa escassez é "Quando almoço não janto", que, somada à "farofa de ovo" na panela, sintetiza a situação de insegurança alimentar e a falta de recursos básicos.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico aborda a contradição entre a força de trabalho e a divisão das riquezas no país. Segundo o texto, por que o trabalhador honesto "nada que preste possui"?

      O trabalhador não possui bens de qualidade porque o país vive sob um "regime que suga" o cidadão. O texto aponta a injustiça social de que, embora o "povão" seja quem mais contribui para o progresso brasileiro por meio do seu suor e de madrugar para trabalhar, ele é excluído dos benefícios desse desenvolvimento, não conseguindo usufruir daquilo que produz.

03 – O cordelista manifesta um forte desejo de soberania nacional e mudança política. De acordo com a quarta estrofe, quem está controlando as ações no Brasil e qual é o mecanismo proposto pelo autor para alterar essa situação?

      De acordo com o texto, são os "estrangeiros" que estão controlando as ações dentro do Brasil, gerando privações que a população não aguenta mais. O mecanismo proposto pelo autor para mudar essa realidade, revirar as normas e decretar as reformas necessárias é a via democrática e institucional, especificamente através do voto nas "eleições".

04 – Nas estrofes centrais, o autor lista uma série de bandeiras e direitos sociais necessários para uma "Democracia Plena". Quais são as demandas apresentadas pelo eu lírico no que diz respeito à moradia, ecologia e igualdade social?

      No âmbito da moradia, ele exige que o BNH (Banco Nacional da Habitação, historicamente voltado aos nobres) seja direcionado para os pobres e que o menor não viva como pedinte. Na ecologia, demanda a preservação do meio ambiente puro, como as florestas do sertão. Já na igualdade social, defende a valorização da mulher, o respeito aos grupos raciais, às minorias e a garantia de que todos sejam tratados como iguais.

05 – Na última estrofe, o poeta utiliza a metáfora do "Lobo" e do "cordeiro". Qual é a lição moral que essa comparação transmite sobre a importância da organização popular frente aos governantes?

      A metáfora do "Lobo" (que representa os governantes opressores ou o poder instituído) e do "cordeiro encolhido" (que representa o povo acuado) serve para alertar que nenhum governo respeita uma população desunida. A lição moral é a de que a passividade e o isolamento levam à opressão ("quem não se junta perece"), enquanto a união do povo é a única ferramenta capaz de conquistar o respeito e um "viver evoluído".

 

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