Conto: A presença indígena no imaginário popular – Fragmento
Leonardo Boff
Muitas figuras do imaginário popular e
do folclore nacional derivam da tradição indígena.
No Norte são muito conhecidas as
histórias ligadas ao boto, o golfinho amazônico. Há o vermelho, perigoso, e o
preto, amigo dos seres humano, empurrando os náufragos para as areias. No
fabulário amazônico ele aparece sob a forma de um rapaz elegantemente vestido
de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as moças. Comumente os
filhos naturais são denominados “filhos do boto”.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_TjPz0bcL5sja8nX_1mEXFqVHrRZVd9cBLQPxXTdiny5mZgr4djhD_Rf5ZedItB_JwqzVdo8p8mWIO2SCUk-qwu161ZMNSLgHds-16T7MoW-cWQP_YSIFlDChzdHPDUbUyG0YkGQFHvZgd40x9I7pxyJvfv-PupKtf5TW-a0J5GiNYtxIR7GGC1kb35U/s320/junior-tapirape-asiva-acervo-fundo-brasil.jpeg Outra lenda está ligada à cobra-grande,
a sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Se há um animal temido pelos
amazônicos é a cobra-grande. Diz-se que em noites de tempestades, frequentes na
região, ela emerge com os olhos em forma de faróis luminosos ou como um enorme
barco, navegando ao léu para perseguir navegantes. Ela é também chamada de
Cobra Norato. [...]
Importante no imaginário popular é o
caapora ou curupira. Trata-se de uma entidade benfazeja que protege a natureza
e as caças e pune severamente quem mata sem necessidade.
É do tamanho de um menino e anda com os
pés para trás para confundir as pessoas, pois estas, vendo os rastos, não sabem
se ele foi ou se veio. Gosta de aguardente e fumo. Para não ser incomodado pelo
caapora é sempre bom deixar aqui e acola na mata um pouco de cachaça e fumo
para ele. no Nordeste, quando não se sente satisfeito, mata as peoas fazendo
cócegas. No vale do São Francisco é apresentado como um caboclinho com rosto
redondo e um olho no meio da testa, habitando as florestas.
Com função semelhante ao
caapora/curupira há o anhangá, espécie de duende, protetor dos animais
ameaçados. Persegue os caçadores irresponsáveis que matam indiscriminadamente
ou que abatem animais em fase de nidificação ou de amamentação e as fêmeas que
estão prenhes. Ele lhes transmite uma febre terrível, levando-os à loucura.
Para muitos é temida a panema. É uma
energia negativa que produz má sorte e azar. Pode sobrevir a caçadores e a
pescadores, ou a mulheres menstruadas ao tocarem implementos de caça e pesca,
ou ainda a pessoas especialmente invejosas. Elas atraem muito azar. Para se
livrar, importa tomar banhos de ervas especiais, com perfume especialmente
forte e sabor amargo. [...]
BOFF, Leonardo. O
casamento entre o céu e a terra – Contos dos povos indígenas do Brasil. São
Paulo, Salamandra, 2001. p. 152.
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 28-29.
Entendendo o conto:
01
– De acordo com o texto, como a lenda do boto se manifesta no fabulário
amazônico e de que maneira ela é utilizada pela população local para explicar
um fenômeno social?
No fabulário
amazônico, o boto (especificamente o vermelho) se transforma em um rapaz
elegante, vestido de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as
moças. Na sociedade local, essa lenda é utilizada de forma popular para
justificar a paternidade desconhecida, fazendo com que os filhos de mães
solteiras ou de pais ausentes sejam comumente chamados de “filhos do boto”.
02
– O texto menciona a "cobra-grande" (ou Cobra Norato) como um dos
animais mais temidos pelos habitantes da Amazônia. Como esse ser mítico é
descrito durante as tempestades e qual é o seu comportamento em relação aos
navegantes?
Segundo o
fragmento, a cobra-grande é uma sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Em
noites de tempestade, ela emerge das águas assumindo uma aparência assustadora:
seus olhos brilham como faróis luminosos ou ela se assemelha a um enorme barco
que navega sem rumo (ao léu) com o objetivo específico de perseguir os
navegantes.
03
– Embora o caapora (ou curupira) seja descrito como uma entidade benfazeja que
protege a natureza, ele também adota estratégias para confundir as pessoas e
punir quem o desagrada. Quais são essas características físicas e
comportamentais mencionadas no texto?
Fisicamente, ele
é do tamanho de um menino e possui os pés voltados para trás, o que confunde as
pessoas que tentam seguir seus rastros, pois não sabem se ele está indo ou
vindo. Além disso, no Nordeste, se ele não se sentir satisfeito (já que gosta
de cachaça e fumo), ele pune as pessoas matando-as de cócegas. Já no Vale do
São Francisco, sua aparência muda, sendo descrito como um caboclinho de rosto
redondo e com um único olho no meio da testa.
04
– O anhangá possui uma função muito semelhante à do caapora/curupira. Explique
qual é o papel do anhangá na floresta e de que forma ele pune os caçadores que
agem de maneira irresponsável.
O anhangá atua
como um protetor dos animais ameaçados, perseguindo caçadores que matam
indiscriminadamente ou que abatem fêmeas grávidas, animais no período de
amamentação ou em fase de ninho (nidificação). A punição aplicada por esse
duende aos caçadores irresponsáveis consiste em transmitir-lhes uma febre
terrível que os leva à loucura.
05
– Explique o conceito de "panema" segundo o texto de Leonardo Boff.
Quem pode ser afetado por ela e qual é a solução tradicional apontada para se
livrar desse mal?
A panema é
definida como uma energia negativa que atrai má sorte e azar. Ela pode afetar
caçadores e pescadores, pessoas excessivamente invejosas ou mulheres
menstruadas que tocam em ferramentas de caça e pesca. Para se livrar desse
azar, a tradição indica que a pessoa deve tomar banhos preparados com ervas
especiais, que possuam um perfume bastante forte e um sabor amargo.
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