terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTO: A PRESENÇA INDÍGENA NO IMAGINÁRIO POPULAR - FRAGMENTO - LEONARDO BOFF - COM GABARITO

 Conto: A presença indígena no imaginário popular – Fragmento

           Leonardo Boff

        Muitas figuras do imaginário popular e do folclore nacional derivam da tradição indígena.

        No Norte são muito conhecidas as histórias ligadas ao boto, o golfinho amazônico. Há o vermelho, perigoso, e o preto, amigo dos seres humano, empurrando os náufragos para as areias. No fabulário amazônico ele aparece sob a forma de um rapaz elegantemente vestido de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as moças. Comumente os filhos naturais são denominados “filhos do boto”.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_TjPz0bcL5sja8nX_1mEXFqVHrRZVd9cBLQPxXTdiny5mZgr4djhD_Rf5ZedItB_JwqzVdo8p8mWIO2SCUk-qwu161ZMNSLgHds-16T7MoW-cWQP_YSIFlDChzdHPDUbUyG0YkGQFHvZgd40x9I7pxyJvfv-PupKtf5TW-a0J5GiNYtxIR7GGC1kb35U/s320/junior-tapirape-asiva-acervo-fundo-brasil.jpeg


        Outra lenda está ligada à cobra-grande, a sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Se há um animal temido pelos amazônicos é a cobra-grande. Diz-se que em noites de tempestades, frequentes na região, ela emerge com os olhos em forma de faróis luminosos ou como um enorme barco, navegando ao léu para perseguir navegantes. Ela é também chamada de Cobra Norato. [...]

        Importante no imaginário popular é o caapora ou curupira. Trata-se de uma entidade benfazeja que protege a natureza e as caças e pune severamente quem mata sem necessidade.

        É do tamanho de um menino e anda com os pés para trás para confundir as pessoas, pois estas, vendo os rastos, não sabem se ele foi ou se veio. Gosta de aguardente e fumo. Para não ser incomodado pelo caapora é sempre bom deixar aqui e acola na mata um pouco de cachaça e fumo para ele. no Nordeste, quando não se sente satisfeito, mata as peoas fazendo cócegas. No vale do São Francisco é apresentado como um caboclinho com rosto redondo e um olho no meio da testa, habitando as florestas.

        Com função semelhante ao caapora/curupira há o anhangá, espécie de duende, protetor dos animais ameaçados. Persegue os caçadores irresponsáveis que matam indiscriminadamente ou que abatem animais em fase de nidificação ou de amamentação e as fêmeas que estão prenhes. Ele lhes transmite uma febre terrível, levando-os à loucura.

        Para muitos é temida a panema. É uma energia negativa que produz má sorte e azar. Pode sobrevir a caçadores e a pescadores, ou a mulheres menstruadas ao tocarem implementos de caça e pesca, ou ainda a pessoas especialmente invejosas. Elas atraem muito azar. Para se livrar, importa tomar banhos de ervas especiais, com perfume especialmente forte e sabor amargo. [...]

BOFF, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra – Contos dos povos indígenas do Brasil. São Paulo, Salamandra, 2001. p. 152.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 28-29.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, como a lenda do boto se manifesta no fabulário amazônico e de que maneira ela é utilizada pela população local para explicar um fenômeno social?

      No fabulário amazônico, o boto (especificamente o vermelho) se transforma em um rapaz elegante, vestido de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as moças. Na sociedade local, essa lenda é utilizada de forma popular para justificar a paternidade desconhecida, fazendo com que os filhos de mães solteiras ou de pais ausentes sejam comumente chamados de “filhos do boto”.

02 – O texto menciona a "cobra-grande" (ou Cobra Norato) como um dos animais mais temidos pelos habitantes da Amazônia. Como esse ser mítico é descrito durante as tempestades e qual é o seu comportamento em relação aos navegantes?

      Segundo o fragmento, a cobra-grande é uma sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Em noites de tempestade, ela emerge das águas assumindo uma aparência assustadora: seus olhos brilham como faróis luminosos ou ela se assemelha a um enorme barco que navega sem rumo (ao léu) com o objetivo específico de perseguir os navegantes.

03 – Embora o caapora (ou curupira) seja descrito como uma entidade benfazeja que protege a natureza, ele também adota estratégias para confundir as pessoas e punir quem o desagrada. Quais são essas características físicas e comportamentais mencionadas no texto?

      Fisicamente, ele é do tamanho de um menino e possui os pés voltados para trás, o que confunde as pessoas que tentam seguir seus rastros, pois não sabem se ele está indo ou vindo. Além disso, no Nordeste, se ele não se sentir satisfeito (já que gosta de cachaça e fumo), ele pune as pessoas matando-as de cócegas. Já no Vale do São Francisco, sua aparência muda, sendo descrito como um caboclinho de rosto redondo e com um único olho no meio da testa.

04 – O anhangá possui uma função muito semelhante à do caapora/curupira. Explique qual é o papel do anhangá na floresta e de que forma ele pune os caçadores que agem de maneira irresponsável.

      O anhangá atua como um protetor dos animais ameaçados, perseguindo caçadores que matam indiscriminadamente ou que abatem fêmeas grávidas, animais no período de amamentação ou em fase de ninho (nidificação). A punição aplicada por esse duende aos caçadores irresponsáveis consiste em transmitir-lhes uma febre terrível que os leva à loucura.

05 – Explique o conceito de "panema" segundo o texto de Leonardo Boff. Quem pode ser afetado por ela e qual é a solução tradicional apontada para se livrar desse mal?

      A panema é definida como uma energia negativa que atrai má sorte e azar. Ela pode afetar caçadores e pescadores, pessoas excessivamente invejosas ou mulheres menstruadas que tocam em ferramentas de caça e pesca. Para se livrar desse azar, a tradição indica que a pessoa deve tomar banhos preparados com ervas especiais, que possuam um perfume bastante forte e um sabor amargo.

 

  

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